sábado, 24 de dezembro de 2011

TRAZEMOS NOS OLHOS




Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Há algum tempo venho compartilhando ideias em rodas de conversas com amigos sobre assuntos de natureza moral, alguns princípios e especulações teóricas. Nessas conversas surgia sempre a indignação com o mal feito, a injustiça e as posturas equivocadas. Ficava escandalizado como muitas pessoas, algumas delas declaradamente religiosas, faziam o caminho inverso do desvendamento da luz da existência, impondo a ideologia da interdição do corpo com uma política mesquinha, tapando a boca do poço da verdade para os sedentos.
Parece que quando a oportunidade de a verdade ser desvendada sempre surge algum fato novo para desviar a atenção e encobri-la por mais um tempo. Enquanto isto, alguns loucos dialogam sozinhos suas inquietações e, quando falam, ficam na expectativa de serem silenciados. Aliás, protestar contra o erro incomoda os reis em seus palácios, pois a eminência de qualquer revolta ameaça a perda dos seus privilégios.
A voz dos loucos algumas vezes caminha contramão da lógica daqueles que exercem o domínio. É a voz do oprimido, do insatisfeito com a tragédia do caminho tortuoso e dos erros dos poderosos. Ainda, assim, a propaganda da eficiência e da culpa é estratégica mais adotada para engabelar os insensatos e encobrir seus deslizes. A intenção se perpetuar no poder e sobreviver lutando contra todos os adversários até a última gota. Não sabe que aqueles que resistem se alimentam das fraquezas para anunciar a necessidade de mudança.
A LUZ DOS OLHOS E O NATAL
Parece que o Natal é o pretexto para silenciar todos os argumentos da contradição e para a apresentação dos anúncios de paz, alegria e fraternidade. Nessa época, até os excluídos recebem presentes pressupostamente atribuídos a Papai Noel e os que passam fome recebem cestas básicas e de Natal. Destaca-se o refrão de que todos tenham um “Feliz Natal”, mesmo que seja apenas um dia no ano. É nesse momento que se lembra dos orfanatos, dos asilos, das favelas, dos miseráveis do sertão, etc. Contudo, o princípio do Natal deveria ser manifesto todos os dias do ano na vida das pessoas e não apenas nas celebrações do Natal.
Por isto, trazemos nos olhos neste Natal a expectativa de que nasça uma nova consciência entre os homens. Que a solidariedade não seja uma coerção cultural festiva, mas um ato de transformação moral e social. Do contrário, tudo volta a mesmice do individualismo canibalesco que se alimenta da exploração do próximo.
A mesma mensagem do Natal se repete há tempos, mas os valores vão se deformando ao longo dos anos, os conceitos de famílias se evaporam como naftalina nos armários e a educação dos filhos é terceirizada à mídia, aos grupos de amigos e à escola. Mas, no Natal, a família se reúne para celebrar a fartura da ceia com os excessos de comida e bebida alcoólica. A alegria efêmera é celebrada com um punhado de tradição, sem nenhuma reflexão teológica que o dia de Natal exige.
O Natal do Papai Noel faz a alegria do capitalismo, movimenta a indústria e comércio deste país e do mundo. O Natal comercial desvirtua a comemoração do nascimento Cristo do Cristianismo. Esse Natal é cheio de luzes, com presépios iluminados e custos elevados para os municípios – valor tão alto que poderia cobrir despesas com educação, saúde e/ou de outra área social. Mas que pena! Somos traídos pelos órgãos dos sentidos, a começar pela visão e a beleza que fascina é a nossa ilusão. Nem tudo que vimos é real por mais belo que seja. É uma cortina que nos veda o acesso a realidade dos fatos. A verdade está atrás da cortina ou como diz o escritor de Cantares está atrás dos nossos muros. Por isto que a candeia do corpo são olhos e os nossos olhos precisam ser bons para que o nosso corpo seja iluminado. Do contrário, seremos domesticados e orientados pelas viseiras da ideologia dominante.
As luzes e as celebrações deveriam mover as batidas do coração e abrir os olhos da alma. Porém, as lanternas do capitalismo só permitem ver troca de presentes, comidas e bebidas das ceias de Natal. Além disto, o Papai Noel torna-se o centro das atenções das crianças e dos adultos, pois o velhinho é um ídolo cultivado desde a antiguidade como símbolo do Natal. No lugar do presépio surge a árvore de Natal e os presentes em que cada um presenteia aos membros do ciclo de amizade.
Nosso olhar sobre o Natal não deveria ser mercantilista, amparado na tradição dos excessos. Esses excessos de comida, de bebidas e de despesas supérfluas que geram em muitos o endividamento. Nesse caso, as compras são realizadas porimpulso como meio de satisfação pessoal e social ou até mesmo ostentação.  
No advento de cada Natal fala-se muito em paz, solidariedade e justiça, mas, no decorrer do ano, tudo não passa de votos não cumpridos e esquecidos na masmorra das consciências. Trata-se da repetição de um ciclo de posturas viciadas e alienantes em que cada um devora o seu próximo como se fosse um manual de sobrevivência na selva, onde os mais fortes suplantam os mais fracos.
Convido a refletir com o filósofo Mario Sérgio Cortella sobre o Natal. Ele mostra que o Natal deve levar as pessoas sobre a importância do nascimento de Jesus e o que Ele significa para a história da Humanidade, como o seu ensino tem relação com a nossa vida e a fé que inaugura. A reflexão exige o silêncio, a pausa e até a mesmo a melancolia. Faz a pessoa se desligar do mundo e viajar para dentro de si mesma e verificar se a vida, ações e relações condizem com os princípios anunciados por Cristo. Também, a reflexão pode ser celebrada junto em família desde que a palavra “comemorar” signifique “lembrar juntos” com a família, os amigos etc. Claro, não existe Natal sem Cristo, assim como não existe Cristianismo sem Cristo. O Natal sem Cristo é uma tradição sem vida, extemporânea e midiática.  
CONCLUSÃO
Sou uma das pessoas que no Natal quero celebrar a encarnação do Verbo Divino, o significado da habitação de Deus entre os homens, seu propósito e essência. A vida não precisa ter trevas. Há a luz de uma estrela que brilhou no primeiro Natal e irradia sua doutrina no mundo. A palavra de Cristo é luz transformadora de vidas desde que a pessoa ande como Ele andou.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura dos textos do filósofo Mario Sérgio Cortella sobre o Natal, principalmente pela experiência religiosa e seus escritos enquanto teólogo.

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