sexta-feira, 15 de maio de 2026

VICIADOS EM FELICIDADE

                                          Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes 

                                                              Fonte: google.com.br/imagens

INTRODUÇÃO

            Estou acordando do breve exílio de silêncio em que as ideias se prenderam ao casulo da ociosidade e não quiseram se expor à luz da exposição pública. Ainda prostrado diante da necessidade de clamar as ideias em brasas, sinto-me provocado a revelar os pensamentos e as palavras que me ocorreram nos círculos solitários e diálogos cúmplices do anonimato.


1. MUITAS INFORMAÇÕES E POUCAS IDEIAS

            Escrever é como olhar para uma pedra e enxergar nela o produto final de uma obra de arte. É uma viagem ao mundo das ideias, é um deleite resultante da arte da contemplação e da reflexão. Isto exige pausa, aquele ócio produtivo em que a mente se liberta da crua realidade para desenhar o sonho, a imaginação, aquilo que apenas a alma pode enxergar. Há pessoas cegas, embriagadas pelo pessimismo da realidade, perderam a  fé e a esperança e adotaram para si um manual de sobrevivência. Ideias fletam com a esperança, pois compreende visão de mundo e propósito.

Não há força que possa silenciar a voz do coração, mesmo que esteja entretecido pela ignorância. Talvez, não consiga entender porque a ignorância é barulhenta e agressiva. Comparada a trevas eternas, a ignorância não representa a ausência de informações ou qualquer experiência sensorial. É possível ver e não enxergar, tocar e não sentir, ouvir e não entender, pois informação em si mesma não se constitui cultura nem conhecimento. Nem todo pensar se constitui uma ideia. A ideia é uma mensagem que inspira e transforma a vida das pessoas em sociedade.

            Sou como um pelicano no deserto... a escassez de ideias retrai a iniciativa de provocar a criticidade e curiosidade alheia. A ousadia está corroída pelo excesso de informações que duelam em polaridade progressista / conservadora. A seletividade alimentar do pensamento impõe-me a importante tarefa da renovação do entendimento, dispensando os casuísmos da cultura inútil, tão em voga em nossa sociedade. Parece que a cultura pretende se organizar em um sistema de crenças e eliminar todos os antagonismos possíveis. A polaridade do pensamento entrega a sociedade heróis e vilões e faz da ideologia o ópio do povo. Daí, a engenharia do pensamento tende a seguir o roteiro de fórmulas pré-estabelecidas. A fábrica de narrativas e jargões está trabalhando com excedente de mão-de-obra e o pensamento crítico é um arremedo desse coletivo de jargões. A pretensão do desenvolvimento do espírito crítico e criativo fracassa diante do confronto intolerante e agressivo de estudantes que não suportam o contraditório.

            Lamento ser ouvinte de frases repetidas, estar diante de atores que representam o papel de repetir um monólogo, escrito por intelectuais enclausurados no conforto de seus escritórios ou do lucro de seus escritos e livros. O argumento da intelectualidade segue um padrão enlatado e repetitivo à exaustão. A justificativa é que a linguagem matemática é o modelo aceitável no meio acadêmico e que produzir conhecimento é remendar e colar opiniões emprestadas. Por isto, os estudantes não leem, apenas veem recortes pré-selecionados por professores e repetem jargões e narrativas. Ler não é traduzir mensagens e responder perguntas. É enxergar a realidade que o texto procura retratar e desenhar cenários por meio da imaginação em que você participa com autor e expectador da história. Para quem lê, o texto tem o caráter autobiográfico, envolve sentimentos e produz reflexão sobre a história e o cotidiano. A leitura deve produz hipóteses, teses e novo olhar da realidade.

            Não há nada de novo debaixo do sol. Há muita gritaria, reclamação e desordem e poucas pessoas que respiram ideias. Há muitas passeatas, manifestações com palavras de ordem, vazias de ideias e não passam de som de panelas vazias. Nisto, vale a indagação do honrado professor americano Jaime Roy Doxsey que, em sala de aula na UFES, nos perguntou: “Por quê?” “Para quê?” “Quem decidiu isto?” “Qual o argumento de você?” Ele nos fez refletir se porventura não estávamos seguindo as massas, simplesmente para se juntar a um grupo, sem refletir sobre as ideias e seu propósito. Ele nos fez pensar que não basta seguir pessoas com obediência cega, sem conhecimento das reais intenções dos seus líderes. O honorável professor nos convidou a enxergar a realidade a partir dos olhos da alma e sentir o protagonismo da ação consciente. Não há ação consciente em uma pessoa com o ego adoecido, aprisionado em seus traumas e frustrações. O problema é que há pessoas seguindo líderes com o ego adoecido e projetam nos outros suas expectativas frustradas.

Assim, esgota-se toda a energia mental de propor uma rota diferente dos limites já estabelecidos. Ficamos reféns de um determinismo que aprisiona a liberdade em diferentes conceitos e preconceitos. Embora a retórica dos iluminados pensadores modernos preguem o homem como a medida de todas as coisas. A elegância do ideal de uma sociedade justa, fraterna e democrática ganha contornos messiânicos. Esse ideal fleta com o sonho de liberdade que ninguém experimentou nem mesmos as sociedades primitivas. O protagonismo humano esbarra no individualismo e disputa de poder de um grupo sobre o outro.

As redes sociais passaram a ser o tribunal da verdade no qual o juízo de valor ganha contornos de supremacia ideológica. Os pensadores que orbitam a leitura da realidade fora da ficção já estabelecida estão nos guetos da informalidade ou da baixa relevância. A argumentação exegética das ideias vem perdendo sua essência para a gritaria e uma oratória vazia amparada em uma visão parcial e deturpada da realidade. Assim, a diversidade de pensamento tão necessária para uma sociedade sadia é substituída por uma polarização com roupagem política e ideológica, desprovida do genuíno conhecimento. Aliás, até a produção de conhecimento sofre os efeitos danosos da ideologia. Ainda, há pesquisas produzidas para provar teses pré-concebidas ou sustentar conceitos e preconceitos. Um dos exemplos históricos foi o racismo científico1, construído nos séculos XVIII e XX, utilizando métodos pseudocientíficos para tentar legitimar a hierarquização dos seres humanos, justificar a escravidão, o colonialismo  e eugenia.

2. O VÍCIO EM FELICIDADE

            Nessa loucura incessante de vida, vejo congestionamento de pessoas como presas apressadas para o abate de suas rotinas diárias. A pressa gera ansiedade, agitação e reclamações diversas e esse ciclo se repete todos os dias como um filme repetido à exaustão. Aos poucos a humanidade do ser humano vai se transformando em uma engenharia de programação que cansa e exauria as forças diárias.

Vivemos na sociedade do cansaço2 em que o indivíduo se cobra para ser produtivo o tempo todo. Não há tempo para o pensamento e a reflexão. Por isto, somos a geração que menos lê livros e consume cultura. Temos um pensamento rápido para devorar a informação na velocidade de um átomo sem, contudo, absorvê-la. A memória virou uma faculdade seletiva e descartável. Por isso, o mercado de entretenimento pasteurizou a cultura a condicionar o ser humano a fórmulas prontas e de fácil absorção. O entretenimento transformou-se em cultura fútil e inútil, como se a alegria fosse um alimento a ser consumido com altas doses de adrenalina.

O vício em felicidade3 consiste na busca obsessiva por prazer constante impulsionada pelas redes sociais e dopamina fácil. Esse pensamento calcula a performance de uma vida perfeita, como se a vida um estado de bem-estar eterno e intenso. Essa expectativa de felicidade gera ansiedade e depressão. A cultura da emoção produz um estilo de vida de intensidade, sem calcular riscos e consequências. As pessoas viciadas em felicidade acreditam totalmente de outras para serem felizes – o que é verdade –, mas se torna perigoso quando se vive em busca da felicidade. Em casos extremos essa dependência impede a capacidade de raciocinar, e destrói, inclusive, a vida das pessoas próximas por ter uma demanda imediata e egocêntrica. O viciado pensa que deve ser atendido em tudo e não pode ser contrariado. É o reflexo de pessoas imaturas, sem base moral e frágeis emocionalmente, sendo que alguns foram acalentados por uma paternidade insegura e superprotetora.

A tecnologia e a inteligência artificial vem gradativamente substituindo os esquemas e estruturas do pensamento. Paulatinamente, a tecnologia vem provocando a extinção de mão de obra nos ofícios que requerem o planejamento, a atenção e organização das ideias. Hoje é possível produzir um trabalho acadêmico ou traduzir um livro, utilizando a inteligência artificial. Essa comodidade, limita a ousadia do pensamento e institui a “Lei da Acomodação e do Mínimo Esforço”. Hoje, as crianças não querem mais escrever à mão. Julgam ser um esforço desnecessário diante da praticidade do computador. Não querem folhear um livro para efetuar um trabalho de pesquisa diante da facilidade dos recursos da inteligência artificial. A precariedade da escola está no confronto de um ensino offline para um estudante que vive em uma realidade online.

Vivemos a época da geração sem memória. O uso intensivo da tecnologia, das redes sociais e da inteligência artificial tem prejudicada a capacidade das pessoas de reter informações, formar memórias de longo prazo e manter o foco. A demência digital tem sido o termo muito utilizado para descrever o declínio cognitivo, principalmente nas crianças, que apresentam problemas relacionados à memória, atenção e o foco, devido ao uso excessivo e dependência de tecnologias digitais.

Por consequência, pessoas com memória e foco comprometidos pelo uso excessivo de tecnologia são significativamente mais suscetíveis à manipulação e a uma leitura distorcida da realidade. Segundo estudos de psicologia cognitiva e neurociência, a memória não é apenas um registro do passado. Ela é a base da nossa identidade, orienta a tomada de decisão e a interpretação da realidade presente. Uma geração sem memórias sólidas, perde a capacidade de avaliar informações, tornando o indivíduo altamente vulnerável.

Segundo Myles Munroe (1954 – 2014): “se você não sabe quem é, de onde vem e a quem está seguindo, a cultura reinante vai te adotar e definir sua vida”. Se você não conhece a própria identidade, não conhece o seu propósito. Se alguém não conhece a finalidade, seu propósito e talento, o abuso será inevitável. Outros vão abusar do seu tempo e talento. Então, estamos diante de um paradoxo: uma geração repleta de informação, antenada as novas tecnologias, mas ignorante e sem memória, seguindo a todo vento de doutrina, enviesada pelos modismos do entretenimento vazio e fútil.

O trânsito da vida apresenta-se tão inseguro. Pessoas circulam na rua com seus pensamentos, história de experiências pessoas, em roteiro de sobrevivência diária. O sabor da existência é consumido pelas preocupações das obrigações diárias. A beleza da graça é substituída pela manifestação do materialismo, cuja ética está embriagada pelo exacerbado individualismo. Até mesmo a nossa solidariedade orgânica é corroída pelo jogo de interesses pessoais. Perdemos a nossa humanidade pela coisificação do ser.

            O deleite do trabalho artesanal em que o trabalhador controlava cada etapa do preparo ao produto final é uma realidade usufruída por poucos. A lógica da fábrica atingiu áreas humanas com a saúde e a educação. A fragmentação e a divisão social do trabalho leva a alienação do propósito, reduzindo-o a mera execução de tarefas.  A atividade humana é reflexo da programação tecnológica com roteiros pré-estabelecidos. São reuniões, planejamentos, relatórios, processos e resultados. A gestão tecnicista e de resultados quantifica e classifica pessoas pela qualidade do seu desempenho.

Na sociedade, o ócio é o maior transtorno dessa geração. O tempo de lazer e o tédio são vistos como coisas improdutivas. A dependência de alta intensidade leva pessoas à exaustão, adoecidas, usuárias de medicamentos e alguns psicotrópicos.

REFERÊNCIAS

BOTTON, Alain de. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. São Paulo: L&PM Editores,2013.

CURY. Augusto. O Semeador de Ideias: que atitudes tomaria se o mundo desabasse sobre você? São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2010.

LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.

PONDÉ, Luiz. Geração Mimimi. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Q8mvcEAYCHo

WOOD, John Keith. Abordagem centrada na pessoa. 3ª ed., Vitória: Edufes, 2008

NOTAS:

1 Para entender com a questão do racismo científico, sugiro pesquisar as obras de Arthur de Gobineau (1816-1882), Cesare Lombroso (1835-1909), Francis Galton (1822-1911) e outros.

2 A sociedade do cansaço é conceito desenvolvido pelo filósofo Byung-Chul Han para descrever uma época em que deixamos a lógica do dever e passamos a viver sob a lógica do desempenho, acreditando que podemos e devemos fazer sempre mais, o que nos leva à exaustão, ao burnout e à sensação constante de insuficiência.

3 para saber mais sobre o vício em felicidade sugiro conhecer os escritos dos pensadores Edgar Cabanas, Zygmunt Bauman, Luiz Felipe Pondé e outros.

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