quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CONTRATO SOCIAL

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
A liberdade está sempre sendo abordada em meus escritos como algo inerente a natureza humana. Tal abordagem encontra consistência na crença de que nenhum indivíduo nasceu para ser oprimido, pois de outro modo o espírito humano reclamará. Nesse caso, a opressão e escravidão são incompatíveis com a essência e a existência do homem.
Com relação a liberdade prevalece a discussão sobre os seus limites: o homem é livre, logo pode fazer tudo? O homem é ser livre ou determinado? Nas discussões das premissas do existencialismo, surge o entendimento que o homem é livre, mas também é determinado, pois se insere em um contexto sobre o qual lhe é imposto condições, regras.. Ou seja, é um “ser no mundo” que está vinculado a uma macroconsciência que instituiu no decorrer da história os conceitos morais, religiosos, culturais e legais. A macroconsciência estabeleceu um senso comum sobre as contradições da sociedade e tem um caráter axiológico (i.e. de valores em todos os sentidos morais, espirituais, culturais, etc.). O exemplo mais evidente desse fator axiológico são as convenções sociais que se impõe sem exigência de um código expresso e as pessoas se submetem voluntariamente a determinadas condições como a forma de vestir, o modo de falar e até o entusiasmo.
Ainda, há comportamentos que se impõem por meio da imitação de personalidades. Aliás, isto é uma condição para criar um exército de imitadores, sendo alguns sem noção do que fazem. A palavra “inspiração” traduz o desejo de viver, mesmo que de modo simbólico, qualidades e status de pessoas influentes. Contudo, que inspira pessoa deveria ter o senso de responsabilidade social. Por isto, há de se lamentar as más influências de certas personalidades.
Vivemos em uma sociedade em crise em todas as estratificações, sendo que, alguns casos, se enquadram na definição de anomia dada por Émile Durkeime (1858 - 1917). A sociedade reclama por limites que devem começar na família que é a célula mater da sociedade. O problema é que existem regras em demasia e pouco cumprimento, pois a transgressão é celebrada como uma virtude ao olhar cego das pessoas idôneas. As pequenas infrações perderam ao olhar de ampla maioria a conotação de crime, popularizando-se o jeitinho, a esperteza e a omissão. Há quem julgue que esta geração já está perdida e é preciso investir na educação da geração seguinte para eliminar o mau costume vigente. 
1. O CONTRATO SOCIAL É UM PRINCÍPIO
O princípio é superior à norma e está relacionado às impressões mentais fincadas no indivíduo. Tudo começa com a assimilação das idéias apresentadas de modo devocional; isto é, como uma crença a ser seguida. As pessoas seguem aquilo que crêem, pois as idéias impressas na mente passam a constituir uma filosofia de vida, determinando um estilo de vida. Assim, a obediência é produto de uma crença em valores éticos e morais considerados altruístas. Uma pessoa justa não se abala por causa de sua crença, apesar da opinião lesiva de ampla maioria.
Nada acontece sem liderança. Por isto, qualquer coordenador de um grupo ou de uma instituição deve instigar a curiosidade de seus companheiros a pensar os problemas de sua comunidade, saindo do fascínio da murmuração solitária e estéril. A problematização da realidade deve ser a manifestação livre do pensamento e da identidade com o grupo, expondo todas as contradições e firmando vias de consenso por intensa negociação.
Na abordagem centrada no estudante é apresentado o contrato social como um pacto estabelecido entre o professor e os estudantes, mediante negociação de condições e o compromisso de co-responsabilidade para a ministração do ensino. O contrato social teve também suas definições dadas Jacques Rousseau que desenhou o ideal de uma sociedade sem vícios da exploração, que prima pelo bem comum.
Carls Roger (1902 – 1987) influenciou uma pedagogia humanista que visa à autonomia do sujeito. Isto significa o enfoque na liberdade e na renúncia a qualquer forma de autoritarismo. Aliás, há uma diferença entre autoridade e autoritarismo. A autoridade refere-se à competência ou à capacidade de alguém em orientar, em influenciar ou inspirar pessoas, incultando-lhes a crença ou um ideal que proporcione uma obediência voluntária, fincada em um propósito. A obediência, produto de um contrato social, é fincada em um propósito altruísta é originária de um consenso e implica em uma mudança profunda em todos os sentidos da vida da pessoa. Claro, a norma deixa de ter um caráter imperativo e passa a constituir uma filosofia de vida, uma abordagem, um jeito de ser. Nessa concepção, as pessoas devem enxergar-se como sujeito da própria história e não como reprodutoras de um sistema ou de uma cultura.
O autoritarismo aponta para a coerção e outros mecanismos de força, chantagem, ameaças, mesmo usando um instrumento impessoal que é o regulamento. O Dr. Myles Munroe expõe que o homem é um ser com características para dominar. Logo por natureza não aceita se submeter a algo que lhe é imposto por outra pessoa por mais importante que seja. Por isto, em sua palestra sobre liderança ressalta que os líderes inspiram e convencem as pessoas e não as manipula, pois o autoritarismo é produto da insegurança de que não possui a devida autoridade.
A educação é fundamental para o estabelecimento dessa nova conduta. Por isto, acho interessante a critica de que a comoção social por causa dos agravantes casos de corrupção é inútil e não contribui para erradicar essa mazela, apesar da exploração excessiva da mídia. Há quem diga que é preciso erradicar os maus políticos e substituí-los por outros de ilibada reputação. Contudo, a corrupção não é só um crime é uma cultura instituída historicamente que se notabiliza pela celebração à esperteza, à preguiça, ao jeitinho, ao levar vantagem sobre outra pessoa, ganhar dinheiro fácil, etc. Por hipocrisia, as pessoas não enxergam essa gênese da corrupção presente em todos os estratos sociais.
2. O CONTRATO SOCIAL É UMA ALTERNATIVA POSSÍVEL
Acostumei a ouvir que as regras negociadas são mais eficazes daquelas que são impostas, por que ninguém docilmente aceita ser subjugado por normas que no seu entendimento são arbitrárias. A obediência a contragosto se encobre na rebelião dos murmúrios do pensamento. Também, o homem não se envolve afetivamente com regras impostas, que lhe são alheias porque não contaram com a sua participação. Muitas escolas entenderam e elaboram suas normas a partir da discussão coletiva com a comunidade escolar e local, para que as regras sejam entendidas para ser obedecidas por todos e por cada um.
O contrato social se notabiliza pela aproximação das pessoas. A comunicação é fundamental sem o pressuposto do status de lideres e seguidores, pois todos são iguais e nivelados pela horizontalidade do diálogo despido das disputas pelo predomínio da verdade individual e das tentativas de vencer o outro pelo cansaço. Contanto é necessário que a discussão dos problemas seja conduzida de forma honesta e sem constrangimentos. A censura é um obstáculo para esse diálogo franco e até a raiva e a repulsa de determinadas situações devem ser um meio para o exercício da escuta dos sentimentos do outro, sem o revide e a retaliação das palavras ou ações. Aliás, é preciso entender os sentimentos do outro, pois a paixão permeia todos os atos da humanidade. Nesse caso, o olhar compreensivo refere-se a tentativa de colocar-se no lugar do outro, saindo da esfera do próprio corpo e da consciência individual. Por isto, a renúncia ao individualismo passa pela forma como consideramos as necessidades do próximo e como nos envolvemos pela busca da solução dos seus problemas.
Assim, o contrato social tem seus fundamentos no direito à pessoa ao respeito. Ou seja, a pessoa deve participar das decisões coletivas que interferem na sua vida. Isto vai além das concepções vigentes de democracia que são muitas limitadas no sentido prática, confundindo-se com o voto. O contrato social é firmado por um diálogo no qual não as informações são apresentadas de forma transparente. Elas não são sonegadas para privilegiar determinado grupo hegemônico que quer se perpetuar no poder, a exemplo dos reinos absolutistas e das capitanias hereditárias. O conhecimento é um meio de entendimento da igualdade entre as pessoas e fortalece o entendimento do contrato celebrado.
A idéia do contrato social deve começar em grupos e instituições menores. Por isto, tem relevante sucesso nas comunidades terapêuticas que investem em valores humanos, tendo como premissa o respeito e a fraternidade. Nesse entendimento não há pessoas com privilégios, pois todos compartilham o compromisso pelo bem estar do grupo. A idéia de grupo conduz a unidade de pessoas, inclusive em relação ao sofrimento e a alegria. Até, o entendimento de liderança passa a ter nova significação: um serviço a ser prestado em benefício da coletividade. O líder é um coordenador de debates e atividades, identificando qualidades e talentos de cada pessoa para que a diversidade dons seja utilizada em benefício da unidade do grupo. A liderança de uma pessoa não produz dependência ao grupo, mas ajuda a potencializar as qualidades de cada um e ensina a administrar a autonomia com respeito à ética e ao bom senso. Por isto, o contrato social é um processo de diálogo constante em direção ao equilíbrio das relações sociais, mediado pelo bom senso.
A concepção de justiça passa pelo que é entendido por todos. Aliás, grandes conflitos são resultados de mal entendido. Se uma regra não é construída coletivamente e socializada com todos, ela é arbitrária, pois foi outorgada. Também, uma instituição sem regras é uma bomba relógio pronto para explodir uma fatalidade a qualquer momento. Aliás, o ser humano tem impressões em sua consciência sobre o bem e o mal, mas as pretensões belicosas, egoístas de cada um cauterizam o respeito ao próximo, tornando-se necessário as regras. Nesse caso, o problema é a forma que as normas são instituídas, pois a obediência conquistada é mais eficaz do que a obediência imposta.  
CONCLUSÃO
As contradições da sociedade refletem as diferenças entre cada indivíduo. A liberdade impõe responsabilidades, pois segundo o pensamento paulino “todas as coisas me são lícitas, nas nem todas me convém; todas as coisas me são possíveis, mas me deixarei me dominar por elas” (I Coríntios 10: 23). Ou seja, a liberdade é uma faculdade humana de deliberar sobre as opções que lhe são oferecidas quer seja para o bem ou para o mal.
O problema é que o homem não é um ser só no mundo como se suas ações tivessem implicações individuais, sem conseqüências a outras pessoas. Por isto, a vida é celebrada da qualquer pessoa é celebrada por sua família, seus amigos e até gente alheia e, igualmente, o sofrimento causa a aflição de espírito aos seus semelhantes. Assim, sendo todas as ações devem ser disciplinadas para produz a solidariedade, igualdade e a fraternidade entre os homens.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura dos textos relacionados a abordagem Centrada no Estudante. Também é importante a leitura dos DVD’s do Dr. Myles Munroe sobre a liderança servidora, Central Gospel, 2009.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O MUNDO DAS IDEIAS

O MUNDO DAS IDEIAS
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Para ingressar no universo das palavras, busco a inspiração na transcendência dos sentimentos cujos mistérios são como o murmuro da alma adormecida. Assim, invoco a onipotência de pensamentos e logo vêm os sonhos de olhos abertos que revelam os desenhos e as palavras diante de uma folha em branco. É a visão do projeto acabado antes de ser iniciado. Por consequência, o escritor suspira na ansiedade de materializar a visão e socializá-la ao maior número de pessoas. Deste modo, saem os pensamentos e. na beleza da graça, nascem as idéias.
Os pensamentos surgem da apreciação do mundo de forma apaixonante, extraindo a beleza das coisas e interpretando-as de forma lógica. A autocensura torna-se um elemento disciplinador que faz a pessoa reavaliar constantemente os seus pensamentos, buscando as possíveis incoerências. Sanadas às dúvidas, vêm a convicção e a pessoa passa a amar os seus pensamentos e a exprimi-los por meios de palavras. Por isto, o pensamento só se torna ideia quando é divulgado. Porém é necessária a identificação de um propósito, pois toda ideia se constitui para uma finalidade.
Apaixonado pela beleza, decidi entrar no mundo das idéias por meio da sensibilidade, pois os sentimentos afloram no momento da imaginação, do exercício do senso lógico como se fosse uma atividade extática. Por isto, os poetas e escritores buscam a solidão para poderem dialogar com os seus pensamentos e como se fossem malucos conversam consigo mesmos, fazendo perguntas e ao mesmo tempo respondendo a si mesmos. Quando não estão satisfeitos, fazem perguntas a outras pessoas e se divertem com as respostas, confundindo-as com sua ironia.
A partir dessa realidade, fiz algumas observações relacionadas ao mundo das ideias tão apregoado por Platão como algo transcendente, divino como dádiva dos deuses. Porém, quero fugir de concepções metafísicas e dirigir o foco para o universo dos sonhos e da imaginação que se assemelham por princípio ao mundo das ideias.
A IMPORTANCIA DA SENSIBILIDADE
Para o filósofo italiano Domenico di Masi, a paixão está presente em todas as atividades humanas e cita eventos ao longo da história de determinados atos passionais. Ou seja, todos os atos humanos estão providos de sentimentos de ansiedade, tristeza, alegria, raiva, etc. Portanto, escrever ou realizar qualquer arte é uma atividade passional, pois está repleta de diferentes sentimentos.
Os sentimentos levam a desejar uma realidade factível ao universo dos sonhos. Daí surge a imaginação como algo real aos olhos do poeta que se expressa por meio de metáforas. Para aquilo que se vê no universo da imaginação não há palavras suficientes para traduzir, por isto se recorre às metáforas. Aliás, as metáforas são tão divinas que foram utilizadas por Jesus Cristo, pelos filósofos e pelos poetas.
Contudo, escrever é um ato solitário e extático, pois adentrar no mundo das idéias é experiência individual, dependente da concentração para que a pessoa possa dialogar com si mesma. Nesse momento, o escritor se desliga do mundo e fica sozinho com os seus pensamentos. Por isto, alguns não ouvem nem percebem quando alguém chega a seu redor.
A associação intelecto e imaginação é parecida com o universo dos sonhos onde o ser humano se liberta da censura e extravasa os seus desejos. Claro, nem tudo que se pensa é colocado no papel, devido aos mecanismos de repressão das convenções sociais impressas na alma do ser humano - Rubem Alves chama essas impressões de tatuagens de palavras que grudam na mente e no corpo. Contudo, o escritor quando se orienta pela sua imaginação tende a se tornar um transgressor dos conceitos estabelecidos socialmente.

É NECESSÁRIO LIBERDADE PARA VER A BELEZA
A libertação dos mecanismos de repressão tem por objetivo produzir condições para o nascimento das idéias. Sempre recomendo que as pessoas procurem a posição mais relaxada para se libertar de quaisquer estresse. Se bem que alguns têm nos momentos de tristeza o seu momento mais criativo. Eles conseguem traduzir a beleza da tristeza com metáforas férteis que descrevem o enlutamento da alma, como fez o poeta Fernando Pessoa (1888 – 1935).
Sobre a beleza, o filósofo e educador Rubem Alves opinou que a beleza não se encontra somente nas coisas alegres, mas também nas tristezas. As cores das árvores, os sons das águas e o cheiro das flores são a beleza bonita, inspiradora do romantismo; mas a tristeza da solidão pode ser traduzida por meio de metáforas, conduzindo as pessoas à reflexão sobre a perenidade da vida.
Por isto, a beleza está presente em toda a natureza, não somente naquelas definidas pelas convenções. Aliás, o que é belo deve ser desfrutado particularmente como um manjar por meio dos olhos da alma e, nessa experiência individual, não espaço para os intrusos carrancudos com os seus problemas.
O mundo das idéias é o mundo da beleza do pronto, do acabado, apesar da crueza da realidade, com as injustiças e desamor. As idéias podem não mudar o mundo, mas podem mudar o homem. Claro, todos nós somos frutos de um sistema de crenças, oriundas de um encadeamento de ideias, que orientam uma filosofia de vida e definem um estilo de vida, comportamentos e atitudes.
Assim, concordo com Myles Munroe de que as idéias são mais poderosas que o homem, pois elas têm existência quase eterna e determinam o destino dos homens. Ou seja, idéias equivocadas conduzem as grandes tragédias como o nazismo, o terrorismo, etc. Porém, ninguém consegue matar uma idéia. É mais fácil matar um homem do que uma idéia. Por isto, quando se persegue uma idéia, ela se multiplica e torna-se incontrolável como o terrorismo. A solução é combater uma idéia apresentando uma outra melhor, pois as ideias se incorporam as estruturas mentais dos homens como suas células e neurônios.
Logo, no mundo das idéias se visualiza uma realidade de beleza e de perfeição. Claro, que essa perfeição é ilusória tal como a fantasia, mas é ponto de partida para desejar e atuar por um mundo melhor.
CONCLUSÃO
A frieza da racionalidade do mundo as vezes não permite as pessoas a perceberem os detalhes do mundo ao redor e os seus significados. Tal situação é provocada pela velocidade de se buscar os resultados de forma imediata. Por isto, pensar é uma forma de buscar a solução de problemas e não uma busca de resposta as questões existenciais.
Ingressar no mundo das idéias é pensar a razão de ser das coisas e sobre elas emitir julgamento moral, social, estético e cultural. É tentar ver-se não como reprodutor de condutas e de um sistema de pensamentos, buscar construir suas próprias conclusões.
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem, O céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas. São Paulo: Versus Editora, 2008.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OS ENSEJOS DO PRÓXIMO ANO

OS ENSEJOS DO PRÓXIMO ANO
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Chegamos ao final do ano de 2010, quando se renovam os votos de um novo ano feliz e próspero. Os anseios do novo ano devem inspirar atitudes tal como a poesia acalenta o espírito, alegra a alma e transmite ao corpo sensação de bem-estar. Mas, não se deve procrastinar mais uma vez a realização da mudança de atitude, restringindo-se as promessas de fazer tudo diferente no próximo ano.
Certa vez, o filósofo, educador e teólogo Mario Sergio Cortella recomendou que, ao final do ano, cada pessoa pode escrever em um quadro os comportamentos que resultaram em erros ou desastres, em outro quadro as situações positivas e no último quadro as decisões a serem tomadas no novo ano e suas expectativas. Claro que isto é um exercício reflexivo em busca de uma tomada de consciência, evitando o precipitar de uma declaração “foi um ano ruim” ou “um ano muito bom”. Trata-se de uma forma de livrar-se do sentimento de culpa dos insucessos do ano e renovar os sonhos no próximo ano.
A beleza da alva que surge no primeiro dia do ano não deve ser contemplada com a ressaca explosiva, causada pelos excessos dos embalos das comemorações, pois, a programação de mais um ano deve começar nas primeiras horas do dia.
A partir dessas premissas, formulei algumas teses com base em experiência própria, adquirida pelo aprendizado da escuta e pelas tentativas: ensaio erro x acerto. As teses referem ao planejamento, organização, evitar desperdício e cultivar relacionamentos.
A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO
Tenho sempre ressaltado que para não ser a próxima vítima do acaso deve haver planejamento. Quem planeja acredita que é perigoso esperar pelo acaso, pois suas decisões podem ser anuladas por força de situações alheias a sua vontade. Por isto, não acredita somente no empenho e na força de vontade; pensa que suas energias e pensamentos devem ser programados de acordo com os recursos, tempo disponíveis e oportunidade.
Trata-se da arte de visualizar o objetivo a ser alcançado; ver o resultado do produto acabado antes da sua elaboração; é definir o percurso para chegar a um determinado.
Por isto, uma das queixas de muitas pessoas é o endividamento, acusando o baixo salário. Porém, há várias razões para o endividamento: para alguns é causada por compras por impulso, Ou seja, uma válvula de escape para curar a ansiedade. Sim, há pessoas que buscam curar a irritabilidade, fazendo compras por impulso sem a devida necessidade. Depois, sentem-se culpadas com as contas a pagar; recorrendo a empréstimos para pagar contas e, mesmo assim, conseguem se livrar das dívidas. Considerando que isto é vício, essas pessoas vivem infelizes, inseguras e propensas ao eterno endividamento até se curarem dessa pulsão.
Outras pessoas buscam o alpinismo social e se sacrificam para se identificarem com determinados grupos. Assim, gastam além de suas economias para adquirirem certo status. Ou seja, buscam ostentar a falsa nobreza e a sensação de bem-estar.
Ao ler uma entrevista do humorista Chico Anysio, anotei algumas dicas de economia que ele recebeu da sua ex-mulher Zélia Cardoso de Mello. Segundo seu depoimento, ele aprendeu que a melhor forma de administrar os seus recursos é o pagar as contas em dinheiro, pois, desta forma, é fácil perceber a entrada e a saída do dinheiro. Assim, é possível exercer certo controle sobre o capital, evitando o desperdício.
Como conseqüência, passei a ter um planejamento mensal e anual das contas, privilegiando o pagamento a vista, evitando as armadilhas do cheque especial, do cheque pré-datado e do cartão de crédito. Assim, o planejamento passa ter como referência os recursos reais e não fictícios, observando-se que acumular cartões de diferentes bandeiras é uma estultícia própria daqueles que primam pela ostentação.
Cultivar o estilo simples sem estar preso aos ditames da moda e da novidade é uma sugestão inteligente.  Há pessoas que são vorazes em comprar o último lançamento de celular, roupa sem calcular suas possibilidades com tiverem uma fonte inesgotável de recursos.
O planejamento não envolve só dinheiro. É possível planejar o tempo e a realização dos sonhos. O estilo de vida desregrado é pretexto para se chegar atrasado aos compromissos e cumprir os prazos prometidos. O planejamento possibilita que as coisas obedeçam a uma seqüência lógica de tempo, possibilitando o atendimento a demanda e a previdência dos percalços.
Quando alguém é uma personalidade suas demandas aumentam, tornando-se prejudicado o tempo e sua privacidade é interrompida por incessantes toques de celular.  A disciplina é o remédio para que os contextos não se confundam: vida pessoal e profissional no seu devido lugar e momento. As necessidades têm pressa, mas as demandas podem ser programadas para ser encaminhadas no seu devido tempo, sem o stress do urgentíssimo. Aliás, o planejamento cancela todas as desculpas do urgente – urgentíssimo.

ORGANIZAR AS PRIORIDADES A PARTIR DO QUE É ESSENCIAL
Umas das passagens veneráveis do livro do profeta Isaías capítulo 55, versículo 2 recomenda a administração financeira por prioridade, citando a alimentação.  Aliás, muitas parábolas, citadas nos Evangelhos, tratam direta e indiretamente de administração financeira como, por exemplo: a parábola dos talentos, da minas, do fermento, da semente, etc. São temas que abordam matéria prima, investimento e lucro. Assim, vão contra a mentalidade pedante de se prender ao acaso, sem os recursos do esforço da inteligência e da engenharia administrativa e da oportunidade. 
A vida deve se organizar a partir de prioridades: aquilo que é essencial, depois o que é necessário, partindo para o que é importante e o interessante.
O essencial está relacionado à matéria-prima das necessidades. Está relacionado à aspiração da vida que se constrói no dia-a-dia: a alimentação, o vestuário e a habitação. Definir o que é essencial é identificar a dignidade da pessoa; é ver que sem o atendimento a essas necessidades o homem está condenado à indigência.
Depois, supridas as carências do essencial pode-se buscar o que é necessário: a educação, por exemplo. O bom emprego é proporcional ao valor do diploma, do mérito e da oportunidade. Pelo estudo sistemático chega-se a universidade e obtém-se o diploma, porém isto não é tudo. Deve-se provar o conhecimento adquirido e abraçar as oportunidades que surgirem. Deixar passar as oportunidades é esquecer de acordar para viver o sonho.  Por isto, o necessário valoriza o essencial e possibilita buscar o que é importante e interessante.
As necessidades humanas não se esgotam, porque o homem não quer apenas viver, quer viver bem e com conforto. Assim, o essencial ganha sofisticação e passa a significar “luxo”.
Organizar as prioridades a partir do essencial é reconhecer seus próprios limites. Viver cada momento a seu tempo sem arroubos de soberba e esnobismo. É aguardar a sua vez na história, sem pressa pois cada momento é propício para ser feliz.  
EVITAR O DESPERDÍCIO
É preciso reconhecer que a nossa vida é feita de valores que não podem ser desperdiçados. A dignidade construída no labor histórico de dificuldades não pode ser banalizada por um momento de prazer. Desta forma, muitos têm traspassado a sua alma e provado o sabor da morte.
Por isto, toda a energia de uma vida não deve ser apagada em um momento, quando as dores chegarem cobrando o salário do uso indevido das drogas: álcool, cigarro, barbitúricos e substâncias tóxicas diversas. A energia se esgota quando a natureza do corpo é maltratada por noites perdidas, má alimentação e toda forma de excessos. A vida é um bem raro que não deve ser desperdiçada. Sim, deve ser vivida com cuidado e poesia.
A mente deve ser povoada de bons pensamentos, sem as pragas daninhas trazidas pelo mau uso da internet, da televisão e de certas literaturas. A leitura de um bom livro traz conhecimento e ilumina a alma, libertando-a da ignorância. Por isto, concordo com Myles Munroe quando diz que comprar livros é mais importante do que comprar comida. Ou seja, a comida demora seis horas no organismo, mas o conhecimento dura toda vida.
Valorizar o produto do seu trabalho é evitar o desperdício das sobras de alimentos, compras de roupas que não se vai usar, produtos encalhados no canto da casa. Convém lembrar de um pensamento anônimo: “onde há sobra tem desperdício; onde há fartura tem falta, pois quando todos se alimentam e se fartam não há falta”. “Ou seja, enquanto comidas aqui são jogadas fora em outros lugares pobres há gente passando fome”. Reflita.
CULTIVAR RELACIONAMENTO
O homem é um ser de origem gregária. Ou seja, não consegue viver sozinho sem cultivar relacionamento. Contudo, vivemos em comunidade marcada pela diversidade em todos os sentidos e essas diferenças nos forçam ao diálogo pelo entendimento do outro, sua força de pensar, de ser e agir.
É possível que eu seja conhecido de muitos, mas, alguns deles, escolhi para serem meus amigos. Por quê. Pela aproximação descobri a afinidade, traços comuns e a inspiração. A definição para amizade dada por Mike Murdock é interessante: “a amizade é uma forma de premiar a lealdade e a confiança”. Bem sei que nem todas as pessoas conhecidas são minhas amigas apesar dos bons valores que cultivam e a idoneidade que possuem, pois é uma questão de escolha pessoal. Contudo, a universalidade do respeito à pessoa prevalece na relação entre conhecidos e amigos.
A relação cordial, afetuosa e sincera no trabalho, na igreja e em outras instituições é uma necessidade lógica. É salutar vivenciar relações duradouras, comunicando parcerias e exercendo a tolerância recíproca.
Assim, cultivar relacionamentos no novo ano é salutar para perceber que paz é comunhão e não isolamento, que a felicidade é para ser compartilhada sem constrangimentos e que a vida se frutifica quando nos aproximamos uns dos outros de forma fraterna.
CONCLUSÃO
Viver o próximo ano é um desafio a ser enfrentado com receitas antigas, mas com novas atitudes. Por isto, o planejamento deve estar associado a organização em todos os sentidos, evitando o desperdício e cultivando relacionamentos.

REFERÊNCIAS:
Sugiro a ver a serie de TV: Filosofia, um guia para a felicidade. Apresentada por Alain de Botton no canal da TV Escola.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Nos tempos de estudante universitário, fui introduzido à pedagogia humanista de Carls Ramson Rogers (1902 - 1987) por meio de um professor provocativo que desafiava os alunos a não aceitarem as informações prontas, a exercitar as percepções do mundo ao redor e extrair dele um novo conhecimento. Ele inaugurava uma aprendizagem centrada no aluno que revelava seus conteúdos vivos, porém precários, os quais eram sistematizados pela intervenção de insight do mediador desse conhecimento.
Assim, a aprendizagem era uma descoberta das motivações, dos sentimentos e do outro por meio de exercícios progressivos de escuta. Era renunciar a própria verdade e colocar-se no lugar do outro, procurando entendê-lo sem autoritarismos e imposições. O exercício da autonomia não era um conceito abstrato dos livros e dos projetos, mas um objetivo a ser perseguido: o aluno ser o orientador do seu próprio conhecimento, quando descobrir-se enquanto pessoa em desenvolvimento pleno. Aliás, definir “desenvolvimento pleno” ultrapassa a objetividade de um conceito; ou seja, é um processo contínuo de autodescoberta, é analítico, reflexivo e orienta um ciclo de vida. Por isto, não é um conceito é uma abordagem, um jeito de ser, uma filosofia de vida.
Como conseqüência, eu já estava incluso em grupo de alunos que se declaravam rogerianos não pelo estilo de vida, mas pela busca de resposta e leitura incessantes de obras inspiradas na pedagogia, filosofia e psicologia de Carls Rogers. Dentre essas obras, cito os escritos do professor e jurista João Baptista Herkenhof e do psicólogo Jhon Keith Wood (1983).
Dessas obras, extrai as quatro teses do direito da pessoa ao respeito. Aliás, tanto a filosofia como a pedagogia humanista estão calcadas na fenomenologia e o existencialismo, inaugurado pelo filósofo e pastor protestante Martin Heidegger (1889 – 1976) que influenciou as obras de Jean Paul Sarte (1905 - 1980) e, também, Karl Rogers.
O direito da pessoa ao respeito vem sendo citado por mim nas conversas e orientam muitas decisões que tenho tomado na vida.
O DIREITO DE SER
No mundo atual, ainda prevalece a idéia do homem padrão, suscitando imagens e imposições de conduta e de representações. A emulação vem sendo a tônica e as pessoas copiam tendências e estilos querendo identificar-se com determinados grupos em busca do status. Nesse caso, a pretensa necessidade de aceitação gera uma crise de identidade, sendo corrente a ausência de autenticidade quando se quer parecer com alguém. Assim, há pessoas que não se decidem sem uma segunda opinião.
Há pessoas que tentam se rebelar contra a hegemonia da ditadura da moda, da magreza e da imposição de etiquetas sociais, querendo assumir o protagonismo de suas decisões, sem a interferência de terceiros.
O Direito de Ser é uma via de mão dupla porque depende da redescoberta do EU, sem o vírus do egoísmo, do individualismo, do esnobismo ou da autocomiseração. É conseqüência de um “continuum”; isto é, um crescimento pessoal em direção a autonomia. Isso depende de um “feedback” (retorno da informação) da relação com outro. Aliás, é impossível crescer sem essa troca de informações a qual possibilita o reconhecimento dos seus defeitos e possibilidades.
Quando há o reconhecimento do direito de ser não há agressão, opressão nem imposições. É a redescoberta do exercício da liberdade em seu sentido pleno. Há quem diga que na liberdade não há limites porque o direito do outro caminha junto com o seu, bem como as conquistas e seja verdadeira a consciência de que qualquer agressão ao direito tem conseqüências recíprocas.
O direito de ser não anula valores nem discrimina o outro. As diferenças de opinião e o jeito de ser são respeitados, validando a variedade que existe entre os seres humanos.  É o respeito ao livre-arbítrio da pessoa ser o que ela é não o que os outros querem.    
O DIREITO DE SONHAR
Todo ser humano tem o direito de desejar o melhor para sua vida, independente das opiniões dos outros. As opiniões, quando solicitadas, são válidas e qualifica a avaliação das possibilidades do sonho. Aliás, sonhar faz parte da essência humana, pois quando alguém deixa de sonhar sua vida perde o significado. Por isto, sempre tem alguém fazendo planos de ter um carro, uma casa, um emprego melhor; ou seja, o sonho é algo transcendente como a fé e inaugura possibilidades.
Há quem diga que você pode não realizar o seu sonho, mas chegará bem perto dele. Por isto, é necessário sonhar para descobrir significados e motivações. Claro, o sonho é capitalista e sua realização exige um preço não calculado. Imagine quanto custa a perda de horas de sono, da ansiedade, da privação do prazer até a conclusão de um curso superior. Há sempre o deboche com quem exerce um cargo público, mas nunca é perguntado qual é o preço da realização do seu sonho.
Antigamente as mulheres eram privadas de sonhar porque o seu destino era determinado pelos pais. Eram condicionadas a desejar ter um bom marido e serem boas donas de casa. Lamentalmente, ainda existe resquício desse autoritarismo contra as mulheres que, quando casam, são proibidas de trabalhar fora.
O direito de sonhar inaugura as possibilidades do futuro e faz a pessoa ser protagonista da sua história, sem interferência ou imposições.
O DIREITO DE QUERER
Percebo nas manchetes dos jornais tragédias causadas por ex-namorados e ex-maridos que não aceitam a separação e querem impor às mulheres sua vontade e, não conseguindo, realizar o intento partem para a violência moral e física e até à morte.
O instinto de dominação faz que alguém queira a supremacia sobre o outro, inclusive no sentimento e na vontade. A tática da mentira tem favorecido à escravidão da mente dos incautos, presas fáceis do materialismo do capital e do desejo de ascensão social. Há homens e mulheres que se sujeitam a caprichos de outras pessoas, passando por cima da propalada dignidade e da coerência.  Contudo, a verdade liberta como a luz espanta as trevas da escuridão dando possibilidade de alguém andar sem tatear ou amparar-se em alguém.
O maior bem que alguém possa querer é a liberdade, a paz e a consciência tranqüila. O desejo do bem-estar e do conforto não deve ser pretexto para nulidade da individualidade. Claro, querer realizar um sonho depende de planejamento e análise da viabilidade dos recursos.  O direito de querer não pode ser ilógico. Doutro modo, vira obsessão e loucura.
Querer é o exercício da vontade com responsabilidade ao direito do outro ao respeito. A realização da vontade não deve ser mesquinha ou invejosa, querendo copiar a história de alguém. Assim, quando alguém se descobre pessoa em desenvolvimento pleno consegue equilibrar sentimento, vontade, intelecto e ação.
O DIREITO DE VIVER
Fazer da existência uma prática de liberdade não significa fazer o que quer. É como se visse desenrolar diante si a sua história como um filme, sendo colocadas as opções de sucesso e fracasso. É possível visualizar uma história de vida ao longo dos anos. Para isto serve os sonhos: para desenhar uma realidade desejável.
Viver a vida é caminhar a trilha da existência, banhada por um sol de decisões conscientes. Não é a ausência do erro ou até mesmo de fracasso, mas é a capacidade de extrair aprendizados para os próximos passos na trilha sonora da transcendência. Aliás, é teológico pensar como é espiritual sentir a beleza da alma fruir diante dos nossos olhos. A interioridade dos sentimentos e seus significados nos tornam humanos e nos leva a compreender uns aos outros.
O direito de viver não conduz ao isolamento, mas a solidariedade do respeito à vida, sem o escárnio das diferenças do outro. Aliás somos uma orquestra. Cada ser humano é um instrumento diferente com sonoridades distintas que o criador pretende reuni-los como uma orquestra para apresentar o espetáculo da urbanidade e da tolerância.
O direito de viver é descobrir a simplicidade das coisas, da natureza. A maior natureza de Deus é você e sua vida não deve ser maltratada, destruída e extinta. Que pena, se o homem destrói o outro ser humano que é a natureza, quanto mais os animais e a floresta.
CONCLUSÃO
Sou livre, a vida me contenta com os seus desafios. Estou pessoa em desenvolvimento em pleno: o que sou parte de um desígnio, de uma visão que me leva a um propósito. Estou aprendendo a ser natureza de Deus.
Convido a todos a refletir sobre o direito da pessoa ao respeito, Se policiar quanto aos sentimentos de raiva – expor a raiva sem as conotações de vingança e intolerância –, palavras ofensivas e atitudes impetuosas. O exercício do feedback, é deixar o outro falar até esgotar a fonte dos seus sentimentos e se manifestar por uma leitura do sentimento do outro, sem aquele mecanismo da retaliação, do ego ferido. A compreensão da raiva do outro é o ponto de partida para inaugurar as possibilidades de entendimento e concórdia. Aparentemente, o pensamento conservador julga ser uma atitude condescendente e covarde, mas Nelson Mandela mostrou que o diálogo entre inimigos parte do reconhecimento da integridade do outro, zerando as motivações da justiça e injustiça, apontando o caminho para o perdão.
A abordagem centrada na pessoa leva o reconhecimento do respeito. Mas em sociedade contaminada pelo individualismo, torna-se necessário que o respeito seja a tônica para a suplantação das desigualdades e intolerâncias

REFERÊNCIAS
Recomendo as leituras dos livros sobre a prática não diretiva como:
WOOD, Jhon Keith. A abordagem centrada na pessoa. Vitória: Edufes, 2008.
Acesso a outras obras sobre a pedagogia humanista.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

É PRECISO DESACELERAR

É PRECISO DESACELERAR
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Fico impressionado com a valorização excessiva do imediato como se tudo na vida estivesse enquadrado em uma reengenharia gerencial para a eficácia dos resultados. Desta forma, a pregação contra o desperdício do tempo não é antagônica ao valor dado as futilidades, mas um combate ferrenho ao ócio agradável. Aliás, a apreensão do mundo com os detalhes e significados é tão marginalizada que alguns são classificados de loucos e alienados.
A leitura do mundo, apregoada por Paulo Freire (1921 – 1997), exige uma meditação progressiva das diferentes formas e cores que nos cercam; é construir relações e estabelecer significados entre o homem, a natureza, os sentimentos e novas formas de pensamento. Essa leitura exige considerar o homem parte integrante da natureza e agente da comunicação. Vale ressaltar que há muitos diálogos, discussões, mas pouca comunicação, visto que as pessoas não aprenderam a escutar. A arte de escutar leva ao entendimento e a compreensão do sentimento do outro, firmando convenções de parcerias para atender a um bem comum. Lamentavelmente, há pessoas que se preparam para confrontar com as idéias e derrubar a tese do outro e, se possível, vencer no grito e pelo cansaço. Em uma verdadeira escuta não há perdedores, não há abatidos nem constrangimentos, pois ouvir é uma atitude de autoconhecimento na perspectiva do outro. Assim, as nossas virtudes e defeitos aparecem quando nos relacionamos com as pessoas.
Por isto, a pressa é um obstáculo à comunicação, que é um meio de aproximar pessoas. Parece que é mais fácil utilizar coisas para se comunicar, sem o contato com alguém, atribuindo personalidade aos papéis e documentos que recebem prerrogativas de fé, superiores as de qualquer indivíduo. Em tempos passados, bastava uma palavra e aperto de mãos para firmar compromisso. Hoje são necessários inúmeros papéis, assinaturas e testemunhas e, quando isto não vale, exige-se registro em cartório. Ou seja, o ser humano está se despojando de argumento moral e solicitando como fiador inúmeros documentos.
É PRECISO DESACELERAR A ANSIEDADE PELO IMEDIATO
A cultura do imediato busca remediar e queimar etapas, valorizando o resultado e ignorando a essência presente na análise cuidadosa do processo. Claro, a vivência de cada etapa assemelha a torrente da vida e revela um crescimento sadio do aprendizado. Nesse arremedo de fases, o tempo não pode ser incriminado como inimigo das ambições e traidor das aspirações ardentes das pessoas presentes na arena de poder. Essa imputação de culpa é um álibi para a ansiedade resultante das expectativas frustradas.
Gosto de observar a natureza, sem pressa. Parece que somente o tempo passa enquanto as árvores dançam ao murmúrio do vento, os animais vivem cada momento sem capitular a insegurança do alimento diário. A ausente preocupação da natureza forja a máxima de que somente o ser humano vive seu momento como se desfrutasse do último manjar do dia. Nesse caso, o amanhã é tão presente que suas tarefas estão determinadas na agenda.  Por isto, é desejoso que os dias e horas atrasem para o bem-estar dos homens e mulheres de negócios, estressados com o feitio de carregar seguidores de instruções e recomendações. Costumo lembrar de um pensamento do filósofo Rubem Alves de que os dias são longos para as crianças e curtos para os adultos. Por quê? As crianças resolvem seus problemas de forma lúdica enquanto que os adultos são causadores de crises e tentam resolver seus problemas por meio de discussões, documentos, instituições e instâncias de juízo.
Fico na expectativa de ouvir os anciãos, pois a vida deles desacelerou. São eles contadores de histórias, vacilantes no relato das tristezas, mas vigorosos no retrato das vitórias da vida.  O sorriso dos idosos mostra que há erros possíveis de serem atravessados e chegar com vitalidade no final da vida para contar histórias. Assim, é possível acreditar que a ansiedade dura um momento, pois a experiência mostra que há esperança de superar as tribulações, oriundas dos embaraços que nos cercam.
É PRECISO DESACELERAR A AGITAÇÃO DO TRABALHO
As doenças mais relacionadas ao trabalho são: o stress, a estafa, tendo como sintomas a irritabilidade, a insônia e perturbação mental. O argumento mais utilizado é o senso de responsabilidade. Deste modo, a alegação de escravo do trabalho faz a distância da família e, até mesmo, dos problemas pessoais pela substituição de uma alienação por outra.
A agenda de trabalho é o mote para ilustrar carga de responsabilidade: reuniões, compromissos e representações. Aliás, preencher os espaços de mobilização política não é questão de visibilidade, mas de status, de presença e de identificação com pessoas e contextos, tanto do ponto da convergência como da divergência.
Já ouvi relatos de pessoas que alegam necessidade de trabalhar dia e noite para ganhar dinheiro com o propósito de sustentar a família ou ter um razoável conforto. Via de regra, esse esforço não proporcionou resultados imediatos nem duradouros. Há aqueles entram pelo caminho da bajulação como meio de chamar a atenção e conseguir atalhos para o sucesso profissional. Assim, quem faz essa opção é tentado a transigir com o erro, a negar princípios e a própria identidade, passando a representar um papel da submissão cega. Em todos os casos que conheço, no final persistiu o sentimento de traição, de ter sido usado até perder a importância para o esquema de poder. A sensação de conforto da bajulação é alienante o que torna a frustração mais dolorosa.
Talvez, a inveja seja uma das causa de maior ansiedade no trabalho. Segundo definição, a inveja faz a pessoa desejar ardorosamente estar no lugar do outro. Por isto, em uma escala progressiva, os invejosos são capazes até de matar por causa da sua pequenez e sua noção de incapacidade.
É preciso desacelerar no trabalho as sensações de incapacidade, os pretextos do assédio moral e busca constante da eficiência até as últimas conseqüências.  É preciso humanizar o trabalho, privilegiar as relações entre as pessoas e não a frieza das obrigações. Hoje, fala-se da coisificação do homem e a humanização das coisas, principalmente por causa da substituição do homem pela máquina e pela forma como ela torna vida quase autônoma. O homem acaba ficando dependente da máquina. Imagine como ficaria o trabalho sem o computador e outros equipamentos de mídia e da eletrônica? A máquina acelerou o trabalho e curvou o homem a todos os caprichos.
É PRECISO DESACELERAR A MILITÂNCIA
Fico impressionado com tantos movimentos por direitos tanto na área da educação, da assistência social, da criança e do adolescente, das pessoas com deficiência, etc. Se fosse atender a todos os convites teria que abdicar do meu trabalho e da família. Também, a cada encontro vejo estante de livros à venda, além daqueles que recebo como bonificação. As informações que recebo me sensibilizam, mas não consigo me ver envolvido de forma apaixonante nas causas que me são apresentadas. O envolvimento afetivo com essas causas reclama por paixão ou militância. Costumo dizer que ter paixão é buscar uma razão para sofrer ou uma causa para, se possível, morrer por ela. Isto implica em renúncia aos momentos de lazer com a família, o descanso e incorporar uma crença.
Creio que todos nós somos resultados de um conjunto de ideias; que, por sua vez, constituem filosofia de vida e orientam condutas e estilo de vida. Por isto, envolver-se com uma causa é ser despertado por uma vocação, motivado por uma paixão que se destina a um propósito. A visão do propósito é que dá consciência do lugar onde se pretende chegar.
Percebo que a militância é exclusiva para poucos, devido a acomodação de muitos. Assim, há pessoas que se ocupam de vários papeis ao mesmo tempo como quisessem suprir a ausência de engajamento dos outros. A tese de ocupar todos os espaços porque os outros não querem é trágica e ridícula.
É preciso desacelerar para que a vida tenha sabor para além da sensação de purgar a culpa de abandono ao próximo e ser compadecente com as tragédias dos outros. É preciso desacelerar para usufruir da prática da bondade na medida certa; da busca da justiça com a equidade da saúde do corpo e da mente.
CONCLUSÃO
Não vou concluir a tese, mas convidar a todos a pensar os dias trabalhosos e sua aflição de espírito. Convido a refletir sobre a brevidade da vida e pensar a filosofia do carpie dien: “Viver intensamente cada dia como se estivesse colhendo um fruto saboroso”.

REFERÊNCIAS
Recomendo as leituras dos textos de Rubem Alves: http://www.rubemalves.com.br/ 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

MINHAS TRÊS MÁXIMAS

MINHAS TRÊS MÁXIMAS

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Há tempos venho divulgando junto aos amigos algumas ideias que, por sinal, traduzem o senso de responsabilidade com as palavras.  Concordo com o educador Rubem Alves (2005) que as palavras grudam em nós se fosse uma tatuagem e se tornam irremovíveis, sendo adicionadas novas pinturas de palavras a cada momento. Por isto, tenho que o exercício da reflexão proporciona mais consciência dessa realidade, evitando os tropeços mais comuns da palavra.
Para evitar o inesperado, forço o exercício do pensamento até as últimas conseqüências na tentativa obter a consistência lógica, avaliando a coerência, a pertinência e a oportunidade. A coerência é uma alternativa para fugir do contraditório, tornando as idéias e os procedimentos lineares. Isto possibilita uma visão límpida das atitudes e, mesmo que não agrade a todos, a coerência será sempre louvada, pois é mais importante ser autêntico do que politicamente correto.
No exercício do pensamento, considero a pertinência das palavras para além do ponto de vista da aceitação geral. Claro, as palavras devem ser orientadas por um fundamento e um objetivo altruísta a ser alcançado. Doutro modo, prevalecerão sempre interesses mesquinhos de satisfação do próprio ego e de esnobismo ao próximo.
A oportunidade determina a exatidão do tempo: não ser adiantado nem atrasado em comunicar suas necessidades e interesses. Claro, há sempre um clamor pela resposta imediata a uma provocação, amparado no pressuposto da retaliação, pois a agressão em palavras é celebrada como uma intimidação e imposição de respeito.
Diante dessa constatação, construí três máximas para explicar que as minhas palavras estão relacionadas a um contexto reflexivo e subliminar, trazendo no encoberto uma verdade.
PRIMEIRA MÁXIMA: TODAS AS MINHAS BRINCADEIRAS TÊM UM LADO SÉRIO
Ao considerar a seriedade da brincadeira, invoco a responsabilidade da mensagem subliminar que está presente nas piadas, ironias e imitações. Claro, brincadeiras podem encobrir preconceitos, repulsa, esnobismos, podendo ser interpretado como um ato de covardia. Por outro lado, ter consciência da seriedade da brincadeira impõe o bom senso para traduzir nas pessoas o afeto e o respeito. Por isto, busco a disciplina para evitar mensagens subliminares que agrida o próximo.
Costumo dizer que as brincadeiras são recursos lúdicos para entreter pessoas, realçando suas qualidades e possibilidades. Mas, raramente, revelo a alguém a mensagem subliminar de uma metáfora ou ironia que venho a proferir. Aliás, gosto de convidar as pessoas à reflexão sobre a vida, suas motivações e celebrar a amizade.
Outra motivação para a brincadeira é desconstruir sentimento de tristeza e de preocupação e tirar pessoas da meditação dos seus problemas. A realidade hipnótica da crueza da vida deve ser reduzida ao pó, pela serenidade do consolo lúdico. Aliás, a brincadeira pode ser mediação para atenuar dores e trazer pessoas para uma órbita de serenidade, mesmo que isto seja temporário.
Também, quebrar a frieza das relações formais pode contribuir para o estabelecimento a relacionamentos mais estreitos e a construção de confiança e amabilidade, desde que a brincadeira seja um ato comprometido com o bem-estar do próximo.
SEGUNDA MÁXIMA: ESTOU SEMPRE REPETINDO AS MESMAS PALAVRAS
As minhas palavras são de repetição contínua, pois refletem ensaio de um pensamento construído nos momentos de solidão. Aliás, é mais cômodo repetir as mesmas palavras, mesmo que de forma diferente, pois se constitui um argumento muito forte de que nada não é inédito. Quando as palavras não são inéditas, cria-se instrumentos para análise da coerência e conseqüências. Assim, as palavras ganham intimidade e personalidade própria. Ou seja, é uma tatuagem que acompanha a pessoa em diferentes lugares.
Por isto, quando alguém argumenta o teor das minhas palavras, tenho o álibi da repetição como mecanismo de defesa. Assim, permito-me relacionar as palavras a cada contexto e aplicá-las conforme a necessidade, mesmo que aconteça a confrontação de idéias. Para tanto, as palavras passam por leituras e releituras quanto a aplicabilidade de contextos.
Gosto de dialogar com amigos, debruçando sobre a especulação teórica e filosófica de diferentes assuntos. A repetição exaustiva de teses contaminou meus amigos próximos que, também, passaram a reproduzi-las de forma repetitiva. Assim, persisto em dizer as mesmas coisas, consciente de que novos significados são constituídos pela reflexão contínua, possibilitando o surgimento de novas teses.
TERCEIRA MÁXIMA: A MINHA FALA É AUTOBIOGRÁFICA – SEMPRE ESTOU FALANDO DE MIM MESMO
Acredito na relação afetiva de cada pessoa com as palavras, pois as palavras traduzem a existência do individuo: sua experiência, aquilo que ele gosta ou não, em si mesmo ou nos outros. Assim, partir do eixo do meu próprio corpo e do ego para me comunicar, dizendo sempre na primeira pessoa do singular ou plural. Até quando digo “Eles”, estou enquadrado na historicidade do contexto.
Cada palavra está carregada de historicidade, personalidade e vários sentimentos: alegria, tristeza, raiva, frustração e outros. Também, a arte de comunicar com as palavras envolvem gestos, expressões da face, respiração e tonalidade de voz. Logo, me relaciono não somente com as pessoas, mas com as palavras.
Ao elogiar alguém estou revelando atitudes, comportamentos pelos quais me identifico e gostaria de participar afetivamente. Ou seja, é uma apreciação pessoal, oriunda da observação sistemática e identificação moral. Claro, todos nós estamos impregnados de julgamentos morais em relação a si mesmos e ao outros.
Quando critico, estou revelando comportamentos pelos quais não me identifico e gostaria de evitar. Falo de coisas que ofendem a minha identidade. Ou seja, comportamentos que não gostaria de copiar. Trata-se de exemplo que não gostaria de evitar ou algo que me aflige.
Logo, minha fala é autobiográfica, pois não consigo fugir da minha história que é contada nas mensagens subliminares das palavras. Eu sempre estou falando de mim mesmo, utilizando código e me comprazo em expelir experiências para as pessoas não verem, não ouvirem, apenas sentirem. A tradução das mensagens subliminares é privilégios de poucos.
CONCLUSÃO
Vivo intensamente cada dia, com a consciência de que as palavras são punhais nas mãos das pessoas. Alguém pode ouvir uma mensagem e transformá-las em potenciais incentivos enquanto outras podem interpretar as mesmas palavras como críticas.
A relação passional com as palavras é inevitável. A dica é comunicar sempre: o mal-entendido sempre haverá para complicar as relações humanas.

REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura dos livros:
ALVES, Rubem. Um céu numa flor silvestre.  Campinas (SP): Versus Editora, 2005.
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.





sábado, 13 de novembro de 2010

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE OS MALES DO PODER

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE OS MALES DO PODER
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
Introdução
Tenho compartilhado com amigos algumas reflexões sobre o poder e suas implicações nas relações humanas. Percebi que há várias publicações sobre o assunto, daquilo já li e já ouvi. Cito como mais recentes as minhas leituras de obras do filósofo Alain de Botton, ressaltando o brilhante livro “Desejo de Status”, onde o autor descreve as sensações presentes no alpinismo social e como acontece a soberba, o esnobismo e o sentimento de autocomiseração em algumas pessoas. Assim retrata a margem que se estabelece entre ricos e pobres, as relações de dominação e subordinação e o status que é conferido a poucos.
Outra referência importante foram os sermões do Dr. Myles Munroe que defende a tese que os seres humanos foram criados para dominar e não para serem dominados. Ele exemplifica que a escravidão não prosperará em seu intento, pois o espírito humano sempre clamará quando houver privação da liberdade. Porém, a maior lição dos seus sermões tem sido a definição de liderança, pois ele desconstrói concepções de que ser líder depende da ideologia do dom, da manipulação e da força.
Contudo, as minhas reflexões compartilhadas com os amigos abordam a relação entre poder, status, capital e os conflitos pela disputa do poder. Nas minhas conversas tenho comentado artimanhas que se estabelecem para a manutenção do "status quo", levantando hipóteses sobre as razões de diversos conflitos que reclamam por legalidade. O argumento da legalidade é plausível, uma vez que as disputas se estabelecem tendo como ferramentas leis, estatutos, regimentos e outras normas. Comento que há espaços insuficientes no mundo para acomodar tantos egos, quando não há capacidade de ceder pelo menos um palmo. Pior, há pessoas que justificam as disputas, alegando que preferem padecer em defesa da justiça social do que a quietude da omissão.
Minhas referencias de defesa social são as personalidades: Martin Luther King Jr (1929 – 1968), Mahatma Gandhi (1869 – 1948) e Madre Tereza de Calcutá (1910 – 1997). Alias, são pessoas que mudaram o mundo de modo pacifista e são considerados os heróis da história. Alias, lembro-me como eram cultivados o José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco (1845 – 1912), pela diplomacia como conduzia as disputas territoriais, tendo o instrumento da argumentação política.
Por isto, a seguir apresento algumas teses construídas durante minhas conversas sobre o poder, sustentadas pelas expectativas frustradas, tão evidenciadas por Sêneca em suas reflexões sobre a ira e a brevidade da vida.
1. Quem tem o poder não tem escrúpulos
Vale aqui a máxima de um amigo muito próximo: “quem tem o poder passa por debaixo, de lado, pelo meio e até por cima da lei”.  Parece ironia, mas o que ele queria dizer é que as leis, regimentos, normas, etc. são utilizadas, por vezes, ao sabor das conveniências. Quem detem o poder vê e ouve o que quer e faz vista grossa quando quer, dependendo da conveniência que orienta sua lógica e entendimento. Por isto, são comuns diferentes interpretações com exegeses confusas e conflitantes, pois o argumento legal é uma arma nos embates e instrumento para a dominação dos astutos sobre os incautos. Ainda, as distorções legais são convenientes com as aspirações de poder, com as manipulações e a ideologia de atender a equidade social. Aliás, as idéias de liberdade, igualdade e solidariedade são tão proletárias quanto burguesas. A história mostra como essas ideias foram apropriadas na Revolução Francesa, inclusive na época do Terror na ditadura dos Jacobinos.
Também, tenho afirmado em minhas conversas que o poder rima com a violência. Recordo do método estruturalista de pesquisa, que reconhece a história como uma estrutura. Se recapitularmos a formação dos reinos, dos países, observamos as guerras como forma de conquista, ampliação de territórios, tributação. Ou seja, a dominação de uma nação sobre outra nação foi construída por meio da violência da guerra, traições, assassinatos. Então me perguntam: a violência é inevitável? Respondo que Emile Durkheim (1858 – 1917) diria que a violência é um fato social, pois permeia toda a história. Porém o sociólogo advertiria que há situações de violência que se encaminham para o estado de anomia (“fora do controle”).
A manutenção do status do poder tem o custo da articulação, da bajulação e da conveniência. Vale a pena citar a obra de Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) que eu li de forma apaixonante e os escritos políticos de Friedrich Nietzche (1844 – 1900). Deste modo, avalio que o discurso da ética é clemente nos arraias coletivos. Porém, o discurso da ética é tão contraditório quando é utilizado para atender aos intentos egocêntricos, com fins de doutrinar opositores e críticos cínicos.
Tão como Karl Marx (1818 – 1883) vejo a luta de classes como uma disputa de poder. Mas, mesmo em classes homogêneas e ascendentes, a disputa de espaço se estabelece de forma sangrenta e, no final, contabiliza-se os fracos, feridos e muitos que morrem.
2. O limite do poder é o próprio poder?
Algumas pessoas sustentam que quem detém o poder tem medo da multidão, outros da mídia. Por tal argumento, alguns defendem o heroísmo da militância até as últimas conseqüências como forma de disciplinar dirigentes dos seus excessos. Há quem aponte que disciplinar o bom uso do poder depende do investimento em educação para a formar cidadãos conscientes do seu papel na sociedade. Cito a incredulidade do educador Paulo Reglus Freire (1927 – 1997) de que a educação seja a salvação da lavoura, pois, de outro modo, essa revolução começaria pelo Ministério da Educação.
A obsessão pelo poder não conhece limites e regras. Nesse arremedo há ingredientes como movimentação e acumulação de capital, sendo comum em ambientes palacianos denúncias de corrupção, tráfico de influência, nepotismo e outras ilicitudes. A manutenção do status quo é uma obsessão e traduz a prática da oligarquia, com a ideia de sucessão tal como capitanias hereditárias. A confrontação dos excessos de poder tem como ameaças de retaliação, coerção e tentativas de suborno.
Aliás, a história mostra que um poder depõe outro poder, logo o limite do poder estaria no próprio poder. Quer seja por revoluções, traições, legalidade ou ilegalidade, as mudanças acontecem. Claro, o conceito de supremacia é finito e frustra qualquer expectativa de perenidade. Contudo, a ilusão da segurança de que o poder é soberano, acima das circunstâncias e das oposições faz da história a repetição dos mesmos erros, com personagens, épocas e lugares diferentes. Oh, como é dura a sina de quem percebe o final de um ciclo e precisa fazer sucessor!
Como ressalva surge a discussão da ética e da disciplina como alerta daqueles que detém o poder. Como se percebe, os poderosos tem um argumento de legalidade, de que estão certos, diante dos questionadores de suas ações.
Assim, acredito que a moral cristã anunciada no Sermão do Monte deve ser observada, pois aqueles que se ocupam do poder são tentados à soberba, ao esnobismo e autosuficiência. Alain de Botton (2005) convida a perceber na simplicidade das coisas: a essência das relações e a compreensão sobre as motivações verdadeiras que devem orientar o ser humano. Esse insight deve acontecer distante das imersões passionais da razão.
A verbalização estéril só serve para extravasar as tensões, relaxar em um em balcão de reclamações com atendimento exclusivo. Por sua vez, a discussão passional é irascível, improdutiva e inconseqüente. Leva os jogadores ao ringue das vaidades pessoais e os afasta do foco inicial de suas demandas: que é mudar aquilo que os incomoda.
Assim, a expectativa é de que alternância do poder não seja uma história de tragédias, mas a mudança de um paradigma por um outro, isento de vícios, erros e mal feitos.
3. O poder que não pode não é poder
Tenho por testemunha as insatisfações com as crises nas instituições: o Estado, a família, a sociedade, a igreja e outras. As reclamações denunciam as expectativas de um mundo perfeito, tal como expressou Lucius Anaeos Sêneca (6a.c. – 65d.c.). Dessa expectativa frustrada surge a ira, as murmurações e as rebeldias. A ira é a mais perigosa das paixões
As grandes tragédias denunciam a impotência do Estado diante dos problemas que reclamam sua solução. Diante dessa realidade, surgem os messias que prometem o fim do problema da fome, da violência, do trafico de drogas e dos graves problemas sociais.  A repetição do quadro trágico inspira desconfiança e faz surgir o segundo Estado ou Estado paralelo. O Estado paralelo tem suas regras e normas de conhecimento geral, a justiça é imediata tendo como instrumentos a ameaça, a violência e o suborno.
Quando se diz que o poder que não pode não é poder, é porque o poder tem que responder a razão da sua existência. Nesse caso, não deve transigir o erro e o mal feito, pois além da competência, a ética e a moral devem orientar as relações entre as pessoas e as instituições.
Não ser otimista em demasiado pode ser uma forma de evitar frustrações por expectativas não correspondidas. Desse modo, não se deve esperar pessoas perfeitas, instituições perfeitas e resultados eficientes, sem contratempos ou obstáculos, como se o planejamento estivessem ao alcance de todos os resultados esperados e previsão dos possíveis erros de execução.
4. O capital é um dos combustíveis do poder
Quanto mais alguém tiver dinheiro, mais será o número de pessoas que usufruir de sua renda. Ou seja, multiplicam-se os amigos, o status quo e a capacidade de comprar pessoas, coisas materiais e imateriais. Há quem alegue que é possível comprar a bondade e, pasmem, até o amor.
A democracia possibilita que o capital financie a conquista do poder, razão das campanhas políticas milionárias. Pergunto como um deputado pagaria a doação de empresas sem esgotar os seus recursos dos vencimentos a serem adquiridos ao longo do mandato? Claro, que não faltará motivos para a corrupção.
Dizem que sem dinheiro não se faz nada, porque ter dinheiro é ter bens, fama e poder. O dinheiro permita comprar e subjugar pessoas, pois o capital se acumula para poucos e ampla maioria de assalariados encontram-se na base da pirâmide social.
Ouço que um dos milagres do capitalismo é a universalização do sonho, pois todos desejam ter conforto, bens, capital. Porém, a realização concedida a poucos devido a predominância de uma oligarquia presente nos arraias palacianas.
Na antiguidade a conquista do poder tinha motivações belicosas. Porém, atualmente, as disputa pelo poder tem motivações capitalistas, sendo o atalho mais possível a política. Nesse jogo vale tudo, inclusive a exploração da imagem pessoal fabricada pelos recursos da mídia em um quadro de encenação teatral dramática.
Conclusão
Tudo que foi escrito é uma especulação teórica. Não se pretende adotar um trabalho científico, acadêmico. É uma tentativa relatar a observação sistemática, a apreciação e o relato de ideias tal como os filósofos da antiguidade que amavam os seus pensamentos.
A reflexão sobre o poder é uma tentativa de entender a competição irracional, a manipulação, a murmuração e a desesperança do desejo da mudança.
Assim, o contraditório se estabelece quando alguém não concorda com essas premissas. Graças a Deus, a concordância ou a discordância é um indicativo que o texto cumpriu o seu propósito de fazer as pessoas pensarem.

Referências
Indico a leitura dos seguintes livros:
BOTTON, Alain de. Desejo de Status. 2ª ed. São Paulo: Rocco, 2005.
FREIRE, Paulo; GADOTTI, Moacir; GUIMARÃES, Sérgio & HERNANDEZ, Izabel. Pedagogia, Diálogo e Conflito. São Paulo: Cortez, 1995.
DVDs de Myles Munroe sobre o tema: “a liderança servidora”