quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O JOGO DUPLO

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Há algum tempo venho fazendo reflexões sobre o fenômeno do poder e sobre as sensações das relações humanas. Todas as reflexões nascem a partir da percepção de fatos ao redor, captadas por meio dos órgãos do sentido. As histórias são contadas por meio de textos analíticos sem a atenção aos nomes de personalidades e eventos.
Tal estratégia parte da crença que a história é uma estrutura e que os eventos não são os únicos, pois se repetem com diferentes pessoas e em diferentes contextos. Aliás, em algum ponto, o comportamento humano se harmoniza em suas qualidades e defeitos, principalmente porque o ritual do poder não é inédito, reproduzindo a dinâmica das tragédias retratadas na história.
O DUELO DAS PALAVRAS
As palavras são construções dialéticas de um jogo da verdade. A verdade reclama pela legalidade e gera disputas no campo da argumentação. Do ponto de vista da razão, impõe ao derrotado a propriedade da mentira. Há quem queira relativar, ponderando que os diferentes pontos de vista são partes integrantes de uma mesma verdade que se apresenta incompleta diante de múltiplos olhares. Por isto, a patente da verdade é disputada ao sabor dos interesses, sendo que a informação pode ser manipulada em seus ângulos e formas, como uma massa de modelar.
Ainda, há quem invoque o argumento de autoridade para inibir a contestação. São os doutores e experts que se notabilizaram em formar opinião e inspirar pessoas.  Eles reclamam o silêncio das pessoas para apresentarem suas teses e emudecem a argumentação dos súditos com sua notável oratória. A tarefa de monopolizar a platéia é um convite ao elogio da loucura, visto que não há diálogo convincente sem o propósito da divergência.
Fabricar a ilusão da democracia é maior falácia dos líderes autoritários e nessa ideologia o discurso da igualdade e da fraternidade encontra o colo dos incautos. Aliás, as palavras podem ser zonas de conforto para conter qualquer tentativa de revolta, com o argumento que a realidade é harmônica e somente os homens que são os causadores dos infortúnios. Por isto, há discursos para qualquer tipo de platéia bem como estratégias para dirimir possibilidade de percepção do contraditório.
A desculpa do mal entendido já se tornou senso comum em todos os extratos sociais, para encobrir a procedência maligna das maquinações humanas. O fato de as palavras terem diferentes conotações, conforme o contexto, possibilita que as armadilhas do engano se propagam no terreno fértil da subjetividade.
Há algum tempo, o homem era capaz de honrar suas palavras por meio do compromisso firmado com um aperto de mãos. Hoje, as palavras não resolvem mesmo que sejam afirmadas por meio de testemunhas. Porém, a prova documental não atenua o conflito antes o agrava, pois o novo foco da discussão brota na disputa de quem detém a melhor linha de interpretação do texto. O conceito de verdade passa a ser interpretativo e quem conseguir superar os adversários no poder da argumentação, julga ser quem expressa a verdade.
O conceito de ideologia dado por filósofo Pedro Demo é o mais apropriado, pois cada um quer justificar suas posições políticas. A disputa pelo poder compreende as conivências e conveniências, dando novo desenho a famigerada coerência. Vale, então, o jogo de cena em que os elogios e as críticas são quadros apresentados em diferentes contextos de uma mesma peça. Assim, a integridade passa a ser julgada a partir do pressuposto da dúvida e o homem sincero passa a ser incrédulo das reais intenções do coração das pessoas ao seu redor.
Por conseqüência, surge nova tarefa: ouvir e decodificar as palavras, pois elas são instrumentos de poder como se fossem flechas nas mãos dos astutos e armadilhas para apanhar informações privilegiadas. Também, falar tornou-se uma atividade oportunista e perigosa enquadrando pessoas na encenação da disputa do poder. Qualquer palavra mal pronunciada conduz a um julgamento do qual a pessoa poderá ser absolvida ou culpada no tribunal da inquirição. Nesse caso, fabricar álibi é um meio mais usado para consolidar as explicações. Aliás, até o silêncio dos inocentes pode ser arbitrado como omissão, covardia e indecisão. Logo, a distância dos holofotes é um mecanismo de fuga dos possíveis infortúnios.
Nisto é notável que a sabedoria tornou-se incipiente no universo da valorização da esperteza. Para tanto, surge um neologismo para atenuar a deslealdade e valorizar o jogo de interesses; ou seja, as parcerias por conveniência. Já presenciei a desfaçatez de alguém dizer não ser amigo de ninguém, pois era o profissional suficiente para ater-se na individualidade das suas atribuições. Depois, para contemporizar defendia a parceria, dizendo que ninguém nasceu para ficar sozinho. Logo, suas alegações eram hedonistas, visando apenas as satisfações do seu ego.
É possível imaginar o nível de adrenalina liberada nas preliminares dos embates de grupos antagônicos. No quadro das intencionalidades surgem as definições de altruísmo e vilania, imputadas reciprocamente. As mágoas e os ressentimentos estão bem guardados no cofre seguro do inconsciente para serem liberadas na forma de recalque. Aliás, a sinceridade é a virtude mais invocada pelas lideranças sádicas de poder que disputam seguidores como se fossem suas propriedades intelectuais. Nesse caso, exercer a ascendência sobre alguém e capitalizar apoio no momento oportuno. Tal segurança é ilusória, pois como uma palha os indecisos são alçados a qualquer vento ideológico.
A ética é um mal fadado álíbi para disciplinar comportamentos humanos embriagados pela busca da supremacia das demandas corporativistas, com a alegação de interesse coletivo. Mas, até quando se confunde os interesses individuais com os coletivos?
Assim, viver na encruzilhada de egos exacerbados é colher espinhos de ouriços, tentando evitando qualquer distração para não se ferir. Talvez, a contemplação como platéia seja uma estratégia medrosa e uma tentativa de demonstrar a pretensa neutralidade. A melhor zona de conforto é desenvolver o aprendizado das relações de poder, tentar compreendê-lo e conduzir-se prudentemente: estar pronto para ouvir e tardio para falar; examinar tudo e reter o que é proveitoso.
CONCLUSÃO
A dinâmica da história está situada nos conflitos das relações humanas, na disputa de poder, nos embates sangrentos que mudaram a geografia do mundo. Os interesses megalomaníacos dos imperadores da antiguidade ainda inspiram pessoas sedentas por um lugar ao sol, mesmo que para isto seja necessário lamber as feridas de suas vítimas.
REFERÊNCIAS
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