sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NO SILÊNCIO E NA SOLIDÃO...



INTRODUÇÃO
Tenho usado o silêncio como terapia em momentos solitários face a necessidade de interromper, mesmo que por um momento, o ritmo alucinante do dia-a-dia. Então percebo como tenho mais acuidade em ouvir os sons da natureza de forma magnífica e de rara grandeza. Também, o meu olhar se fixa em um ponto repetidas vezes e a novidade das cores e dos sons se manifestam nas impressões mentais como se a fantasia das histórias infantis se materializasse diante de mim. Parece que a natureza desacelerou para que eu pudesse ver as cores mais brilhantes e os detalhes mais apurados. Às vezes parece que a visão é ilusória, própria da fantasia e das imaginações. Fico extasiado como o comum se torna incomum diante dos meus olhos. Antes não era possível, devido a precipitação mecânica das experiências sensoriais do dia-a-dia que faz-nos absorver apenas aquilo que é imediato e pragmático. Isto porque a mecanização da rotina adormece as relações simbólicas com a natureza e com as pessoas.
O SILÊNCIO E O TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA
Agora no ritmo das batidas do coração, passo a ser acompanhado pelos pensamentos que me convidam para uma reflexão solene da vida. Essa experiência é repleta de emoção e o reluzir do olhar está acompanhado das imagens do flashback da história de vida. Essas imagens estão acompanhadas de narrações da consciência (Os esquizofrênicos dizem que ouvem vozes pois são incapazes de diferenciar o que é imaginação do real). É muito difícil silenciar a voz dos pensamentos principalmente quando eles te convidam para uma situação de confronto sobre a prática de uma crença e desafiam para o exercício da coerência. Então, entendo que os pensamentos são diálogos da alma pelos quais as perguntas trazem um incômodo sobre o real significado da existência.
A dimensão do conflito interior se intensifica quando queremos justificar para nós mesmos as posições equivocadas. Por vezes, queremos silenciar em nossas mentes as vozes das opiniões alheias e até mesmo da consciência. Odiamos o sarcasmo, o tom ácido das críticas e até o contraditório, temendo possíveis lesões no nosso ego e as reações que nos tiram da zona de conforto. Então, o pensamento fica procurando as respostas com mais capacidade de cognição e coerência para advogar perante o tribunal a nossa consciência. Claro, a consciência penaliza a nossa mente e o corpo com açoites do pelourinho moral, trazendo a luz todo dualismo do bem e mal, do certo e errado. Então, entendo que o alto preço da liberdade está na faculdade de sermos responsabilizados por todos os atos, resultantes da vontade, cognição e determinação.
O real significado da liberdade está impresso na consciência. A liberdade é uma percepção individual sobre a faculdade de ser e estar no mundo com a devida autonomia. Essa autonomia se revela na experiência sensorial de calcular os riscos das decisões que a liberdade nos possibilita. Às vezes temos de encarar o medo como um adversário vigoroso e impiedoso. Por isto, as grades que nos prendem não estão nas prisões das penitenciárias, mas nos sentimentos de inutilidade e de incapacidade que nos impedem de voar em direção dos nossos sonhos. Também, a liberdade nos coloca diante diferentes caminhos a seguir e impõe o julgamento mental com antecipação das realidades a serem escolhidas com a devida segurança. Como disse o coelho da história de “Alice no País das Maravilhas”: “caminhos levam a algum lugar, depende do lugar onde você quer chegar!” Por isto, os melhores julgamentos morais das nossas decisões acontecem no silêncio e na solidão, no confronto direto de uma sã consciência. Deve-se considerar a armadilha das decisões solitárias que não iluminadas por bons conselhos. Decisões solitárias tomadas em momentos de dor ou ódios causam tragédias e o arrependimento pode ser tarde demais.
A SOLIDÃO DOS PENSAMENTOS
Na solidão e na ociosidade se manifestam todas as fraquezas do ego humano. A vaidade se dissipa pela autocomiseração e pensamos como somos insignificantes. A grandeza de muita gente não passa de uma maquiagem social que encobre suas fragilidades, mas que, no confronto direto da consciência, ficam reduzidos como pó miúdo espalhado pelo vento. Por isto, muita gente tem o pavor de ficar sozinha. Tem o pavor da dramaticidade dos pensamentos que trazem consigo os fantasmas do medo que esvaziam toda a sensação de alegria e de prazer. As alucinações causadas pelo medo sugam as forças vitais do pensamento. Parece que a paz se exilou nos lugares mais distantes da terra e o sentimento de culpa torna-se inevitável. Pensa-se o que foi feito e aquilo que não pôde realizar, nas expectativas do futuro e logo se manifesta todas as fobias possíveis.
A solidão é uma percepção individual carregada de sentimentos de abandono. Independe da companhia de pessoas ou até mesmo do diálogo que se estabelece entre si. Traz a patologia da ansiedade e da incompreensão de uma alma que implora por auto aceitação. Tudo culpa da cultura da emoção em que a tônica da vida secular está baseada sensação de bem-estar. Há uma realidade de fuga da realidade pelo entretenimento, esportes radicais, alcoolismos e drogas. Muitos não estão preparados para deparar com a crítica e com a rejeição. Assim, a consequência desse antropocentrismo (o homem no centro do universo) é a epidemia de frustrações crônicas. Hoje a indústria dos processos por coisas banais mostra como há imaturidade de pessoas com sentimentos corroídos por ideologias e que se julgam protegidas pelo direito de não serem criticadas. 
É necessário que o entusiasmo do sonho seja rompido pela frustração para que a dúvida se estabeleça e coloque em teste toda a determinação do ser humano. O contraditório e a frustração são elementos que colocam em prova todas as nossas convicções. Surge o conflito mental com o seguinte dilema: retroceder ou persistir com a mesma fé e esperança no sonho? Há temor do julgamento alheios porque novo fracasso poderá ser entendido com teimosia; mas também, o sucesso será a prova cabal da determinação.
Acredito que as nossas frustrações pode ser aulas que nos ensinam os passos para o sucesso, desde que estejam acompanhadas da devida reflexão. É preciso avaliar as razões do fracasso para construir pontes para o sucesso. Então, surge a oportunidade de recomeçar com novas estratégias, administrando com segurança a ansiedade e melhor controle dos resultados. Desde que haja determinação no caminho que almeja chegar.
Às vezes, o pensamento negativo está tão persistente que maltrata o corpo pela insônia, impedindo o sadio descanso. O sono deveria ser a experiência lúdica mais solitária do ser humano que permite a alma viajar pelo magnífico mundo da imaginação. O sonho traz lembranças passadas com detalhes dantes percebidos e comunica realização de desejos. Faz acreditar que adentramos no mundo divino para colher por meio de enigmas os sábios conselhos. Logo, o leito deveria ser o jardim das delícias onde alimentamos a nossa alma e revigoramos as energias físicas, mentais e espirituais. Nesse ambiente a sã consciência cumpre o seu trajeto ao adentrar no mundo dos mistérios onde o futuro descortina nos arautos da fé e da esperança.
Por isso, a alegada paz do silêncio não passa de uma alegoria para alguns, porque, às vezes, na solidão se manifestam as lembranças daquilo que gostariam de esquecer Também, aparecem os fantasmas imaginários e as teorias da conspiração naquelas pessoas que foram infectadas pelo vírus da baixo-estima. A solidão é digerida como remédio amargo por aqueles que se torturam com a tristeza, ansiedade e depressão no deserto do coração. Por isto, os planos mais sórdidos são tramados na individualidade do pensamento, quando a voz da consciência foi silenciada pela amargura. A etimologia da morte do sonho passa pela desesperança nascida na amarga solidão.
O SILÊNCIO E A EXPERIÊNCIA SENSORIAL
Porém, quero aproveitar o silêncio para me esvaziar dos sentimentos e das lembranças nefastas que poluem o ecossistema da alma. Quero desenhar no pensamento as ideias mais brilhantes sobre o horizonte dos sonhos. Quero desfrutar o silêncio com os olhos bem fechados, desligando-os da arquitetura que me prende ao mundo material. Adentro no universo das percepções sensoriais com o pensamento iluminado pela fé. Quero conversar com Deus e ser curado na terapia do amor e do perdão divino. Assim, anseio todos os dias adentrar no jardim da existência onde o entusiasmo da felicidade me completa de fervor espiritual.
A reflexão sobre a perenidade da vida se apresenta na solidão dos nossos pensamentos. Julgamos que a vida se cansou de todas as novidades e que estamos sendo consumidos pela rotina, repetindo pela automação o ciclo de vida. Claro, a vida implora por novidade, novas emoções e expectativas no ritmo ascendente. Isto por que os nossos pensamentos são dependentes das nossas experiências sensoriais, principalmente daquilo que apreendemos pela visão.
Mas, a racionalidade impede que sejamos pessoas passionais inconstantes nas diferentes variações de humor e impulsivos na satisfação dos instintos, inclusive aqueles mais primitivos. A razão se manifesta na serenidade das nossas reflexões amparadas na ética e na moral, coadjuvada pelo bom senso. Não é a explosão reivindicatória dos direitos, de reparação de danos com expediente de insensatez e brutalidade. A razão é a decisão amparada na inteligência que impõe determinações a vontade e controla os sentimentos de justiça própria e de vingança. Ela pesa as palavras e as tempera com gentileza, retirando a amargura, mesmo em situações de extrema tensão emocional.
Por diversas vezes a experiência sensorial é ilusória. O que vimos ou ouvimos são interpretados pelos nossos sentimentos e, muitas vezes, não passam por um filtro moral da consciência nem pelas reflexões lógicas do intelecto. Então, cremos piamente naquilo que vimos e julgamos sentir. Por causa da visão e dos sentimentos recorrentes somos induzidos a ter interpretações equivocadas da realidade. Essa é a razão de muitos conflitos e mal entendidos entre pessoas. O que vimos ou ouvimos assemelha-se a imagem de um espelho embaçado e a verdade que construímos não passam de palpites na roda de amigos. Se assim entendermos teremos o ponto de partida para o exercício da tolerância e da escuta compreensiva.
Gosto de exercitar a visão quando a arte da contemplação da natureza está acompanhada do silêncio. Percebo que o mundo não parou de girar apesar do silêncio e da ociosidade. Percebo que os sons da natureza são sussurros provocados pelo vento: o agitar das folhas e a melodia dos pássaros. Consigo reunir informações que sequer havíamos pensado. Penso como a cor verde é a abundante esperança que nos convida a redescobrir a fé nas maravilhas de Deus. Então percebo que a natureza é um testemunho diário do milagre da vida desde que os mundos foram criados.
CONCLUSÃO
Acredito que é na solidão dos pensamentos que tomamos as decisões mais qualificadas com o auxílio do tribunal da consciência. Por isto, buscamos o autoexílio para conectar diretamente com os problemas e buscar pela lógica matemática chegar aos cálculos de suas soluções. Pode parecer manifestação explícita do egocentrismo, mas no primeiro momento recusamos partilhar os nossos problemas com alguém para omitir qualquer percepção de fraqueza. Mas, depois, que a solução matemática dos nossos problemas dependem da presença do outro; que a amizade pode muito em seus efeitos terapêuticos de solidariedade.
REFERÊNCIAS
Não citar referências. Apenas vou indicar as seguintes obras:
BOTTON, Alain. Ensaio de Amor, Tradução de Fábio Fernandes. São Paulo: Rocco, 2011.
______. Ensaio de Amor, Tradução de Eneida Santos. São Paulo: Rocco, 2013.
LOPES, Hernandes Dias Lopes. Voando nas alturas: dez princípios par uma vida bem sucedida. São Paulo: Editora Candeia, 1996.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A ECOLOGIA DA ALMA

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INTRODUÇÃO
Folgo pela oportunidade de adentrar no mundo das ideias para extrair pensamentos em brasa e lavrar com entusiasmo as palavras que imploravam vir a existência. Elas estavam guardadas dentro da consciência e não se contentavam em ser apenas abstração ou um som. Aliás, o som tende a se perder no ar como bolhas de sabão. Depois, fragmentos desses pensamentos aprisionados no inconsciente só retornam à mente na forma de lembranças. Logo, não é pertinente ser narcisista a ponto de amar os pensamentos na vã filosofia da vida. Quando divulgamos os pensamentos, eles se tornam ideias. Ideias tem a capacidade de transformar pessoas e até mesmo o mundo.
A INEVITÁVEL COMPARAÇÃO
Inevitavelmente analiso o comportamento humano a partir do meu próprio eixo moral. Mesmo não considerando um paradigma a ser seguido, minhas expectativas da reciprocidade de bondade me introduzem ao universo da comparação. Às vezes, utilizo o meu pensamento para fazer as especulações sobre o mundo ideal onde as pessoas se comportam com a educação e o respeito tão almejado. Contudo, quando expectativas são frustradas, tenho a constatação que a convivência humana é o reflexo de uma época de crises.
 
A prática da comparação é muito ingrata, pois, via de regra, estamos tendenciosos a nos considerar inferiores ou superiores a outras pessoas. Por vezes, confundimos reputação com caráter, personalidade com virtude, performance com competência. Assim, toda beleza de palavras ou gestos das pessoas ditas ilustres traem o olhar e o pensamento com relação a nossa relevância no mundo.
Outras vezes, a frustração surge quando o empenho de justiça e a referência de educação entra em conflito com a agressividade e a indelicadeza de pessoas com quem convivemos ou eventualmente encontramos. Acredito piamente no diálogo como a energia que abre as portas da alma para o afeto e a aproximação fraterna, mas quando não se vê outra coisa além reclamação de direitos, prevalece a vontade de quem se impõe no grito e na força.
Costumo dizer que a reclamação por direitos é ambígua e ao mesmo tempo particular. Essa reclamação pessoal do direito sobrepõe aos limites da lei e da ética, pois é inflamada pela razão após explosão irremediável dos impulsos e dos sentimentos mais sórdidos. A satisfação pessoal não tem limites e se fossem preenchidas todas exigências da vaidade humana ainda restaria o enfado, o tédio e a irritabilidade sem sentido. O vazio interior não se preenche com fortuna, fama e poder. O coração íntegro só pode ser alimentado de sentimentos recíprocos e verdadeiros.
O aprendizado da reciprocidade é resistível desde a tenra infância e a rebeldia é impressionante. Surge desde o momento que a criança aprende a dizer não. Percebo que o ego humano é solitário, manipulador e autoritário. É fenomenal como as crianças tem uma natureza egocêntrica para, depois, adultos se revelarem individualistas e egoístas. Adiciona ao fenômeno comportamental pitadas da ideologia capitalista de recorrente competição e de supervalorização dos melhores adaptados.  
Observo como as vozes e os gritos ecoam no ar, no absurdo protesto pela atenção. O que me impressiona é que todos querem falar, às vezes, ao mesmo tempo, ignorando a sequência e o bom senso. Falta paciência para ouvir e há grande dificuldade para entender o outro. Parece que as palavras são formas de esvaziar o excesso de informações que se acumularam no cérebro. É preciso falar para relaxar e sentir-se bem, nem que isto seja frivolidade da vergonha alheia. Essa compulsão oral é o retrato da epidemia de ansiedade que tomou conta do mundo.
Por isto, a submissão voluntária e consciente é o exercício mental mais difícil de ser aprendido. Aliás, a submissão é algo que se aprende com o coração e não com o intelecto. O amor é o sentimento mais sublime que produz a rendição do ego humano e leva alguém a se submeter voluntariamente. Traz consigo o entendimento do benevolente serviço ao próximo como a mais elevada virtude.
A CAPACIDADE DE OLHAR
Considero um dos exercícios mais fascinantes parar e olhar a natureza com a sua aparente tranquilidade. A arte da contemplação nos ensina como o silêncio dá vozes ao pensamento e à imaginação. Esse diálogo interior penetra no ecossistema da alma e revela segredos que desconhecemos. Pensamos nas coisas mais simples e saborosas que não degustamos por andarmos apressados demais. Estamos acostumados com o estilo de vida acelerado que faz o tempo parecer insuficiente para atender todas as nossas demandas.  
A velocidade nos faz perder a riqueza dos detalhes, cansar o olhar e profanar as maravilhas de Deus. Resgatar a natureza perdida dentro de nós é renunciar o pernicioso materialismo de nossas mentes, trazer para dentro do coração a capacidade de ter a visão fantástica do universo divino. Por isto, fecho os olhos para que a alma possa entrar o mundo das ideias e comunicar todos os sonhos que plantei com esperança.
Talvez, em uma manhã gloriosa surja o inevitável tédio pela mecanização da rotina. Fazemos todos os dias as mesmas coisas, convivemos com as mesmas pessoas e reclamamos dos mesmos problemas. Ouvimos também as mesmas queixas e as críticas nos cansam. Gostamos de ser elogiados, mas também a recorrente adulação nos enfada e coloca sob prova a vaidade do nosso ego.
Entendo que o conflito interior do ser humano traz as inquietações do sucesso e das expectativas frustradas. Há o anseio de satisfação pessoal na busca pelo bem-estar físico, mental, social e espiritual. Estar bem consigo comunga a ideia de se sentir completo, sem aquele vazio existencial que aflige a alma. A busca de significados reside na pergunta: qual a razão do existir ou o propósito da vida?
Como Myles Munroe (1954 – 2014), acredito que a maior tragédia na vida não é a morte, mas viver uma vida sem propósito.  A vida não pode ser entendida como um casuísmo da natureza ou um acidente automático da história. Não somos atores encenando uma apresentação no quadro da história até encerrarmos o ciclo da nossa existência. Entramos na história, sedentos de uma existência eterna e não nos conformamos com a morte e, se possível, combateríamos contra ela até o limite das nossas forças.
Outra questão é que não estamos sozinhos no mundo. Fomos contemplados por uma história de antepassados, de pessoas com quem convivemos e têm similaridades com a nossa existência. É inegável a presunção de que todas as histórias têm suas origens em um ancestral comum. Por formação somos semelhantes em essência corporal, faculdade racional e espiritual. Seríamos os mais excelentes dos seres criados ao som da música de Deus se a irresistível liberdade não nos corrompesse a ultrapassar os seus limites. Acredito que a arquitetura do barro seria a mais bela história da origem humana, gerada pela necessidade da divindade de fazer brilhar a luz do amor entre os homens. O amor seria o culto mais belo da adoração na qual a sublimidade da vida seria enriquecida pelos contornos da eternidade. A vitalidade da existência estaria presente na recíproca confiança, no tratado da obediência por amor e pelo exercício da liberdade com a pureza do coração.
A VITALIDADE DA EXISTÊNCIA
Passo a pensar na vitalidade da existência e sua inocente felicidade sem neuras. A vida deveria ser desfrutada com simplicidade, com a alegria de quem colhe um fruto saboroso a cada dia. Parece que até as coisas simples carecem de explicação complexa. Para alguns, a certeza cria um incômodo. É preciso arranjar um pretexto para dialogar com a dúvida nem que seja para provar o néctar dos deuses: o conhecimento.
Claro, o conhecimento flerta com o divino, se apresenta como algo obscuro, inacessível, encoberto com aspectos mágicos. Surge a curiosidade de experimentar o poder como mecanismo de controle e de satisfação pessoal. Mas ao contrário, o conhecimento não é apenas o entendimento de informações reveladas. Ele descortina diante do homem o dualismo entre o bem e o mal, traz consigo o expecto da morte e traça o destino não só de uma pessoa, mas de toda a humanidade. Por consequência, a engenharia criativa do homem pode ser utilizada para salvar vidas e para a dor da destruição.
O destino de alguém é definido a partir de sua visão de mundo: o que pensa em relação a si mesmo e os outros; as expectativas que constrói para o bem social. Essa visão tenta explicar algumas perguntas básicas que o conhecimento produzido até então não conseguiu responder:
·         Quem sou eu? Pergunta sobre a identidade: o que me faz um ser distinto no universo e do que sou constituído;
·         De onde eu vim? Pergunta sobre a origem: não se trata de respostas físico-biológicas, mas de conotações metafísicas ou espirituais os quais sobrepõe as explicações científicas;
·         Por que nasci? Pergunta sobre o propósito: a visão que orientará a vocação de cada um para determinado bem;
·         O que eu posso fazer? Pergunta sobre a capacidade: é descobrir o dom a ser empregado para satisfação pessoal e em benefício do próximo;
·         Para onde eu vou? Pergunta sobre o destino que é alimentada pela sede de eternidade.
O ser humano é forjado a partir de uma ideologia, presente em um sistema de crenças herdado culturalmente e pela convivência em diferentes grupos sociais. O sistema de crenças é influenciado pela leitura do mundo. Essa leitura está para além da contemplação da natureza e dos ângulos das edificações. É a própria dinâmica das relações humanas, conflituosa, com o sabor da solidariedade orgânica, o amargo da violência e suas múltiplas facetas.
Como se percebe olhar para o mundo não é contemplar a fauna e flora da natureza. Hoje o ecossistema das almas está desprovido de profundidade moral desde a base familiar, entregue a superficialidade do saber, do conforto de quem não admite ser confrontado. A ecologia da alma mostra como o homem, maior natureza de Deus, destrói sua vida diariamente, sobretudo no aspecto moral.
A pedagogia do olhar está presente nas crianças com a sua natural curiosidade e simplicidade do jogo simbólico das cores dos objetos. Ela consegue extrair o belo nas coisas mais insignificantes da natureza e do que é produzido a partir dela. As coisas inanimadas estão repletas de vida e produzem sons que enlevam a alma. Não somente as crianças, mas também pessoas embriagadas pelo contagiante otimismo são capazes de ver o belo mesmo diante das dificuldades. Mostram que é possível fazer a leitura do mundo a partir do universo das possibilidades e colocar-se como agente da transformação para que a influência da agenda positiva possa cobrir as deformidades moral, social e espiritual da sociedade.
Logo, a forma como olhamos o mundo pode revestir-se pelo entusiasmo ou de um pessimismo antes as incertezas do futuro. Esse olhar é a própria nuance do contraditório, da insegurança, da relatividade sobre os valores e o próprio pensamento. As diferentes visões do mundo deveriam encaminhar-se para um diálogo cognoscente sobre as oportunidades. Há pessoas que preferem as desculpas para se omitir e aceitar a ruína com fato consumado ou, então, produzir um dossiê das responsabilidades nos casuísmos da desordem.
O olhar otimista da realidade apresenta o desenho do futuro segundo as nossas expectativas de felicidade, desprovido do hedonismo irresponsável de que teremos a realização do sonho com todas as suas belezas e cores. O otimismo só pode ser produzido a partir da semente da fé. A manifestação da fé acontece nos momentos de contrastes e de conflitos. Nesse momento, alguém descobre a esperança e se compromete em mudar a sua realidade. Logo olhar não é fotografar as imagens e cores, processar os seus significados no cérebro. Olhar é uma experiência emocionante do aprendizado pelo qual fazemos a construção, desconstrução e reconstrução do mundo a partir da fé e da esperança.
Tem gente que não faz a leitura do mundo porque perdeu a capacidade de sonhar, imaginar. Por isso, ficaram refém do fatalismo, pois as trevas da realidade contêm crueldade, insegurança e ilusão. Mas também, julgo ardiloso apegar-se a um idealismo ingênuo e delirante como se a fé e a esperança fossem a energia cósmica do absurdo. A vida é feita de etapas compreendidas em cada lapso temporal de cada evento e das oportunidades que se apresentam. Logo, a fé se manifesta no plano da ação e não pela maravilha do divino diante da estática do homem. Somos agentes participantes do milagre diário da vida e revelamos a natureza de Deus quando comunicamos com a vida os nossos sonhos.
CONCLUSÃO
Os elementos espirituais sonhos, pensamentos e palavras são testemunhos da existência da alma. Não podemos ver a alma nem tocar o espírito, pois o mundo espiritual se comunica por meio dos sentimentos, dos pensamentos e da vontade. Essas sensações são manifestadas por meio do nosso corpo: os olhos ardem, o coração palpita e acelera e a pele se aquece. Penso que as palavras nos dão algumas impressões sobre a alma humana a medida que com convivemos com as pessoas. Assim nos tornamos participantes dos seus sonhos quando empregamos a fé e a esperança.
REFERÊNCIAS:
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O ENCANTO E O DESENCANTO DA EDUCAÇÃO


Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO

Faço da experiência na educação uma reminiscência dos encantos dos primeiros anos da vida em que a beleza da fantasia estava presente na minha leitura do mundo. O encanto do sonho fazia com que a educação fosse a última gota de esperança para melhoria de vida de uma geração acostumada com a vida repleta de dificuldades. A realização do sonho dos pais era sentir a felicidade dos filhos na contramão das dificuldades que eles tiveram. Por isto o maior investimento era a educação que davam aos filhos mesmo desconhecendo a grandiosidade dos valores que eles transmitiam na simplicidade das palavras.
A SIMPLICIDADE DO ENSINO 

Por isto, invisto na memória com uma saudação nostálgica à inocência dos meus primeiros anos. Eram momentos em que o sonho era complacente com a imaginação fértil da infância. Nesse universo colorido, até a lágrima tinha o sabor da fantasia cujo enredo se renovava a cada vivência. O expecto da felicidade estava na simplicidade de ver o mundo na pureza do olhar, sem a rudeza adulta que nos cercava. Em cada brincadeira estávamos construindo o nosso mundo a partir da música de Deus que escutávamos na natureza. Essa era a nossa leitura de mundo com a sua beleza e cores. Os dias eram longos, intermináveis, como a história sem fim e fazíamos da brincadeira o sonho da realidade que desejávamos viver. Na pureza do encanto, vivíamos a beleza da liberdade mesmo alardeada pelo desencanto do não. A simplicidade da existência estava no fato de bebermos a pureza da inocência sem a culpa e a igualdade da convivência sem medo e constrangimentos. Estávamos aprendendo a viver a vida pela emoção da novidade com o mundo que se apresentava sem as contradições no horizonte. Assim enxergávamos o mundo e fazia sua leitura e escrevíamos as imagens com as penas da imaginação nas páginas do coração.

Lembro-me das noites a conversar sob a luz da candeia em que as histórias rimavam com a sabedoria popular aprendida de geração em geração. Era a tradição oral com os seus rituais nas rodas de conversas sobre a experiência vivida pelos ancestrais, trazendo à memória sua origem e feitos. Devido à curiosidade, os contos eram mais vigorosos que a literatura que hoje conhecemos. Livros eram raridade, mas os preceitos essenciais da vida estavam sendo impressos nas tábuas do coração. Não tínhamos a sistematização complexa de hierarquia. Isto não bastava. O exemplo dos mais velhos nos empurrava para a vocação de querer imitá-los pelo simples prazer de ser ensinados pelos “deuses”. A aura da verdade estava na palavra empenhada, na fé de um simples aperto de mãos, dispensando quaisquer laudas cartoriais. Portanto, o senso de justiça era regulado pela crença de considerar reciprocamente o próximo superior em relação a si mesmo. Essa concepção de serviço ao próximo era o retrato humanitário dos mais humildes. Pessoas desprovidas da instrução acadêmica, mas que aprenderam a reconstruir o mundo a partir de suas experiências de vida. Não eram perfeitas, mas não viviam prostradas diante de repetições de erros que haviam sepultado em passado pregresso. Suas experiências eram lições morais que inspiravam os mais jovens a serem iluminados no processo de tornar-se pessoa. A dignidade moral era a virtude mais excelente que indicava a prontidão do jovem para a vida adulta, propício a tomar suas próprias decisões, inaugurando sua autonomia intelectual e social.

O universo do sonho era atravessado na esperança de superação da dureza da vida pela instrução escolar. Apesar da funcionalidade, ler e escrever eram apenas o divisor entre o analfabetismo e a escolarização. Buscava-se a facilidade do trânsito diário na condução das soluções simples para a vida social. A ambição de cada pessoa estava na humildade de perpetuar seu nome por gerações à essência espiritual aprendida pelos genitores. Portanto, grau acadêmico seria apenas um adorno a toda herança cultural rica em valores e representações sociais marcantes de um povo. Isto tornava a vida simples por que o conhecimento eram pinturas desenhadas na alma e na intensidade da vida de forma natural e intuitiva.

Passo a lembrar dos relatos do filósofo Carlos Eduardo Brandão sobre os primórdios da educação. Ele mostra que a roda de conversa propicia a abertura de alguém ensinável, abraçado a genial humildade de ser um aprendiz. A beleza do diálogo está na prontidão de alguém buscar se alimentar da sabedoria com vigor de suas forças mentais e com alegria de saciar-se nos banquetes do conhecimento. Isto pode ser visualizado nas comunidades simples onde a aprendizagem da criança parte do reconhecimento da sua identidade cultural no meio em que vive. A exploração dos órgãos dos sentidos reveste a aprendizagem da emoção do patrimônio imaterial que é experimentado a cada dia, criando expectativas de vivenciar experiências significativas na plenitude da idade adulta.

Lembro-me da deidade da sabedoria dos anciãos que apregoavam o caminho da dignidade por meio das histórias de suas experiências de vida. O mundo das ideias adentrava nas mentes por meio da imaginação dos seus atos heroicos. A cada conversa uma lição de vida que nos convidava a imitá-los. Eram humanos, mas na nossa imaginação eram deuses que nos abençoavam por meio de palavras. Essas palavras eram vigorosas e proporcionavam a ação educativa de viver a dignidade acima de qualquer bem material.

A novidade do mundo do trabalho era introduzida aos infantes com a arte de mostrar a predestinação de se construir uma vida adulta autônoma. Construía-se o ciclo a partir da infância com a doçura do olhar, perplexo com intento de se aventurar ao mundo da responsabilidade. Gozava-se a infância de forma vagarosa, sem a exigência da velocidade no aprendizado. Respeitava-se a lei da natureza de crescer na estação própria para colher os frutos da maturidade com a qualidade da vida.

Nessa aprendizagem da vida, destacava-se o senso de preservação das crianças para que elas não adentrassem prematuramente nas contradições do mundo adulto. Estavam propositalmente excluídas das informações e debates acalorados promovidos nas rodas das pessoas crescidas. Importava que elas vivessem a infância, respeitando o seu universo de ludicidade e encanto.

Então, as crianças deveriam captar o conhecimento do mundo pela beleza do olhar, pela naturalidade das palavras e pelo encanto dos gestos. Nada de conhecimento prematuro, apressado e impositivo. Tudo aconteceria no momento certo, seguindo a lógica da curiosidade e da descoberta. Contudo, não era custoso mostrar o caminho a ser percorrido com segurança em situações do cotidiano. Aprender fazendo e questionando seus próprios erros era a forma de produzir maturidade psicológica e emocional. O sentimento de culpa era usufruído com uma tristeza causada por um arrependimento e traria gozo em momento oportuno. O gesto amoroso da correção levava a reflexão sobre as oportunidades de praticar a virtude como o espelho do homem ideal a ser formado. Mas, o homem ideal não estava carregado da áurea da santidade, isento de todos os defeitos e protegido de todos os sentimentos indesejáveis. Era tão próximo e tão marcante como nossa própria carne. Por isto, cultuávamos em nossos pais o respeito dos deuses.

A experiência religiosa era introduzida no caminho, no caminhar e suas ondulações eram conhecidas com o brilho no olhar. No sonho era plantada a esperança que estava presente na existência dando-lhe beleza nas cores. Educar para a esperança era mostrar que as dificuldades da vida era um processo dinâmico a ser superado com o tempo para olhar mais adiante pelo retrovisor da experiência.
AS MARCAS DO ENSINO NO CORAÇÃO

Assim, as palavras eram tintas que nos marcavam e grudavam em nós, dando forma aos nossos pensamentos e ajudando-nos a estruturar ideias. As palavras tinham o valor de ouro e não causavam enfado aos ouvidos. Isto por que tínhamos o orgulho de ter a ignorância como a nossa nobre fraqueza. O reconhecimento da ignorância era o pensamento que embasava a nossa humildade. Ao praticar a virtude da humildade, o mais importante era ouvir para apreender a exposição oral, deixando a imaginação construir as imagens das informações. Não importava tanto fotografias e filmes. Todo o ensino quando chegava ao nosso entendimento se transformava em um conteúdo autobiográfico. Inevitavelmente entrávamos na história, vivendo ao lado dos personagens como se estivesse presenciando suas aventuras. Assim, construíamos os significados, dando cores e imagens às palavras, mesmo que elas fossem instruções e advertências.

Por consequência, algumas palavras nos marcaram como vergões. Nem mesmo adultos nos esquecemos delas. Eram bem diferentes desses jargões que martelam a nossa mente com suas exaustivas repetições. Os jargões não passam de uma celebração à ignorância e uma violência contra a educação, pois transforma pessoas em receptores passivos e repetidores involuntários de palavras ou frases. O que me refiro é o encanto de receber as palavras como pérolas para adornar a experiência de vida. É lembrar-se das palavras e relacioná-las a pessoas e acontecimentos de vida, bem como a experiência marcante da história. Nessas lembranças, às vezes, temos a experiência do flashback, imaginando as vozes e as imagens do passado. Aliás, a memória nos faz viajar para trazer a lembrança dos aprendizados que precisamos usar como ferramentas em momento oportuno.

Agora lembro que, certa vez, a poetisa Adélia Prado refletiu que o nosso corpo é feito de palavras. É impressionante como as imagens, que vimos, interiorizam a leitura do mundo. As palavras têm uma conexão simbólica com a leitura de mundo com suas imagens e cores. Fazemos-nos participantes da história nos construtos da mente. É o modo solene pelo qual adentramos no mundo das ideias onde o pensamento se materializa com o jogo simbólico das imagens que criamos.

A mesma coisa disse Rubem Alves, explicando que as palavras grudam em nosso corpo como uma tinta ou tatuagem. O que ouvimos não poderá ser removido e que novas palavras são inseridas no conhecimento que já temos como a nossa própria vivência. Isso faz parte da experiência com seus casos e percalços.
A CORRUPÇÃO DO SONHO PELA TEORIZAÇÃO DA REALIDADE

Agora cito Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) para falar do sofrimento. Para Nietzche, o sofrimento é algo vantajoso na vida. Sem sofrimento não há vitória, não há sucesso. Alguém pode imaginar que o sucesso é algo fácil e natural, mas não existe um caminho reto até o topo. Ele escreveu.

"Não falem de dons ou talentos inatos. Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades."

O sofrimento e as dificuldades enfrentadas por muitos em sua infância e juventude ajudou a valorizar a educação familiar e escolar como a essência da própria virtude. Para alguns, o chão da escola estava no quintal da casa e nos afazeres domésticos. As aprendizagens fluíam com a naturalidade do crescimento físico com a mesma graça e verdade. A cada momento era plantada a semente da esperança doada pela experiência dos mais velhos. Cada palavra plantava o sonho da imitação da virtude dos pais. O orgulho de pertencimento à família dava-se em função da proximidade do respeito e do reconhecimento.

Atualmente a renúncia ao sofrimento tem corrompido à criança. Prega-se uma realidade ausente de fraquezas, tristezas e frustrações. A criança é o centro do universo com suas queixas e direitos, precursor da formação de um adulto servo do paternalismo exacerbado. Como consequência, temos a imaturidade e a rebeldia do adolescente e do jovem. O enfraquecimento do pátrio poder é uma realidade evidente nos nossos dias com pais inseguros e impotentes diante da desobediência de seus filhos. A intervenção do Estado nas famílias decorre dessa insegurança e desespero.

Todos esses problemas deságuam na escola como se fosse um espaço para cobrir a ociosidade das crianças que reclamam por curtição e irresponsabilidade. A tragédia da educação inaugura-se na sala de aula pelo enfraquecimento da capacidade da escola de resolver conflitos com origem familiar. O desrespeito aos profissionais da educação inaugura a época da violência simbólica, verbal e física. Os pequenos ditadores ameaçam, constrangem e agridem, fazendo com que os atos infracionais sejam uma rotina no ambiente escolar. As famílias incentivam o desrespeito ao professor quando os tratam como empregados dos seus filhos. A obsessão pela aprovação faz com a educação seja uma mercadoria muito barata em detrimento do conhecimento real. Agora esperemos o tiro de misericórdia na educação com a promoção automática dos alunos, inclusive daqueles que não moveram sequer um dedo para apreender uma gota de conhecimento.

Espera-se com a educação progressista e libertadora (que nunca se entendeu o que era) venha tornar a educação uma mercadoria por meio de barganha política do poder público com o lobby dos intelectuais. A posição secundária imputada aos educadores faz com o aluno e suas famílias estejam no centro da razão e excluídos de responsabilidades com relação ao fracasso escolar.

CONCLUSÃO

A reflexão nostálgica não se encerra nessas linhas. A imaginação inaugura reticências com as indagações e explicações a serem buscadas. Sou apenas um especulador teórico usando a nossa vã filosofia para entender os mistérios que existem no céu e na terra. Estou limitado para compreender a evolução do pensamento humano e as inúmeras contradições que surgem no duelo de palavras inúteis, onde cada um deles busca convencer-se da verdade. Portanto, a ideologia se alimenta do ego em relação ao próprio conhecimento. Quanto a mim, voltarei a dormir na simplicidade do humilde conhecimento aprendido pelos antigos, dialogando com os saberes que me são apresentados.

REFERÊNCIAS


ALVES, Rubem. Um Céu Numa Flor Silvestre: a Beleza Em Todas as Coisas. Campinas: Verus, 2009.

BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Que é Educação. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.

CHALITA, Gabriel. Educação: A solução está no afeto. Rio de Janeiro: Editora da Gente, 2001.

CURY. Augusto. Os segredos do Pai-Nosso. A solidão de Deus: um estudo psicológico da oração mais conhecida no mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

NIETZSCHE. Coleção Os Pensadores. Vol. 1. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

domingo, 24 de agosto de 2014

O UNIVERSO DOS SONHOS

INTRODUÇÃO

Viajante neste mundo vivo a cada dia os questionamentos da segurança de cada passo a ser dado em direção ao aperfeiçoamento progressivo da virtude. Sei que a virtude está no encanto da inspiração de um mundo perfeito onde os homens experimentam a elevação de sua essência espiritual. A virtude não é uma faculdade interiorizada como uma caixa preta que não pode ser desvendada nas relações entre seres humanos. Ela é a luz que reflete a beleza da alma com todas as suas cores e detalhes. Dá os contornos mais brilhantes a personalidade humana, atenuante os defeitos. Por isto, a virtude é a companheira inseparável da sabedoria e conduz os homens para o incomensurável mundo das ideias.
A CAIXA-PRETA DA ALMA

Lembro-me das lições aprendidas com os mestres sobre os filósofos socráticos que exaltavam a virtude como a elevação espiritual a ser buscada por todos os homens. Contudo, reconheciam sua aquisição como uma joia rara, devido ao conflito interior contra os impulsos materiais, próprios da dualidade corpo e alma. Sabiam que a busca até a última gota do prazer, pensada como a plenitude da alegria, incorreria na mais irracional das pulsões conflitando com a prática da virtude. Uma das reflexões mais produtiva foi à recomendação à administração equilibrada das palavras e uso moderado da ira.

Como tenho percebido, as palavras tem sido a conexão entre os pensamentos e as ações. As palavras trazem consigo enigmas do universo conflituoso da alma, filtradas pela censura moral que abraçamos por meio das nossas crenças e ideologias. A disciplina moral nos humaniza e nos resguarda da escravidão dos impulsos que nos rodeia à espreita dos enganos da razão. Tudo isso porque nos vimos envolvido em conflitos interiores cujas motivações, por vezes, desconhecemos.

É muito difícil colocar-se no lugar do outro porque implicaria na renúncia da satisfação das nossas primeiras vontades. Teríamos que refletir sobre a culpa de se alimentar da fraqueza dos outros por querer disputar a solidão do primeiro lugar. Para alguns, a trapaça é legítima para que realização dos impulsos egocêntricos e compulsivos seja a expressão de um grito de liberdade e de poder. Claro, a sensação é que as regras são escravizantes e transgredi-las acrescenta a biônica sensação de prazer e perigo para incluir-se no rol dos privilegiados a desafiar as normas de um grupo de indivíduos. 

Fico pensando como a transgressão está inserida na disputa de poder e no desafio a toda e qualquer ordem. Há quem acredite na falibilidade dos projetos e da justiça humanos para estabelecer-se como exceção à regra. A busca da exceção acena para os privilégios dos atalhos, pois existe sempre alguém quem desconfia que as normas sejam realmente justas ou se a vigilância é eficiente. Essa é razão porque nos impressionamos como alguém declaradamente valente, quando confrontado pelo rigor da justiça, busca a fuga das consequências dos seus atos.

O homem como ser moral traz a conjugação dos seus sentimentos que são interpretados por pensamentos e materializados por meio de atos. É difícil decifrar a natureza dos sentimentos que, por vezes, nos induz a cometer equívocos. Essa é a clara evidência de que desconhecemos a nossa própria interioridade ou enigmas da nossa própria alma. Acreditamos piamente nos órgãos dos sentidos: a visão, a audição, o olfato, a gustação e o tato, pois nos entrega às impressões materiais do universo que nos cerca. A partir das sensações apreendidas se faz a leitura da realidade que são organizadas em forma de pensamentos. Talvez, a ilusória leitura da realidade gere em alguns pensamentos contraditórios e a falsa consciência seja a motivação para muitos conflitos.

A pressão psicológica traz uma carga de sensações físicas tão opressoras que os pensamentos se desorganizam como um exército de soldados que procura desesperadamente se defender em várias frentes. Procuramos inundar com lágrimas nossos medos, insegurança e amargura. Ficamos a mercê da autocomiseração e julgamo-nos o mais insignificante de todos os seres humanos. Isto explica como a mente organiza nossas crenças no otimismo ou nos empurra para o pântano do pessimismo após termos nossas expectativas frustradas. Tal empreendimento mostra a falibilidade das verdades que construímos a partir das impressões pessoais.

Nos sonhos, libertamos a nossa alma para viajar no universo das ideias e materializamos nossos medos e motivações sem a natural repressão que disciplina as nossas ações. No mundo dos sonhos há liberdade de criação e da imaginação. Em outras vezes, nos assusta agigantando os nossos medos e culpas. Por isto, muitos têm pesadelos por se julgarem insignificantes e impotentes diante dos seus temores. Tendemos a temer aquilo que desconhecemos. Para superar o medo, o homem buscar a explicação do mundo pelo conhecimento.
AS EXPECTAÇÕES DO CONHECIMENTO

Conta-se uma lenda que o conhecimento fora enviado ao mundo na forma de um grande espelho. Porém, antes de chegar a Terra, o espelho teria se partido em vários pedaços e se espalhado por diferentes partes do mundo. As pessoas ficaram impressionadas com o pedaço do espelho, pois viam o reflexo da sua própria imagem e personalidade. Pensaram que a verdade refletiam os seus próprios pensamentos e tornaram-se individualistas e arrogantes. Desde então, por defesa de pontos de vistas acentuaram os conflitos e pelejas. Os cientistas conseguiram reunir outras partes do espelho e pensaram que tinham descoberto a verdade por inteiro e transformaram o conhecimento em atividade lucrativa e um instrumento de poder. No afã de semear sua doutrina sobre o universo e os fenômenos naturais pensaram que eram deuses.

Muitos intelectuais gostaram tanto do conhecimento que o transformaram em um brinquedo ordinário. Para tanto, recriaram o mundo a partir de suas concepções na lente de aumento do saber sistematizado. Debocharam da fé e do senso comum para definir o status da verdade segundo a ciência. Desde então, as pessoas são classificadas entre os inteligentes e os ignorantes. Assim, disseminaram a ideia de que o conhecimento é o presente dos deuses aos nobres escolhidos e que a todos enriquecidos por essa dádiva foram-lhe dados poder e autoridade sobre os demais homens.

O conhecimento é mais poderoso que o uso da força, visto que a inteligência é a arma dos fracos e corajosos. Em determinado momento da história, o homem precisou usar o pensamento para entender a natureza, superar os seus medos e usar estratégias para superar as feras e adversários que eram mais poderosos que ele. Era necessário empregar algo que valorizasse seus pontos fortes e atacasse as fraquezas do adversário.  

Aprendi que o conhecimento vence o medo e ensina o homem a pensar a estratégia. A inteligência possibilita ter domínio sobre o problema para que ele seja ferramenta de trabalho e não um empecilho na realização dos sonhos. A inteligência é resultante do processo mental que organiza nossos problemas em fórmula de cálculo. Os cálculos nos proporcionam o desafio que nos levará aos passos para a solução dos problemas.

Cito a parábola do leão e do elefante. O leão não é forte, nem o mais inteligente, ágil e alto. Contudo, compensa suas limitações pela atitude e assim valoriza a estratégia para apanhar as suas presas. Por outro lado, o elefante é o mais forte, mais alto e sucumbe diante da ousadia do leão. Explico que o leão vive em função daquilo que acredita e valoriza a estratégia, mas o elefante vive em função daquilo que vê e ouve e aprendeu a ter medo do rugido do leão.  Por isto, a fé alimenta as nossas atitudes por mais ilógicas que possam parecer, superando a visão limitada da razão que coloca termos para as nossas possibilidades.

Ainda hoje, o conhecimento é apregoado como o néctar dos deuses. Alguns acreditam que ao nascer foram premiados pela inteligência para que tivessem relevância dentre os homens. Assim, impõem reverência para que sejam reconhecidos como notáveis e admirados como excelência pelos demais indivíduos.

Creio que a sabedoria é alma da mais excelente das virtudes: o amor. A sabedoria tem uma essência espiritual que tem conexão com a fé. A sabedoria se submete a necessidade dos homens para iluminar o caminho em direção da virtude. O homem sem a virtude está moralmente morto. É escravo das suas paixões e se submete aos seus impulsos mais sórdidos. A sabedoria conduz o homem ao domínio dos impulsos de sua natureza, distinguindo-os dos demais seres viventes. Por isto, a sabedoria mais importante que o conhecimento e mais vigorosa que a inteligência.

Gosto muito da opinião do educador, filósofo, teólogo e psicólogo Rubem Alves. Ele que expressa que é preciso entender que “nossas ideias não passam de passam de palpites”. Traduzem uma opinião sobre determinado assunto em determinado momento, mas, conversando mansamente com outras pessoas, extraímos outros pontos de vista que irão enriquecer o nosso entendimento e compreensão da realidade que é dinâmica e sofre constantes mutações.  Não se trata da aniquilação do pensamento individual – extrato da consciência e da personalidade. O pensamento é a propriedade imaterial do ser humano que se revela por meio do diálogo. Apesar de divergente é salutar nas relações humanas.

Acredito que os pensamentos podem evoluir e se transformar em ideias. As ideias tem comprometimento com a posteridade. Não basta apenas pensar. É preciso conversar para extrairmos as contribuições dessa arena do debate divergente. Pela conversa dividimos pensamentos e pelo calor da divergência tornamos mais brilhantes nossas ideias.

Por vezes, somos egoístas, egocêntricos e os nossos pensamentos refletem a nossa postura defensiva no trato com os nossos semelhantes. É o meio que temos ao tomar como referência o nosso próprio corpo para orientar a visão de mundo. Assim, cada um tem a verdade particular como tacape no seu grito de guerra quando se sentir ameaçado. Parece que o homem ama no íntimo a liberdade que, como medida extrema, é capaz de abominar as regras. Ledo engano. Prevalece o medo de não querer ser controlado por outro ser humano. Os construtos mentais denunciam a nossa individualidade que clama por liberdade – é a inscrição primordial da nossa alma. Por outro lado, a mesma liberdade amedronta e ele reclama por limites por meio da rebeldia.

Concordo com o Dr. Myles Munroe que o homem nasceu líder e não admite a opressão em sua forma mais banal. Como obra prima na coroa da criação, temos o comando instintivo da dominação sobre a natureza e o desejo ardente de controlá-la, de modo que o desconhecido nos inquieta. O problema que esse domínio se revela opressor ao longo da história tanto em relação à natureza e os demais seres animais e humanos.
CONCLUSÃO

Por vezes fico perplexo como a cultura traz elementos do patriarcado com requintes de machismo, sexismos e preconceitos. Acreditava-se que a agressividade era causada por pessoas ignorantes, analfabetos ou com pouca formação acadêmica. Agora fico impressionado com a brutalidade dos intelectuais que, também, não renunciam as fraquezas dos seus instintos mais primitivos: a raiva, a inveja, o orgulho, a traição, etc. A diferença é que o enredo da agressão é mais elaborado e sórdido. Eu entendo que o saber não liberta o homem dos seus instintos primitivos. Apenas sofistica os argumentos da injustiça.  Creio que é possível ser líder no universo dos sonhos para projetar sua realização por meio de ações concretas.
REFERÊNCIAS

BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

________. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

BRIZOTTI, Alan. Identidade Cristã: resgatando a verdadeira identidade cristã. Goiânia: Primícias, 2012.


CHALITA, Gabriel. Educação: A solução está no afeto. Rio de Janeiro: Editora da Gente, 2001.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

PÉROLAS DA SABEDORIA

 
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes          

INTRODUÇÃO

Na sublimidade do silêncio, busco a inspiração para compor a poesia no ritmo das batidas do coração. Sou convidado a adentrar no mundo das ideias e colher os favos de sabedoria plantados no átrio espiritual do Eterno. Claro, do silêncio busco a renovação das forças cujas energias foram empregadas no serviço ao próximo. Essa renovação é fugaz e expressa a própria necessidade do ser de drenar sua ansiedade quanto as expectativas de ser o próximo alvo da solidariedade orgânica. Então a reciprocidade dá-nos a sensação de que seremos recompensados em toda boa obra; que nossas virtudes serão louvadas e os nossos defeitos esquecidos.

EXPECTATIVAS
O desenho da realidade é belo no universo dos nossos sonhos e gostaríamos de vivê-la na integralidade da realidade. Mas, as pessoas que nos cercam confrontam em nós as expectativas de um mundo perfeito. O mundo ideal é reclamado no universo dos direitos e nem todos não aceitam as agruras como estágio de aperfeiçoamento do ser humano. Reclamam por atalhos e pelo produto pronto sem defeitos. A realidade fast foot expôs as tragédias da velocidade da rotina dos indivíduos, plastificada, mecânica e fetichizada. Não há tempo para pensar, para ler e refletir, pois o mais importante é o resultado e não o processo.
 
Creio que a beleza das palavras está decorada na sublimidade da verdade. Não quero presentear a beleza com ingredientes da falsa consciência. A ilusão do elogio está na fragilidade da segurança que ele traduz. A fé da boa qualidade da índole e das intenções não introduz ninguém no universo das mudanças. A expectativa é que faz as coisas melhorarem, embora nem sempre mudar signifique que as coisas melhorem.
 
Nossas expectativas são sonhos desenhados com sentimentos carregados de otimismo. Essas pérolas de esperança fazem da verdade a tábula da certeza de que o universo se revestiu da perfeição para atender as nossas preces. Então percebemos que estamos adentrando em uma seara perigosa. E se as nossas expectativas de perfeição forem frustradas? Então só nos restarão a ira, o desânimo e a autocomiseração?
 
Folgo na verdade pela convicção do seu conteúdo ético não apenas como arma de defesa da insegurança. A verdade não pode ser falsificada pelo medo para ser uma arma nas mãos dos iníquos. Sei, porém, que cada um busca justificar suas posições políticas-racionais com o argumento de verdade. Essa sanha egocêntrica cria polos de divergência, imprime dúvidas e falsifica as certezas. Claro, as pessoas anseiam que suas posições individualistas prevaleçam sobre as demais para o bem estar de suas convicções e para reafirmar supremacia. Não gosto desse conceito de supremacia embrulhado com requintes de competição. Essa ilusão de liderança que estabelece diferenças entre fracos e os mais adaptados. Creio que a liderança deve estar enlaçada no compromisso de inspirar pessoas sem a conotação de domínio. Assim, a luz da verdade das ações das pessoas excelentes são marcas rochosas que não podem ser apagadas com o silêncio da morte. São vozes reproduzidas no legado das gerações.
 
O silêncio dos puros sonega, às vezes, atitudes de altruísmo contra as injustiças. A verdade roga por arautos humanos assim como a terra seca anseia pela chuva. Isto mesmo, a verdade quando chega planta a semente da justiça e, ao mesmo tempo, sangra as contradições do engano para estabelecer-se de forma triunfante. Quando a verdade se estabelece pela contradição, vejo na melodia do pranto abrir as oportunidades de um arrependimento sincero.
MEU ENTUSIASMO
Meu entusiasmo, foca em todas as possibilidades de transformação do ser humano pelo resgate da sensibilidade que foi perdida pela ilusão do ego e do materialismo. Inevitavelmente, somos vítimas do ego ferido porque deixamos a ilusória satisfação do individualismo e do materialismo nos corromper. Creio que as nossas virtudes nos fazem mais excelentes do que os demais homens e até mesmo a pretensa humildade entra na cota elementar da nossa satisfação. Mas, a nossa importância está no mesmo limite da nossa insignificância, pois todos os homens foram colocados no mesmo centro do universo. Então, as motivações das injustiças estão plantadas no coração humano que foi corrompido pelo materialismo das relações pessoais, com requintes de individualismo dominador e orgulhoso.
 
Agora sei que a minha defesa de fé está nas convicções de que a vida não é um produto pessoal, mas um usufruto coletivo. Fomos plantados na história a partir de um propósito de utilidade. A vida não foi um acidente que nos introduziu na existência. Aliás, existe uma diferença entre viver e existir. Alguém pode viver a vida do seu jeito sem entender nada. Viver como se fosse um animal dentro de um ciclo biológico ou simplesmente pensando em experimentar até a última gota de prazer antes que chegue a tragédia da morte. A existência convida a desfrutar a vida com significado. É introduzir-se na consciência espiritual que nos faz vigorosos na fé e na esperança, apesar das conflituosas relações humanas existentes na sociedade. A existência faz as pessoas serem sócias de outros homens e mulheres nesse imenso ecossistema. Claro, a existência pressupõe uma solidariedade orgânica entre pessoas e isso vai além de uma simples especulação filosófica. A existência revela o ser na sua integralidade com a sua essência espiritual: sentimento, inteligência e vontade. É o homem revestido da sua consciência moral e de sua origem gregária. Ou seja, uma vida atrelada a uma consciência social de promoção do bem-estar dos demais seres humanos.
 
Minha vivência traz as expectações das alegrias e frustrações da convivência humanas. Aliás, a convivência social é carregada de emoções. Assim, partilhamos as fraquezas da carne que extravasam nas palavras não calculadas, traídas pela impulsividade do espírito. Não poderemos reclamar a perfeição como algo absoluto, mas poderemos experimentar o aperfeiçoamento progressivo que nos faz homens e mulheres maduros, em desenvolvimento pleno enquanto pessoa. Sou forjado a partir dessas experiências que humanizam e me revestem de sensibilidade para olhar o outro com o sentimento da própria carne. Essa vazão do sentimento é capaz de produzir uma gota ardente no olhar: a lágrima. A lágrima é a prova mais evidente das emoções que explodem nos momentos irremediáveis dos infortúnios. Ela revela a nossa mais nobre fraqueza; faz o coração de carne se romper e força os mais corajosos a retroceder o seu espírito belicoso. Se bem que a lágrima, às vezes, é traiçoeira como laço de trapaça a espera dos incautos. Porém, a palavra da sabedoria adorna com a verdade a sala de estar do coração e descortina todo o engano e até o mesmo o fetiche da lágrima.
 
A verdade está tão perto e distante de mim. Ela se revestiu das virtudes divinas e anseia por ser desejada, buscada. Mas por que ela não se corrompe pela tutela das definições científicas? Existe alguém que disse que a verdade deve experimentada, provada, experimentada e percebida pelos órgãos dos sentidos. Seria o resultado da experiência e tão simples a ponto de ser materializada?  Hoje, a verdade está sendo lançada na arena do contraditório, perdida no julgamento de teses, por um método racional pelo qual o julgamento moral está força dos argumentos do que na sublimidade dos princípios. No duelo de palavras, há quem fragmente a verdade, aprisionando-a nos pressupostos da subjetividade. Agora, fala-se em verdades, extraindo a objetividade e sua singularidade. Parece ser a aposta mais conveniente para o individualismo no qual todos estão certos e, ao mesmo tempo, todos estão errados.  Assim, cada um carrega debaixo do braço sua verdade e a arma de defesa mais usada é: “cada cabeça, uma sentença”.
 
A renúncia da objetividade faz que os valores sejam relativos e suscita o questionamento ao modelo de sociedade objetivo e conservador. A diversidade desprovida de unidade de consenso faz com que até mesmo o crime seja repensado pela subjetividade. Isso leva a relativização da culpa e a marginalização passa ser considerada, por determinadas bandeiras sociais, uma consequência e não uma causa em si mesma. Colocar o criminoso como vítima de um sistema social desigual é o argumento mais estúpido da corrente pós-modernista que abraça a subjetividade até as últimas consequências. Por isso, a reversão dos direitos humanos vê no meliante uma vítima a ser protegida do Estado opressor. A marginalização do Estado é a teoria mais insana de determinados militantes políticos. A inversão de valores é pressuposto da injustiça social que sufoca a ousadia dos homens piedosos, temerosos da criminalização de suas posições contra o erro e o engano.
 
Então quero estar adornado com pérolas da sabedoria. Não quero ser o inteligente, o culto, o mestre ou doutor em ciências e até mesmo perito em teorias sociais. O mundo está cheio de mestres e doutores e, ao mesmo tempo, carente de sábios. O saber acadêmico é vital para o modelo econômico capitalista e faz diferença em um mundo competitivo.
 
Para alguns peritos em teorias, a brutalidade e a delinquência é produto da ignorância; que a educação é o caminho para a formação de gerações conscientes e mais humanas. Seus argumentos consideram que a desigualdade social é o reflexo das injustiças históricas que embrutece a nossa sociedade.
 
Creio que a pobreza não exime ninguém da cultura moral mais excelente que cultuavam os nossos avós. Eles cumprimentavam as pessoas no trânsito diário com a simplicidade da amizade e do respeito. Sabiam o tempo e as estações, julgavam as pessoas pelo caráter e não pela aparência. Cultuavam a hospitalidade e a misericórdia como bondade praticada a um parente mais próximo. Eles produziam no presente a esperança como semente de um fruto saboroso a ser colhido na posteridade. Detestavam a velocidade dos compromissos e o tempo para o trabalho estava marcado para o nascer e o pôr-do-sol.  Assim tinham conhecimento da mais nobre de todas as Leis: a “Lei da Natureza”, também conhecida como a “Lei da Semeadura”, cuja máxima é: “tudo tem o seu próprio tempo”.
CONCLUSÃO

Por isto gosto da sabedoria por que ela enleva o espírito e enobrece o caráter. Ela está presente nas palavras de conselho que nos ajudam a evitar o mal e a praticar o bem. Protege-nos dos modismos, mesmo que ampla maioria siga princípios contraditórios como se fosse a última verdade do universo. A sabedoria nos ajuda a fortalecer as nossas convicções de justiça, de respeito ao próximo e a amar a verdade acima de todas as coisas. Sobretudo, ajuda a compreender a vida como uma dádiva recebida do Eterno e compartilhada com todos na Terra dos Viventes.

REFERÊNCIAS
Vou apenas recomendar a leitura de alguns livros:
 
BRIZOTTI, Alan. Identidade Cristã: resgatando a verdadeira identidade cristã. Goiânia: Primícias, 2012.
 
CURY. Augusto. Os segredos do Pai-Nosso. A solidão de Deus: um estudo psicológico da oração mais conhecida no mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.
CHALITA, Gabriel. Educação: A solução está no afeto. Rio de Janeiro: Editora da Gente, 2001.