Professor
Gelcimar da Silva Pereira Nunes
Fonte: google.com.br/imagens
INTRODUÇÃO
Estou acordando do breve exílio de silêncio em que as
ideias se prenderam ao casulo da ociosidade e não quiseram se expor à luz da
exposição pública. Ainda prostrado diante da necessidade de clamar as ideias em
brasas, sinto-me provocado a revelar os pensamentos e as palavras que me
ocorreram nos círculos solitários e diálogos cúmplices do anonimato.
1. MUITAS INFORMAÇÕES E POUCAS IDEIAS
Escrever é como olhar para uma pedra e enxergar nela o
produto final de uma obra de arte. É uma viagem ao mundo das ideias, é um
deleite resultante da arte da contemplação e da reflexão. Isto exige pausa,
aquele ócio produtivo em que a mente se liberta da crua realidade para desenhar
o sonho, a imaginação, aquilo que apenas a alma pode enxergar. Há pessoas
cegas, embriagadas pelo pessimismo da realidade, perderam a fé e a esperança e adotaram para si um manual
de sobrevivência. Ideias fletam com a esperança, pois compreende visão de mundo
e propósito.
Não há
força que possa silenciar a voz do coração, mesmo que esteja entretecido pela
ignorância. Talvez, não consiga entender porque a ignorância é barulhenta e
agressiva. Comparada a trevas eternas, a ignorância não representa a ausência
de informações ou qualquer experiência sensorial. É possível ver e não
enxergar, tocar e não sentir, ouvir e não entender, pois informação em si mesma
não se constitui cultura nem conhecimento. Nem todo pensar se constitui uma
ideia. A ideia é uma mensagem que inspira e transforma a vida das pessoas em
sociedade.
Sou como um pelicano no deserto... a escassez de ideias
retrai a iniciativa de provocar a criticidade e curiosidade alheia. A ousadia
está corroída pelo excesso de informações que duelam em polaridade progressista
/ conservadora. A seletividade alimentar do pensamento impõe-me a importante
tarefa da renovação do entendimento, dispensando os casuísmos da cultura
inútil, tão em voga em nossa sociedade. Parece que a cultura pretende se
organizar em um sistema de crenças e eliminar todos os antagonismos possíveis. A
polaridade do pensamento entrega a sociedade heróis e vilões e faz da ideologia
o ópio do povo. Daí, a engenharia do pensamento tende a seguir o roteiro de
fórmulas pré-estabelecidas. A fábrica de narrativas e jargões está trabalhando
com excedente de mão-de-obra e o pensamento crítico é um arremedo desse
coletivo de jargões. A pretensão do desenvolvimento do espírito crítico e
criativo fracassa diante do confronto intolerante e agressivo de estudantes que
não suportam o contraditório.
Lamento ser ouvinte de frases repetidas, estar diante de
atores que representam o papel de repetir um monólogo, escrito por intelectuais
enclausurados no conforto de seus escritórios ou do lucro de seus escritos e
livros. O argumento da intelectualidade segue um padrão enlatado e repetitivo à
exaustão. A justificativa é que a linguagem matemática é o modelo aceitável no
meio acadêmico e que produzir conhecimento é remendar e colar opiniões
emprestadas. Por isto, os estudantes não leem, apenas veem recortes
pré-selecionados por professores e repetem jargões e narrativas. Ler não é
traduzir mensagens e responder perguntas. É enxergar a realidade que o texto
procura retratar e desenhar cenários por meio da imaginação em que você
participa com autor e expectador da história. Para quem lê, o texto tem o
caráter autobiográfico, envolve sentimentos e produz reflexão sobre a história
e o cotidiano. A leitura deve produz hipóteses, teses e novo olhar da
realidade.
Não há nada de novo debaixo do sol. Há muita gritaria,
reclamação e desordem e poucas pessoas que respiram ideias. Há muitas
passeatas, manifestações com palavras de ordem, vazias de ideias e não passam
de som de panelas vazias. Nisto, vale a indagação do honrado professor
americano Jaime Roy Doxsey que, em sala de aula na UFES, nos perguntou: “Por
quê?” “Para quê?” “Quem decidiu isto?” “Qual o argumento de você?” Ele nos
fez refletir se porventura não estávamos seguindo as massas, simplesmente para
se juntar a um grupo, sem refletir sobre as ideias e seu propósito. Ele nos fez
pensar que não basta seguir pessoas com obediência cega, sem conhecimento das
reais intenções dos seus líderes. O honorável professor nos convidou a enxergar
a realidade a partir dos olhos da alma e sentir o protagonismo da ação
consciente. Não há ação consciente em uma pessoa com o ego adoecido,
aprisionado em seus traumas e frustrações. O problema é que há pessoas seguindo
líderes com o ego adoecido e projetam nos outros suas expectativas frustradas.
Assim,
esgota-se toda a energia mental de propor uma rota diferente dos limites já
estabelecidos. Ficamos reféns de um determinismo que aprisiona a liberdade em
diferentes conceitos e preconceitos. Embora a retórica dos iluminados
pensadores modernos preguem o homem como a medida de todas as coisas. A elegância
do ideal de uma sociedade justa, fraterna e democrática ganha contornos
messiânicos. Esse ideal fleta com o sonho de liberdade que ninguém experimentou
nem mesmos as sociedades primitivas. O protagonismo humano esbarra no
individualismo e disputa de poder de um grupo sobre o outro.
As
redes sociais passaram a ser o tribunal da verdade no qual o juízo de valor
ganha contornos de supremacia ideológica. Os pensadores que orbitam a leitura
da realidade fora da ficção já estabelecida estão nos guetos da informalidade ou
da baixa relevância. A argumentação exegética das ideias vem perdendo sua
essência para a gritaria e uma oratória vazia amparada em uma visão parcial e
deturpada da realidade. Assim, a diversidade de pensamento tão necessária para
uma sociedade sadia é substituída por uma polarização com roupagem política e
ideológica, desprovida do genuíno conhecimento. Aliás, até a produção de
conhecimento sofre os efeitos danosos da ideologia. Ainda, há pesquisas
produzidas para provar teses pré-concebidas ou sustentar conceitos e
preconceitos. Um dos exemplos históricos foi o racismo científico1,
construído nos séculos XVIII e XX, utilizando métodos pseudocientíficos para
tentar legitimar a hierarquização dos seres humanos, justificar a escravidão, o
colonialismo e eugenia.
2. O VÍCIO
EM FELICIDADE
Nessa loucura incessante de vida, vejo congestionamento
de pessoas como presas apressadas para o abate de suas rotinas diárias. A
pressa gera ansiedade, agitação e reclamações diversas e esse ciclo se repete
todos os dias como um filme repetido à exaustão. Aos poucos a humanidade do ser
humano vai se transformando em uma engenharia de programação que cansa e
exauria as forças diárias.
Vivemos
na sociedade do cansaço2 em que o indivíduo se cobra para
ser produtivo o tempo todo. Não há tempo para o pensamento e a reflexão. Por
isto, somos a geração que menos lê livros e consume cultura. Temos um
pensamento rápido para devorar a informação na velocidade de um átomo sem,
contudo, absorvê-la. A memória virou uma faculdade seletiva e descartável. Por
isso, o mercado de entretenimento pasteurizou a cultura a condicionar o ser
humano a fórmulas prontas e de fácil absorção. O entretenimento transformou-se
em cultura fútil e inútil, como se a alegria fosse um alimento a ser consumido
com altas doses de adrenalina.
O vício
em felicidade3 consiste na busca obsessiva por prazer constante
impulsionada pelas redes sociais e dopamina fácil. Esse pensamento calcula a performance
de uma vida perfeita, como se a vida um estado de bem-estar eterno e intenso. Essa
expectativa de felicidade gera ansiedade e depressão. A cultura da emoção
produz um estilo de vida de intensidade, sem calcular riscos e consequências. As
pessoas viciadas em felicidade acreditam totalmente de outras para serem
felizes – o que é verdade –, mas se torna perigoso quando se vive em busca da
felicidade. Em casos extremos essa dependência impede a capacidade de
raciocinar, e destrói, inclusive, a vida das pessoas próximas por ter uma
demanda imediata e egocêntrica. O viciado pensa que deve ser atendido em tudo e
não pode ser contrariado. É o reflexo de pessoas imaturas, sem base moral e
frágeis emocionalmente, sendo que alguns foram acalentados por uma paternidade
insegura e superprotetora.
A
tecnologia e a inteligência artificial vem gradativamente substituindo os
esquemas e estruturas do pensamento. Paulatinamente, a tecnologia vem
provocando a extinção de mão de obra nos ofícios que requerem o planejamento, a
atenção e organização das ideias. Hoje é possível produzir um trabalho
acadêmico ou traduzir um livro, utilizando a inteligência artificial. Essa
comodidade, limita a ousadia do pensamento e institui a “Lei da Acomodação e do
Mínimo Esforço”. Hoje, as crianças não querem mais escrever à mão. Julgam ser
um esforço desnecessário diante da praticidade do computador. Não querem
folhear um livro para efetuar um trabalho de pesquisa diante da facilidade dos
recursos da inteligência artificial. A precariedade da escola está no confronto
de um ensino offline para um estudante que vive em uma realidade online.
Vivemos
a época da geração sem memória. O uso intensivo da tecnologia, das redes
sociais e da inteligência artificial tem prejudicada a capacidade das pessoas
de reter informações, formar memórias de longo prazo e manter o foco. A
demência digital tem sido o termo muito utilizado para descrever o declínio
cognitivo, principalmente nas crianças, que apresentam problemas relacionados à
memória, atenção e o foco, devido ao uso excessivo e dependência de tecnologias
digitais.
Por
consequência, pessoas com memória e foco comprometidos pelo uso excessivo de
tecnologia são significativamente mais suscetíveis à manipulação e a uma
leitura distorcida da realidade. Segundo estudos de psicologia cognitiva e
neurociência, a memória não é apenas um registro do passado. Ela é a base da
nossa identidade, orienta a tomada de decisão e a interpretação da realidade
presente. Uma geração sem memórias sólidas, perde a capacidade de avaliar
informações, tornando o indivíduo altamente vulnerável.
Segundo
Myles Munroe (1954 – 2014): “se você não sabe quem é, de onde vem e a quem
está seguindo, a cultura reinante vai te adotar e definir sua
vida”. Se você não conhece a própria identidade, não conhece o seu
propósito. Se alguém não conhece a finalidade, seu propósito e talento, o abuso
será inevitável. Outros vão abusar do seu tempo e talento. Então, estamos
diante de um paradoxo: uma geração repleta de informação, antenada as novas
tecnologias, mas ignorante e sem memória, seguindo a todo vento de doutrina,
enviesada pelos modismos do entretenimento vazio e fútil.
O
trânsito da vida apresenta-se tão inseguro. Pessoas circulam na rua com seus
pensamentos, história de experiências pessoas, em roteiro de sobrevivência
diária. O sabor da existência é consumido pelas preocupações das obrigações
diárias. A beleza da graça é substituída pela manifestação do materialismo,
cuja ética está embriagada pelo exacerbado individualismo. Até mesmo a nossa
solidariedade orgânica é corroída pelo jogo de interesses pessoais. Perdemos a
nossa humanidade pela coisificação do ser.
O deleite do trabalho artesanal em que o trabalhador
controlava cada etapa do preparo ao produto final é uma realidade usufruída por
poucos. A lógica da fábrica atingiu áreas humanas com a saúde e a educação. A
fragmentação e a divisão social do trabalho leva a alienação do propósito,
reduzindo-o a mera execução de tarefas. A
atividade humana é reflexo da programação tecnológica com roteiros
pré-estabelecidos. São reuniões, planejamentos, relatórios, processos e
resultados. A gestão tecnicista e de resultados quantifica e classifica pessoas
pela qualidade do seu desempenho.
Na
sociedade, o ócio é o maior transtorno dessa geração. O tempo de lazer e o
tédio são vistos como coisas improdutivas. A dependência de alta intensidade
leva pessoas à exaustão, adoecidas, usuárias de medicamentos e alguns
psicotrópicos.
REFERÊNCIAS
BOTTON, Alain de. Desejo
de Status. Tradução de Ryta Vinagre. São Paulo: L&PM Editores,2013.
CURY. Augusto. O
Semeador de Ideias: que atitudes tomaria se o mundo desabasse sobre você?
São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2010.
LUCADO,
Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz
interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro:
Thomas Nelson Brasil, 2009.
PONDÉ,
Luiz. Geração Mimimi. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Q8mvcEAYCHo
WOOD, John Keith. Abordagem
centrada na pessoa. 3ª ed., Vitória: Edufes, 2008
NOTAS:
1 Para entender com a questão do racismo científico, sugiro pesquisar as obras de Arthur de Gobineau (1816-1882), Cesare Lombroso (1835-1909), Francis Galton (1822-1911) e outros.
2 A sociedade
do cansaço é conceito desenvolvido pelo filósofo Byung-Chul Han para
descrever uma época em que deixamos a lógica do dever e passamos a viver sob a
lógica do desempenho, acreditando que podemos e devemos fazer sempre mais, o
que nos leva à exaustão, ao burnout e à sensação constante de insuficiência.
3 para saber mais sobre o vício em felicidade sugiro conhecer os escritos dos pensadores Edgar Cabanas, Zygmunt Bauman, Luiz Felipe Pondé e outros.
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