sexta-feira, 29 de julho de 2011

A CORTINA DO AMANHÃ

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Na loucura incessante da vida, vejo como a rotina conduz a um estágio de conforto, tornando factível a reprodução mecânica dessa rotina. Assim, de manhã à noite, o círculo se fecha pelas mesmas coisas e até a alimentação é obrigação física da sobrevivência. O trabalho que nos aliena só se liberta da rotina quando se reveste de crenças teológicas, morais e ideológicas.
Um dos meios que nos liberta é a crença na doutrina espiritual de família, pois não se trata apenas da célula mater da sociedade, mas de um conjunto de relações entre pessoas. A família traz a ideia de partilhamento de uma mesma origem e existência, com suas concepções de ascendências, genes e preceitos cultuais e culturais. Por isto, as entranhas se movem quando percebemos que somos parte de um todo, partilhando o mesmo sangue e essência. Tal preceito foi enriquecido no cristianismo por meio da fraternidade; ou seja, amor que une e se solidariza entre irmãos, fazendo perceber com a mesma carne e os mesmos ossos. Desse modo, rompem-se as concepções de afinidades por laços de sangue, mas estabelece-se a crença de que toda humanidade tem um ancestral comum e origem divina.
A BREVIDADE DA VIDA
A vida hoje se forja na aflição, na ansiedade, na incerteza dos segredos que serão descortinados amanhã. Nesse caminho de rosas e espinhos, os pés sangram pelas intempéries ocasionais, mas olhos brilham pela esperança que move a perseverança nos mesmos ideais e promessas. Somos participantes da mesma natureza de vida e estamos seguros na paixão que nos move e nos faz acreditar que a vida vale a pena. Por isto, valorizo o sonho como a luz que brilha no caminho apontando para o futuro, retirando-nos da estratosfera do presente e nos libertando das amarras das culpas do passado.
Quando critiquei a velocidade do mundo moderno, estava criticando a mecanização do homem como se fosse mais uma máquina de uma unidade de produção. Nesse caso, estava me referindo à rotina e à perda da humanidade que reduz as relações entre pessoas ao rito de tarefas e responsabilidades. Estava convidando as pessoas a se perceberem como “ser-no-mundo” (um importante preceito existencialista), com os detalhes da natureza que nos cerca e procurassem enxergar a sua própria alma por meio do espelho da reflexão. Como dica, citei a fé em Deus e a doutrina moral e espiritual que a cerca como meio para enxergar as imperfeições da alma e melhorar a conduta existencial em relação a si mesmo e o próximo.
Agora, com a mesma disposição de um guerreiro, que mesmo ferido não cessa de lutar, faço da labuta uma visão de uma missão especial em direção à justiça neste mundo onde não há iguais. A igualdade da origem e essência humana trazida na inocência de uma criança é maculada pela corrupção da sociedade, repleta de adultos imperfeitos e concorrentes em sua verdade própria – produto de um individualismo exacerbado. Por isto, tenho a crença e a consciência de que os valores absolutos estão fundados no amor e na misericórdia, reconhecendo que a diferença entre pessoas não torna um ser mais excelente que o outro. A excelência da elevação do espírito humano só acontece por meio da fé na transcendência divina e na renúncia da própria verdade, soberba e egocêntrica, por aquela torna o serviço ao próximo uma missão da existência.
Tenho na incerteza do hoje e do amanhã, o testemunho vivo da fragilidade humana marcado pela brevidade da vida. Aprendi que a brevidade da vida possui três dogmas. Primeiro, a existência é curta e quem passa dos 70 anos de idade experimenta enfado e canseira. Nesse sentido, o preceito bíblico anuncia que Como a erva do campo assim são os dias dos seres humanos; como a flor do campo assim são; mal o vento sopra, logo deixam de existir, e o seu lugar se esvai.”
 Por sua vez, o ser humano deve ter norte para a sua vida e não gastar a vida – seu maior bem – com coisas que degradam o corpo e o espírito.  Por isto, a vida deve ser entendida a partir de um propósito: já que nasci, o que eu posso fazer e como será o fim dos meus dias? Penso que alguns vêem a vida como uma guerra de oportunidades e, por isto, devem derrubar o próximo oponente ou se, possível, usar de todos os artifícios para alcançar a melhor posição e acumular capital, bens... Essa visão tola e marginal divide o mundo entre senhores e servos, ricos e pobres, intelectuais e leigos, e provoca disputa, invejas, corrupção e violência.
O segundo dogma sobre a brevidade da vida revela que a estrutura do ser humano é frágil e a existência pode ser interrompida a qualquer momento. Apesar dos avanços da medicina que prolongam a vida, temos uma geração de enfermos que convivem anos com doenças incuráveis. Contudo, isto não freia a promiscuidade moral, intelectual e social dessa geração que clama por liberdade sem limites, irresponsável, individualista e amoral. Até mesmo a liberdade dos zumbis é defendida como uma política de redução de danos, reclamada como exercício da vontade de consumir as drogas que lhe apraz, mesmo que isto tenha um custo social caro. Lamentável saber que a vida dos outros é tratada apenas como política pública de direitos, ignorando que dentro de cada ser há uma alma que reclama por socorro.
No terceiro dogma da brevidade da vida descobrimos que estamos rodeados de inúmeros perigos. Por isto, certo orador declarou que vivemos na geração das chaves quando queremos proteger nossa vida e o nosso patrimônio. Asssim, as mortes de adolescentes e jovens inauguram o momento da inversão da contagem dos fins do dias, pois os pais passam a sepultar os seus filhos. A vida tornou-se uma experiência perigosa, marcada pela certeza de que nossa existência pode ser interrompida a qualquer momento por capricho da fatalidade ou pela violência que tão de perto nos rodeia.
Assim, contar os dias da existência é uma alvorada conveniente a cada dia, porém somos blindados em nosso espírito pela confiança na transcendência e crença da imortalidade da alma. Ao contrário, há pessoas que convivem com fantasmas dos traumas da violência, operados por espíritos ministradores do caos, vivendo imergidos na depressão e na síndrome do pânico. Claro, temos instinto de autopreservação, não queremos morrer mesmo a cada dia percebendo a contagem decrescente da vida. Contudo, valorizamos a vida como patrimônio imaterial mais excelente que visualizamos por meio dos nossos sentimentos, vontade e intelecto. Desse modo podemos ver a nossa alma pelo espelho da existência dos outros e nosso fim na tristeza dos atos fúnebre. Nesse momento, somos contaminados por imagens mentais e desejamos que nosso espírito viaje ao exterior do mundo espiritual para sondar como seria a separação da alma do corpo. Por isto, lamento como a perda da humanidade leva alguns a considerar a vida de alguém uma coisa banal, paga de uma vingança insana e até mesmo recreativa.
A DISCIPLINA NO JARDIM DA EXISTÊNCIA
Contudo, mesmo diante da brevidade da vida, vou celebrar sempre a alvorada do amor e a paz no meu jardim da existência. Vou colher a alegria nas tribulações para não me afligir por causa das debilidades alheias. Sei que das possibilidades e impossibilidades sou forjado a entender a razão da existência como atos milagrosos que cancela todas as desculpas da sorte e do acaso. Isto leva a uma existência responsável, respeitando a leis do corpo, da alma e do espírito, a cuidar da saúde da mente, preservando-a dos vícios malditos, apagando a candeia dos olhos para a má literatura e a recreação perversa. Nesse caso, considero verdadeiro o dito Jean Jacques Rousseau: “a criança nasce pura quem a corrompe é a sociedade”.
Vivemos em uma sociedade perversa e isto nos desafia a não nos conformar com ela, pois, de outro modo, seremos enquadrados em seus moldes. Primeiro, aceitando intelectualmente seus preceitos e, depois, considerando convenientes suas práticas. Por isto, a renovação do pensamento é vital para a sobrevivência moral e espiritual nesse mundo de valores controvertidos. Podemos considerar essa renovação como a remoção de um vírus, quando se torna necessário formatar o computador e reinstalar todos os seus programas originais sem danos à memória e ao processamento das informações. Assim, a renovação do pensamento não é um convite à ignorância e ao radicalismo, mas um caminho permanente à integridade moral e aos valores absolutos da fé e da razão.
A prática de pensamento e vida moral sadios leva o homem a desenvolver o domínio próprio. Ou seja, posso fazer o que quiser, mas não vou fazer tudo o que quero. Por exemplo, posso revidar por palavras ou atos quando provocado, mas eu determino que não vou pagar o mal com o mal, mas, sim, com o bem. Acredito que, mesmo em uma sociedade marcada pela competição e o individualismo, posso marcar minha geração, deixando um legado moral inatacável. A nossa sociedade clama por exemplos. Por isto, qualquer ato isolado de um mendigo que devolve uma quantidade de dinheiro achada no lixo ao seu verdadeiro dono é comemorado como um fenômeno de honestidade. Parece que a imprensa quer fazer um contraponto à corrupção dos políticos e dos poderosos ao mostrar que um pobre pode abdicar da sua necessidade em favor de um valor mais excelente que é a honestidade.
CONCLUSÃO
A fé e a razão não estão em dois extremos como pregam algumas pessoas. A fé é cultuada racionalmente, despida de fanatismo e materialismo, como doutrina sadia, amorosa e servil ao próximo. A renovação do pensamento nos liberta das obras mortas do passado e aponta para o descortinar de um novo amanhecer. Assim, posso dormir em paz com a sensação de que ao acordar colherei os frutos saborosos da árvore da esperança. Também, nos meus sonhos não estou sozinho, pois a colheita dos frutos da esperança é a celebração da caridade fraternal.
REFERÊNCIAS:
Não vou citar referências. Recomendo a leitura de obras do filósofo Sêneca sobre a brevidade da vida.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O SISTEMA DE CRENÇAS NO PÓS-MODERNISMO.

  
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
A doutrina plural criada por intelectuais, artistas, jornalistas e outros formadores de opinião, tenta desconstruir o pensamento das massas populares. A forma de pensar das massas possui a riqueza mística, metafísica que traduz a herança cultural do povo, suas crenças, religião e costumes. Mas, a proposta da racionalidade localizada na areia movediça da subjetividade torna toda crença e conhecimento adquiridos uma verdade de valor duvidoso, diante do novo argumento que suplanta todas as certezas.
A SUBJETIVIDADE NO PÓS-MODERNISMO
O advento do pós-modernismo colocou em cheque todas as certezas para dar razão a todas as vozes. Nessa nova ordem, os direitos de todos e de cada um tornam-se abrangentes e alienantes pelo clamor das vozes de todas as classes, segmentos e minorias. 


Podemos considerar que o pós-modernismo trouxe o benefício do reconhecimento de direitos das crianças, dos idosos, dos deficientes, etc. Mas, também, trouxe algumas polêmicas que conflitam na orientação cristã de grande parcela da população, como alguns direitos reivindicados por homossexuais, por movimentos que defendem o reconhecimento profissional das prostitutas, a legalização e discriminação de todas as drogas, a liberação do aborto e da eutanásia.
A gritaria de certos segmentos em reclamar direitos esbarra-se na muralha das crenças da população. Ou seja, a discussão de determinação políticas de direitos coletivos deveria considerar a discussão ético-religiosa. Do ponto de vista individual, a discussão ética encontra consonância no princípio do livre-arbítrio, pois cada pessoa pode fazer o que lhe convém, desde que não seja um meio para se omitir das obrigações legais. Em uma discussão filosófica existencialista, o livre arbítrio é o exercício moral da razão que pode ser limitado por determinadas convenções, pois cada pessoa no afã de satisfazer as suas vontades até as últimas conseqüências fica atraída por seus instintos mais primitivos a agredir o próximo. Essa agressão é mais moral do que física, pois há marcos históricos cuja remoção gerará sérios conflitos ideológicos.
O povo brasileiro nasceu no berço esplêndido da orientação judaico-cristã, tendo, em sua história da educação, a escola dos jesuítas e sua doutrinação de fé. A cultura judaico-cristã que nos abraça é a nossa herança moral que norteia os valores prevalecentes na sociedade. Inclusive a Constituição Federal invoca a “Proteção de Deus”, reforçando a influência religiosa em um Estado que se proclama laico. Assim, a laicidade do Estado não é pressuposto de eliminação de crenças, mas do ordenamento do respeito a todas as suas manifestações. Por isto, estamos cercados de templos e de preceptores que reproduzem esses valores: amor, casamento, sobriedade, preservação da vida, etc. Por causa da tradição religiosa cristã, o pastor e o padre têm mais autoridade do que qualquer político e intelectual en seus ensinamentos de profissão de fé. Porém, há de lamentar como, em casos isolados, lideres utilizam a manipulação e o uso sórdido do poder em benefício próprio, tornando propícia a inútil frase de Karl Marx: “a religião é o ópio do povo”.
Contudo, a prática de fé do povo brasileiro é contraditória do que é ensinado, do que se crê e o que pratica. O sincretismo religioso revela a convivência com diferentes religiões de princípios doutrinários antagônicos que se fundem gerando uma more mística. Por isto, há quem se declare religioso não praticante, aceitando a vivência da fé da conveniência. A polarização entre católicos e evangélicos resulta da crise das instituições, resultando a convivência com novas formas de pensamento, incluindo o pós-modernismo. Disto resulta o crescente materialismo das disputas por números de adeptos numa gritante denúncia da coisificação do homem. Isto acontece até mesmo entre igrejas do mesmo segmento. Daí surge a ortodoxia doutrinária da conveniência que torna mais visível essas disputas de poder eclesiástico e político, dando tom ao movimento religioso contemporâneo.
Considero relevante a opinião de Myles Munroe de que “ninguém pode matar uma ideia, pois ela vai se multiplicar” e dá uma dica de que “para acabar com uma ideia deve combatê-la como uma ideia melhor”. Logo, o duelo de ideias torna-se uma premissa para desconstruir uma crença nascida com o povo brasileiro.
Uma das estratégias é desqualificar a crença no livro sagrado, utilizando o método crítico do texto chamado Desconstrucionismo, que julga todas as interpretações igualmente válidas ou igualmente destituídas de significado (dependendo do ponto-de-vista de quem o analisa). Isto significa desconstruir a verdade, inserindo a dialética da suspeição, mudando sua vertente para uma interpretação mais condizente como o ponto de vista de quem lê, apontando incoerências e erros.
Nesse caso, os princípios do pós-modernismo implica o individualismo, a subjetividade, o relativismo moral e o pluralismo de ideias, tornando a sociedade uma babel com muitas vozes e disputa de espaço de razão e de poder.


O fundamentalismo da subjetividade se contrapõe a qualquer valor que se julgue absoluto, enquadrando a objetividade nos critérios científicos e jurídicos, dando-lhe a vestimenta da imprecisão. Aliás, a única verdade objetiva é: “cada cabeça tem uma sentença” ou como Rubem Alves costuma dizer: “o que dizemos é apenas um palpite...”
A LIBERDADE E O PLURALISMO DE IDEIAS
O pós-modernismo tem também sua substância no pluralismo religioso, ético e moral. Logo, o pressuposto da suspeição dissemina a doutrina de que todas as religiões estão certas ou todas estão erradas, que cada pessoa tem a liberdade para definir o que é certo ou errado para sua vida, pois todos são constituídos de direitos sobre o seu próprio corpo, interesses e vontades. Esse perigo da inconsistência de princípios torna a sociedade contaminada por um crescente individualismo, fomentando a disputa por pontos de vista, razão e aumenta o pleito por aquilo que julga de direito, gerando a inversão de valores. Por isto, a marcha pela legalização da maconha por mais reprovável que seja, encontra substância na interpretação jurídica da liberdade de pensamento que, por sua vez, se opõe a proibição legal do comércio de drogas e à discussão ética judaico-cristã.

A liberdade e o pluralismo de ideias encontram vazão no arcabouço da democracia, que é uma das melhores formas de governos comparada com a ditadura, aristocracia e outros regimes totalitários. Mas, devemos considerar que a democracia embora seja uma das formas de governo mais aceitáveis em todo mundo tem suas fragilidades. A democracia é o braço direito do capitalismo e ajuda a capitalizar dos pobres em favor dos ricos, contribuindo para a desigualdade social. Essa desigualdade acirra a guerra de classes e segmentos, pois a sensação de perda, de precariedade frente a leniência dos governos e instituições.
A idealização imprecisa de um modelo de sociedade é construída por muitas vozes e a ideia de uma sociedade plural é a somatória de conflitos de interesses de diferentes segmentos. Não se trata apenas do antagonismo de ideias, mas de uma disputa de poder de que tem mais influência nos bastidores da política, dando as suas motivações natureza legal.
O antagonismo poder público e sociedade civil resulta da ausência de aliamento de interesses, pois a política de fachada eleitoral prevalece nas obras, projetos e programas com o pressuposto de bem comum. Assim, a via de consenso não se estabelecerá pela dialética, mas por uma nova cultura de probidade e transparência.


CONCLUSÃO
A discussão da política de direitos sem um debate moral inaugura uma guerra ideológica. É impossível remover um sistema de crenças instituída como herança cultural a um povo. A transformação do pensamento acontece no decorrer de gerações, mas preserva a sua essência; por isto, não se conseguiu mudar a disciplina dos povos orientais, mesmo com os regimes totalitários e o advento do capitalismo.
A imposição legal não resolve o problema da aceitação e do consenso a determinadas práticas, pois a criminalização não elimina um sistema de crença. Apostar na educação escolar também não poderá suplantar a essência das crenças, pois mesmo o evolucionismo não conseguir eliminar a crença no criacionismo presente na cultura judaico-cristã.


REFERÊNCIAS
Não indico referências, mas convido a ler o artigo o “Pluralismo do Pós-modernismo”, de Heber Carlos de Campos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O IDEAL DE UM MUNDO PERFEITO

 
professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Lembro-me quando ouvi pela primeira vez a música “Perfeição”, da banda Legião Urbana, composta por Renato Russo (1960 – 1996), que trazia um protesto contra a infâmia da nossa sociedade, citando a estupidez humana, a injustiça e o descaso dos governos. Sua ironia em celebrar "com os idiotas" as desgraças ocorridas todos os anos revelava um desejo enrustido de um mundo melhor. Assim, convidava todos a fazer uma auto-crítica daquilo que vimos em nossa sociedade e preferimos ignorar.
Para o poeta Fernando Pessoa (1888 – 1935), “adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito”. Aliás, amamos a perfeição com um ideal inatingível, por isto, criticamos os outros, cobrando os impostos das nossas expectativas não atendidas. Assim, esperamos granjear servos das nossas convicções para que o jardim do coração se ilumine das flores da vaidade do ego.
O DIÁLOGO DA PERFEIÇÃO COM A IMPERFEIÇÃO
A imperfeição é marca constitutiva do ser humano e revela a incompletude do conhecimento sobre si mesmo e do mundo ao redor. Diferente de Adão que foi um adulto instantâneo, surgimos crianças em um corpo nu, com memória rasa, tendo que aprender desde o estímulo da sucção aos valores da cultura e da educação até o final dos nossos dias. Ainda, persiste a sensação de incompletude que nos leva a buscar o conhecimento como a última novidade da vida.
O mundo perfeito navega no ideal de felicidade do homem; deságua no oceano dos sonhos de um ambiente sem tristeza, justo e com conforto. Por isto, entendo porque o capitalismo universaliza o sonho de aquisição de bens, fama e poder como um meio de se alcançar a felicidade. Aliás, a desigualdade social torna mais desejável a realização do sonho, porém a crueza da realidade do pobre gera autocomiseração pela incapacidade de ascensão social no horizonte mágico do sonho.
O filósofo das frustrações, Lucius Aneu Sêneca (4 a.C – 65 d.C), conhecia um homem rico chamado Védio Póllio, amigo do imperador Otávio Augusto, cujo escravo deixou cair uma bandeja com copos de vidro durante uma festa. Esse homem ficou tão furioso com o som dos vidros se quebrando que mandou matar o escravo, de forma cruel, atirando-o num fosso cheio de lampreias. Ao comentar sobre esse episódio, Alain de Botton ironiza dizendo que Védio Póllio acreditava em um mundo em que os copos não se quebravam.
Nesse caso, uma das manifestações de quadro clínico de delírio é ira, descontrolável, impulsiva na sessão de descarrego brutal da insanidade.
Nas reportagens de grandes tragédias, ouvi algumas vezes o assassino dizer que estava cego que não podia ouvir a voz da sensata razão. Porém, fico escandalizado como o agressor se apresenta vítima da situação, como tivesse o direito de não ser contrariado. Ou seja, no mundo ideal compreende a satisfação dos seus desejos mais mesquinhos, que não podem ser negados, como, por exemplo, o amor de uma mulher.
Nas relações de poder, a cobrança pela perfeição manifesta os instintos mais primitivos de dominação sobre seres humanos. É a forma caprichosa de alguém se deleitar nas fragilidades do outro, impondo-lhe o sentimento de incapacidade e limitação.
Podemos entender que ao adquirir o poder, riqueza e influência, alguém pode julgar que reúne condições para superar o advento das frustrações, pois caprichosamente terá capital para comprar quem possa atender aos seus desejos. Também, pode se iludir, crendo que o dinheiro é o meio de satisfação e prazer, podendo alcançar a almejada felicidade.
Há pessoas como folhas secas a voar sem saber onde chegar, influenciadas pelo que vêem e pelo que sentem. A vida pode ser uma linda flor, mas suas pétalas se derramam pelo chão a cada estação. Assim, o desenho da felicidade anunciado no romantismo da novela  se apaga no fim de cada capítulo.
Para alguns em seu mundo perfeito  não pode faltar a bajulação e o elogio por mais reprovável que seja o seu comportamento. Nas asas do poder, a sensação de segurança encontra substância na quantidade de apoiadores, mesmo que inconstantes e interesseiros. O espelho transparente da crítica, por mais dolorosa que seja, mostra as nossas imperfeições e nos convida a banhar nas águas límpidas da reflexão das motivações dos nossos atos.
A imperfeição do mundo se manifesta nos contrastes das motivações humanas que vão além da situação posicional de alguém. As concepções de poder e de razão se manifesta na classificação das pessoas: ricos e pobres, intelectuais e leigos, aristocratas e servos, dentre outros exemplos. Daí pode-se inferir como surgiu a ideia de eugenia, de raça superior e as concepções do homem perfeito.
Os duelos de palavras são manifestações inconscientes do desejo que o mundo atenda as nossas expectativas. Nesse caso, as pessoas seriam perfeitas e não iriam cometer falhas, erros, pecados ou desatinos reprováveis aos nossos olhos. Talvez, essa seja a forma mais confortável de nos abrigarmos na caverna da indiferença dos nossos próprios tropeços. A trave que nos cega foi construída por nós para proteger a nossa própria verdade, sagrada na convicção de que não somos mais excelentes.
A roda que gira o mundo está manchada do sangue dos mártires que defendiam suas verdades até as últimas conseqüências. A honra dos mártires não se degeneraliza, pois essas vítimas da intolerância são testemunha da história contra aqueles que mão admitiam a coexistência de ideias divergentes, de pessoas diferentes à frente do seu tempo.
As frustrações são inerentes ao ser humano, pois são resultantes dessas expectativas não atendidas. Nos relacionamentos pessoais e profissionais podemos ser induzidos ao erro de não poderemos nos decepcionar com alguém que estamos intimamente ligados. Mesmo conscientes da imperfeição humana, cremos no ideal de que há relações perfeitas até mesmos nos níveis mais íntimos de amizade. Contudo, aprendi que se conhecermos as imperfeições da cada pessoa, poderemos compreendê-la, respeitar suas limitações e não teremos ocasião para reclamar da imperfeição. Ou seja, só podemos reclamar decepção daquilo que não conhecemos e não estávamos preparados para conviver em um momento oportuno. Por exemplo, se você convive com alguém que é chocalheiro (“sem papas na língua”) não será novidade se ele em determinado momento for traído pelos defeitos da sua natureza. Então, qual o motivo para você se decepcionar com ele, se sabia de suas deficiências. O máximo é ter uma ira momentânea, porém estéril em suas conseqüências.
A BUSCA DA FELICIDADE
A busca da felicidade rima com os anseios de um mundo perfeito, que não será encontrada enquanto perdurar o vazio existencial do ser humano. É como uma casa bela por fora, adornada com móveis por dentro, porém sem moradores. Torna-se uma morada dos sentimentos que se comunicam com imprecisão com a razão, dando arbítrio para a vontade se manifestar ao sabor das paixões. Segundo o filósofo italiano Remo Bodei, as paixões podem ser benignas ou perigosas, dependendo da lógica e do delírio de cada um.  
Tenho aprendido que o caminho da perfeição está perfumado pelas flores do amor. Por isto, as sábias epístolas paulinas apontam o vínculo da perfeição enraizado na rocha firme do amor. Por isto, acredito que o amor é o remédio sem contra indicações para solucionar os males relacionados ao ciúme, à inveja e a soberba, pois o amor é benigno.
O amor embeleza amizade e supera todos os defeitos, tornando cada pessoa um sacerdote na tarefa de perfumar o ambiente pela satisfação da presença do outro. As palavras tornam-se instrumentos na construção de relações sólidas, edificadas com pedras vivas da confiança e da lealdade. Acredito que o amor é uma floresta que ajuda a despoluir os nossos corações do mal.
Por isto, gosto da concepção teológica do “Reino dos Céus” como uma experiência inerente a transformação do caráter do ser humano, pela inauguração de uma nova ética, no respeito ao próximo, inspirada nas palavras de Cristo. A ética do Sermão da Montanha é um divisor de águas entre a tradição histórica de disputas mesquinhas e o ecossistema benigno da fraternidade. O mundo perfeito é fraterno tal como a comunidade apostólica onde todos tinham tudo em comum e celebravam as festas da caridade com alegria e simplicidade.
A felicidade é simples e não precisa do enfeite da riqueza, da fama e do poder. Ela não tem dono, pois sua existência e morada são eternas. É um bem tão precioso que ninguém pode reclamar propriedade exclusiva, porque é contagiosa, em sua influência, e desejável pelo ser humano. A tristeza é o hospede mais indesejável do coração humano e flerta com a morte. Por outro lado, a felicidade anuncia a abertura das portas da alma para a vida.
CONCLUSÃO
Um mundo perfeito pressupõe a existência de pessoas perfeitas, que não podem falhar nem decepcionar alguém. São pessoas que existem no jardim do coração, compartilhadas no universo do desejo, do prazer e da complacência da satisfação egocêntrica, mesquinha e fratricida. Mas do ponto de diversidade do gênero humano, cada ser humano é imperfeito para que ao se completar com outra pessoa possa superar as suas limitações.
REFERÊNCIAS
BOTTON, Alain de. Filosofia um guia para a felicidade. Série de documentários para a TV, 2009.
RUSSO, Renato. Perfeição in Descobrimento do Brasil. Gravadora EMI, 1993.
CONEXÃO ROBERTO D’AVILA. Entrevista com o filósofo Remo Bodei. TVE Brasil, 07 de março de 2007.

terça-feira, 31 de maio de 2011

VOU CONTINUAR

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
A vida nos ensina nas diversas circunstâncias, inclusive nas intempéries que nos fragilizam, mas, por outro lado, nos torna sensíveis aos clamores da alma. Os momentos de melancolia da alma são propícios a introspecção necessária para pensar a vida, as atitudes, os acertos e erros. Aliás, descobri que os meus momentos mais criativos acontecem nos momentos de melancolia, quando os pensamentos afloram como a naturalidade do orvalho para brotar poesia em brasa.
Por isto, entendo porque os poetas como Alvarez de Azevedo, Casemiro de Abreu e Fernando Pessoa eram melancólicos e, ao mesmo tempo, iluminavam as pessoas com a beleza criativa da poesia, falando sobre a natureza, o amor e sobre o dilema da vida: a morte. A transitoriedade da vida era calculada pelo ideal de um mundo sem tristeza, sem a aflição do espírito. O engodo desses poetas era destruir o corpo por meio de uma vida boêmia, pois estavam embriagados pela desesperança do mundo presente, abraçando o mal do século para flertar com a morte.

A COMOVISÃO DA VIDA E DA MORTE
Os poetas românticos morreram jovens com idade variável de 21 e 25 anos. Porém, hoje flertar com a morte não está ligado ao ideal do romantismo do século VIII, que foi movimento associado à filosofia, a poesia, música, teatro e literatura. Atualmente, há jovens que se expõem a riscos devido a banalização da vida, embriagados pelo entretenimento suicida das bebidas, das drogas e de ilicitudes. Aliás, são realidades de fuga para o tédio, para a vida familiar opressora ou um meio de curiosidade para fazer uma viagem eufórica e suicida sem volta.
Lembro dos ensinos de História sobre a escravatura no Brasil e, na minha tristeza, reflito que nenhum regime opressor se perpetuará por muito tempo, pois o espírito humano que é livre sempre clamará contra a escravidão. Mas, também, penso que as algemas psicológicas persistem quando há pessoas que não conseguem se libertar de diferentes vícios e complexos. Estamos convivendo com pessoas zumbis, escravizadas pelas drogas, sem poder de decisão, sem julgamento moral sobre seus impulsos, sem afeto natural e respeito a pais e mães. Por outro lado, vejo a proliferação das fobias, da depressão e dos traumas pelas tragédias e fatalidades. As pessoas estão encarceradas em seus palácios e residências, em seus muros e grades, iludidas pela sensação de segurança na polícia e na segurança particular.
Em meio ao caos urbano, assistimos passivamente a decadência da poesia e vimos ascender à crueza da guerra contra a criminalidade. Ao invés das histórias familiares e dos contos literários, as crianças vêem as estatísticas do crime na televisão e proliferação do evangelho do medo, de uma geração sem alma, incutindo o respeito ao bandido e ao menor delinquente que nos abordar.
Percebo que as discussões ganharam alcance social, porém individualmente é egocêntrico, apesar de apregoar o bem coletivo. Assim, a barca dos insatisfeitos é revestida do realismo fantástico de busca por uma sociedade igualitária, com respeito mútuo, etc. Só não entendo por que, ao cessar a revolta, cada um volta ao nicho e a rotina, ficando os chavões guardados para o revival. Parece que as reivindicações são pedras lançadas ao lago cujos sons e ondas são respostas mesquinhas que agradam os expectadores.
Outro ponto de confronto é a beleza da amizade que e prejudicada por relações de interesse. Não basta ser amigo, até a aproximação afetuosa com determinadas pessoas passou a ser estigmatizada. Ou seja, deve amar a um e aborrecer a outro, mesmo que não haja motivo para tal feito.
Contudo, vou continuar acreditando na honestidade do riso, apregoada pelo educador Rubem Alves, pois ele convida ao exercício da sensibilidade pela percepção da natureza e da simplicidade das relações humanas. Desta forma, exorta que o riso é saudável e poético porque a beleza está em todo lugar, desde que os olhos da alma estejam abertos para apreender o mundo com sua cosmovisão.

VOU CONTINUAR NAS MINHAS CONVICÇÕES
Por isto, vou continuar na mesmice das minhas convicções sobre a vida, sustentada nessa crença, nessa cosmovisão, apesar dos reclames do realismo estéril da virtude e da beleza da graça. Apesar da pregação sobre a laicidade, firmo a minha convicção teológica sobre a existência de Yavé, sobre uma vida de propósito, de uma existência predestinada. Acredito na vida como uma história escrita no sacrifício diário de suor e sangue, na aflição, na ansiedade, na dor, mas, sobretudo, na alegria, no amor e na esperança.
Vou continuar a viver na fé que sustenta essa força para erguer a espada contra todos os males que afligem o espírito. A fé é uma arma contra a discórdia e o desamor, pois a fé é a filha mais velha do amor. A fidelidade como gomo do amor tem o mesmo sabor da mansidão, da alegria, da paciência e do domínio próprio. Assim, a busca da perfeição é um ideal a ser perseguido como utopia festiva e cada degrau deve ser comemorado com festa.
Vou continuar a viver indiferente da opinião dominante, expressar minhas próprias idéias mesmo que seja censurado por alguns. Prefiro ser autêntico a ser politicamente correto e fazer da minha sinceridade o retrato do meu caráter, fugindo do jogo de cena costumeiramente adotado pela política da boa convivência.
Vou continuar a verbalizar o meu compromisso ao direito ao respeito ao próximo, em suas vertentes da vontade, da identidade, do ideal e das ações. Toda crítica a comportamentos e atitudes estão firmadas na livre expressão do pensamento, sem afrontar a dignidade de alguém. Como Nelson Mandela prego o respeito à integridade do maior adversário que possa defrontar. A denúncia do erro é impessoal; ou seja, não privilegia pessoas e agride outras, é um compromisso com a verdade e o bem-estar do próximo.
Vou continuar a vivenciar a felicidade de ouvir a música de Deus nos momentos solitários, fazer auto-estame das motivações para verificar se há algum dano a integridade, se em algum lance fui traído pelo orgulho e pela autoconfiança. Claro, a autoconfiança é causa da queda de muitos que se julgavam intocáveis, poderosos, inatingíveis.
Vou continuar a não confiar no poder dos homens como se por meio deles se alcançar algum favor. Passei a acreditar no meu potencial e a honrar o compromisso que fiz em minhas entranhas de ser fiel às minhas convicções, de fazer do trabalho uma profissão de fé. Não ter o trabalho como um fim em si mesmo, mas considerar um altar de sacrifício devocional e, desta forma, as convenções laborais são apêndices de um ideal mais elevado. Por isto, a tristeza do cansaço é parte do sacrifício devocional e não se compara a gloria da alegria da profissão de fé.
CONCLUSÃO
A poesia é um retrato pintado da realidade pelo olhar de quem sonha. Até a tristeza se converte em beleza para quem vê o mundo pelos olhos da alma. Por isto, acredito no carpie dien: “viver intensamente a vida como se estivesse colher um fruto saboroso a cada dia”.
Apesar da incerteza de hoje e de amanhã, acredito que o fruto de amanhã será mais saboroso, pois a experiência traz consigo a sabedoria para discernir as armadilhas do caminho. Assim, não serei guiado pelo impulso, pois trago em meu corpo as marcas dos acoites dos erros cometido em vida. Os fracassos são legados que nos ensinam a não repetir os mesmos erros e o convite a escrever uma nova história.
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem, O céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas. São Paulo: Versus Editora, 2008.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

AS CONTRADIÇÕES DO POLITICAMENTE CORRETO

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes

O Brasil tem a sua diversidade racial, religiosa e cultural, entre outras, como uma das marcas da nação. Neste sentido, observamos diferentes linguagens, modos de falar e costumes em cada região deste país, que tem dimensões continentais. A beleza da miscigenação mostra a variedade da combinação de raças, formando uma só: o mestiço. Assim, as diferenças dão o tom do colorido no encontro da multidão nas feiras livres, nos shows, nas praias e nos templos; ou seja, somos um só: o povo brasileiro. Por isto, a riqueza cultural do nosso pais está na sua construção etnológica.
Devido a diversidade, não somos iguais, somos diferentes. A diferença contraria a lógica da comparação, pois não existe uma pessoa que seja mais cidadã que a outra ou mais importante. Logo, as formas de comparação: ricos e pobres, cultos e indoutos, brancos e negros, nacional ou estrangeiro são práticas depreciativas que vão contra a ideia de comunidade formada pelo Criador. Por isto, as formações de tribos urbanas e de aristocratas induzem à crença equivocada de que há pessoas inferiores. Ou seja, algumas pessoas teriam sido agraciadas pelos deuses com valiosos dons que lhes tornariam especiais, enquanto que outras seriam classes inferiores: servos. Há algum tempo, convencionou-se que os inteligentes cuidariam do trabalho intelectual e os ignorantes, do trabalho braçal. Dessa lógica, surge a crença de que o trabalho operário é inferior ao do intelectual. Assim, o esnobismo é uma prática fundamentada nessa crença.
Instituída a crença de que há pessoas especiais, surge a proclamação doutrinária da ideologia de domínio. Claro, a ideia platônica é reproduzir nas consciências incautas que os inteligentes (aristocratas) devem exercer o poder sobre os ignorantes. Um dos exemplos é a preferência dos ilustrados nobres pelos cursos superiores com maior valor agregado, pois a licenciaturas foram estigmatizadas como cursos proletários. Posto isto, a ideia exerce um poder de sedução e de convencimento como uma verdade que não se pode contestada pelo seu discipulado nas academias onde ela é multiplicada.

O objetivo da prática da repetição é alcançar maior número de pessoas e produzir a hegemonia da ideia, sufocando a resistência da contestação. Dessa forma, a contestação passa a ser incômoda até se tornar ofensiva e marginal para a maioria embriagada pela convicção. Aliás, a reprodução mecânica elimina o senso crítico, pois a coerção moral está presente nas melhores escolas e universidades.
Lembro-me que, desde o primeiro ano como universitário, foi induzido a padronização do pensamento marxista pelos professores. Para os mestres da academia o pensamento para ser considerado crítico deveria está fundamentado na dialética marxista, enquanto que as demais referências eram relevadas a citações aligeiradas. Por isto, certa vez, censurei a professora como a seguinte pergunta:

“desde que entrei aqui sinto manipulado a expressar os pensamentos marxistas dos professores. Será que somente os escritos inspirados em Karl Marx é crítico? Onde estão as outras referências? Elas também não críticas? Acho que não estou aprendendo, estou apenas repetindo uma forma de pensar.”

A turma derreteu em aplausos, porque nenhuma das colegas ousaria a tal pergunta. Algum tempo, depois, retornei a mesma universidade para participar de um Colóquio e percebi que nada havia mudado: a excelência do saber não passava de um arremedo de reproduções de pensamentos de esquerda. Para os professores tudo estava errado, a educação, o governo, mas não apresentavam nada de propositivo. Porém, em outro evento, organizado por dirigentes municipais, me foi concedida a oportunidade de conhecer os argumentos da avaliação institucional tanto criticada pelos docentes. Assim, pude comparar os dois olhares sobre o mesmo objeto e tirar as minhas próprias conclusões. Isto que é exercício do senso crítico, quando são lançadas as opções de análise e de julgamento.
A tentativa de padronização do pensamento ganha a dimensão de censura a outras formas de pensar por meio da doutrinação do politicamente correto. Aliás, há livros editados orientando o que deve ser falado, o que deve ser evitado, inclusive definindo conceitos, preconceitos e expressões inadequadas. Sobre isto, comentou o trapalhão Manfried Santana, o Dedé: “Depois do politicamente correto até o humor ficou sem graça”.
Quando a Constituição Federal expressa que é livre a manifestação do pensamento sendo vedado o anonimato, estava assegurando a diversidade do pensamento, valorizando os antagonismos e a divergência. Acredito que a divergência é matéria prima do elaborado  da síntese de ideias, por mais que absurda pareça ser, desde que não seja motivo para alguém se eximir das obrigações da lei. Quanto a divergência de idéias: o jeito de ser, de gostar, de sonhar e de viver, como já escrevi em um artigo sobre o direito da pessoa ao respeito, se materializa com evidente diálogo sobre a diversidade.
A liberdade de expressão é a célula mater da democracia, permitindo a coexistência de ideologias e estilos de vida e identidades de grupos sociais numerosos ou de minorias. Contudo, a supremacia de um grupo sobre os demais cria desigualdades. Anteriormente, essa supremacia era estabelecida por meio da força. Agora, é firmada por meio de leis de garantia de direitos e punições. Por isto, há grande disputa jurídica entre segmentos, pois a lei passa a ser uma arma nas mãos de uma justiça envelhecida, lenta, cega, surda, manca e que cochila nos braços de hábeis advogados com sua dezena de recursos.
Essa é a razão porque, admiro a liberdade de expressão da democracia americana, pois lá é possível queimar a bandeira e se permite a existência de grupos ideológicos que seriam pária para a nossa sociedade. Como exemplo, a manifestação do pensamento do reverendo Terry Jones não é considerada crime, mesmo que seja odioso no lado oriental do mundo. Aqui no Brasil seria crime por ofender valores religiosos.
Apesar de não haver uma definição clara do que é racismo e homofobia, qualquer palavra ociosa no momento de raiva pode ser indício de um crime. Nesse paradoxo, em algumas delegacias, a denúncia de racismo acaba sendo desqualificada como ofensa moral, devido a sua natureza subjetiva. Por outro lado, até mesmo a crítica ao homossexualismo passa a ser considerado por determinados grupos como homofobia. Dada a ampla e confusa definição, surge a barulhenta reivindicação por leis específicas de criminalização da critica moral e religiosa. Aliás, a ditadura do politicamente correto pretende legitimar-se nos livros e nos regulamentos, colocando em xeque a autenticidade do ser humano. Não é importa mais o livre tribunal da alma, mas a inculcação externa de valores; ou seja, tem que obedecer e respeitar por força da lei mesmo que não queira.
Se a apregoada discriminação de um grupo, ascendente na mídia, influente e presente em todas as esferas de poder é verdadeira, imagino que não seria importante então a exploração de menores, de mulheres, de idosos e a discriminação de negros, nordestinos, estrangeiros (bolivianos e peruanos) que morrem de maus-tratos, violência sexual e abandono. Se isso não é discriminação e violência, porque o enfoque é dado a um só grupo? Não são todos cidadãos? Nesse caso, sou contra a ideologia de privilegiar políticas exclusivas para as chamadas “minorias sexuais”, pois venda os olhares para os demais grupos que realmente sofrem violência neste país.
A padronização do pensamento tem um antagonismo a proposta moral e religiosa. O antagonismo a proposta moral visa tornar consensualmente aceito aquilo que é rejeitado pela maioria, sobre o pretexto da laicidade do Estado. Por outro, o antagonismo a proposta religiosa traz uma ideia de aniquilação de resistência dos grupos religiosos contrários a determinados comportamentos. Caso seja concluído o intento, colocam-se sobre contradição legal os sacramentos religiosos, aniquilando a ortodoxia do pensamento sobre a família e a educação dos filhos.
REFERÊNCIAS
Ao invés de referência convido todos refletir sobre o conceito de ideologia em:
DEMO, Pedro. Introdução à metodologia científica. São Paulo: Atica, 1980.

quarta-feira, 23 de março de 2011

COMPANHEIRISMO E AMIZADE

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Tenho por certo que o ser humano tem gravado em seu DNA o viver em comunidade.  No contexto da ecologia, comunidade significa espécies diferentes com hábitos semelhantes que compartilham o mesmo espaço e alimento, de forma harmônica. Igualmente, um grupo de pessoas identifica ao morar em um bairro ter modus vivendi comum característico de uma comunidade.  Tal percepção resulta de uma articulação pela melhoria das condições de vida, especialmente quando se encontram em reunião da associação de moradores. Nem todos são amigos, mas identificam interesses e se somam por meio da divisão de tarefas. Nesse sentido, lembro do conceito positivista da “solidariedade orgânica” pela idéia de parcela de colaboração para se formar um todo. Ou seja, a força da comunidade está na soma da divisão comprometida das partes em busca de um objetivo comum.
A visibilibilidade de cada pessoa torna-se possível pelo horizonte das relações. Não se trata apenas de reunião, mas de momentos de apresentação de identidades: conhecer e se fazer conhecido. É a oportunidade para o diálogo individual ou em grupo no momento preliminar ou posterior à assembléia da comunidade. Não se trata apenas da revelação de nomes, endereços e sondagens, mas de um ponto de partida para se criar referências de diferenças, qualidades e potenciais de cada pessoa que conhecemos. Por isto, a curiosidade incita a aproximação de pessoas ou induz ao temor para o afastamento. Claro, o medo do desconhecido suscita preconceitos contra pessoas pela imagem distorcida ou devido a crença da supremacia de um sobre o outro.
A FORMA DA APROXIMAÇÃO
Os momentos de aproximação (eventos, reuniões, cerimônias) possibilitam conhecer várias pessoas. Por isto, passamos a admirar algumas pessoas mesmo que sem ter a oportunidade de dirigir-lhes uma palavra sequer, pois são personalidades que construíram o reconhecimento notório e devido a fama tornaram-se inacessíveis. Algumas dessas personalidades invocam um culto idólatra com os declarados súditos e, incoerentemente, determinam o afastamento dos seus adoradores. Contudo, quero admirar pessoas que tenham um legado de orientação para vida, que inspirem as pessoas. Cito o exemplo de Martin Luther King Jr. (1929 – 1968), Madre Tereza de Calcutá (1919 – 1997), Nelson Mandela e pessoas anônimas com histórico de vida rico em exemplo de caráter, superação e altruísmo. Por isto, quero estar próximo de pessoas que possam me enriquecer com a sua influência de idoneidade de caráter, sabedoria, exemplo e superação. Aliás, os bons exemplos inspiram as pessoas. Ou seja, inspirar significar capturar o ar puro do exterior e renovar as energias da vida.  Metaforicamente, quando uma pessoa inspira alguém significa dizer que seu exemplo de vida é capturado por outra pessoa, dando-lhe um ideal de vida.
Por causa dos ensejos da aproximação temos muitos conhecidos que revemos acidentalmente na rua e em outros locais (in)oportunos. Desses conhecidos, às vezes não lembramos sequer o nome; somente a fisionomia, a voz e os encontros de diálogos casuais. Nesse arremedo, deparamos com vizinhos das casas mais distantes, colegas de infância, de escola que se surpreendem quando não lembramos os seus nomes e dos casos significativos para as suas vidas. Julgavam ser tão próximos e merecedores de alguma deferência e não conseguem disfarçar a leve frustração. Também, há aqueles com alegria superficial que pressupõem a existência de uma amizade, apesar de anos de afastamento. Lembram dos momentos, dos incidentes, mas a nossa memória é incipiente para lembrar-se dessas situações. Por isto, tenho a crença de que há vários níveis de relacionamentos entre pessoas.
Acredito que todas as pessoas podem ser conhecidas por mim de forma genérica ou específica. Posso me aproximar de todas as pessoas e com elas conversar, tem relação de interesse profissional ou pessoal. O tratamento cordial é propício para todos os conhecidos próximos ou distantes. Para tanto, é necessário o respeito independente da condição social, ideologia e estilo de vida. Claro, posso conhecer pessoas com estilo de vida diferente do meu jeito de ser e respeitar as diferenças, sem imposições e preconceito.
É impressionante como nos sensibilizamos por pessoas conhecidas e estamos propensas a ajudá-las, mesmo que elas não façam parte do nosso círculo de amizade. Também, podemos ser ajudados por pessoas conhecidas nos momentos da adversidade, pois a compreensão de que é meu próximo sobrepõe a solidariedade a pessoas do nosso círculo íntimo. Isto porque a solidariedade altruísta é obrigação moral de todo ser humano, independente das crenças, ideologias e posição social. Pressupõe o argumento da reciprocidade, pois no momento oportunidade podemos ser ajudados por desconhecidos sensíveis a urgência da nossa necessidade.
QUANDO NASCE A AMIZADE
Devemos considerar que temos o direito de selecionar pessoas para serem os nossos amigos, apesar delas não serem perfeitas. Por exemplo, todos os meus amigos têm algum defeito perceptível, mas as suas qualidades cobrem uma multidão de pecados. Quero dizer, citando o Dr. Mike Murdock, que a amizade é uma forma pela qual premiamos a lealdade e a confiança em alguém. Ou seja, reconhecemos a lealdade em alguém e passamos a confiar nele, dar-lhe a oportunidade de confidenciar segredos, solicitar opinião ou conselhos.
Há quem diga que quem ama, confia e a confiança tem como capital a lealdade. A confiança é construída com o tempo por meio de sucessivas provas e não surge gratuitamente por imposição ou vontade de outra pessoa. A segurança da confiança conquistada leva a desarmar os ânimos e pactuar interesses e aproximação. Para a aproximação, há condições genéricas a serem observadas como estilos de vida semelhantes porque grandes diferenças não sustentam uma amizade duradoura.
A amizade pressupõe igualdade e não a supremacia de uma pessoa sobre a outra. Claro, na amizade não há opressão nem a ascendência de pensamentos de uma liderança no grupo de amigos, pois todos são livres. Por isto, a amizade está viva no sentimento de fraternidade de um grupo de amigos que se consideram irmãos. Logo, é verdadeiro o provérbio bíblico que reconhece a existência de amigos mais chegados que um irmão, talvez por causa dos exemplos de defesa ardorosa de amigos e pelo socorro deste em meio às adversidades. Isto nem compara a deturpada amizade interesseira, repleta de bajulação, calcada no comer, beber e folgar. Quanto a essa falsa amizade, tenho conhecimento de casos de abandono de amigos de pessoas bem sucedidas que fracassaram na vida e nos empreendimentos. Agora, os expropriados estão sozinhos em sua cela, vivendo de favores de desconhecidos.
O verdadeiro amigo não trai o outro, não sente inveja nem busca os seus próprios interesses acima de qualquer escrúpulo. Como exemplo, temos Jesus que tinha 12 amigos e foi traído por um deles. Isto mostra que, em algum momento, podemos nos frustrar com a atitude de pessoas que julgávamos serem nossos amigos e a amizade poderá ser rompida temporariamente ou para sempre. Nesse caso, entendo que até mesmo a amizade pode ser seletiva, pois, dos 12 amigos, Jesus tinham 03 que faziam parte do círculo intimo e com eles tinha cumplicidade e compartilhava companhia em momentos específicos.
Convém alertar quanto ao extremo de declarar não ter nenhum amigo, pois não confia em ninguém, que só confia em si mesmo. Apesar das frustrações passadas, das traições, sempre haverá pessoas sinceras, leais e de ilibado caráter. A amizade é uma necessidade lógica da vida em sociedade, pois ninguém é feliz sozinho e precisa se completar com alguém. A parceria, o companheirismo e a reciprocidade mostram como a existência assemelha a uma estrada: na nossa frente estão as pessoas que admiramos e desejamos imitar, atrás estão aquelas que nos admiram, na via oposta tem alguém com diferenças do nosso estilo de vida e ideologias, etc. Contudo, devemos respeitar a leis de trânsito da existência para atropelar ou se ferir em acidentes provocados pelos maus entendidos e pela não observância do direito do outro ao respeito.
O certo é que o homem pode congratular-se de ter muitos amigos, porém deve selecionar alguns deles para fazer parte do círculo íntimo. Claro, nem todos poderão visitar sua casa sem aviso prévio, telefonar a qualquer hora ou confiar-lhes segredos. Alguns amigos são tão temerários que se souberem de determinadas coisas podem causar uma tragédia familiar ou colocar você em dificuldades.
O amigo íntimo tem a liberdade de conhecer um pouco mais da sua vida e você pode lhe conceder a liberdade de dizer a verdade com frases abertas, sem ser enxerido. Ao contrário, há pessoas que são apenas “conhecidos”, porém se julgam no direito de entrar na sua vida pessoal sem ser convidado e te afrontam com palavras. O amigo íntimo sabe como entrar na sua vida e sair sem ser inconveniente, sem agredir a sua vaidade ou ferir a sua dignidade. Ele sabe o momento propício de conversar calmamente com sinceridade e orientar sobre os seus erros e conduzi-lo ao caminho certo. O verdadeiro amigo não encobre erros, fazendo vista grossa com se o bem-estar do outro lhe fosse alheio, mas não é repulsivo com repreensões descabidas. Por outro lado, o amigo íntimo sabe elogiar, incentivar e se orgulha dos seus progressos, sem ponta de inveja, ressentimentos ou sentimento de autocomiseração.
Considero que o entendimento da verdadeira amizade é ponto de partida para um relacionamento mais profundo: o relacionamento matrimonial. É no matrimônio que se desenvolve a intimidade no seu sentido físico, emocional e espiritual. Por isto, o casamento tem um significado tão teológico que no cristianismo é considerado um sacramento. A intimidade não se resume a fricção mecânica do sexo, mas na comunhão de sentimento, interesses e motivações que torna a duplicidade dos gêneros uma só carne.
O relacionamento íntimo verdadeiro cancela todas as desculpas da incompatibilidade de gêneros. Aliás, a humanidade é composta de um ser: o homem em dois modelos (gêneros): macho e fêmea. Nesse caso, o corpo é a única diferença entre um homem e a mulher, pois são ambos um mesmo com alma com as seguintes faculdades: sentimentos, vontade e inteligência. As demais convenções foram estabelecidas pelas definições social e culturais da visão de gênero. Assim, ambos estão propensos a amar, criar e sonhar. O relacionamento íntimo considera a unidade dessas faculdades da alma para o ser humano se eternizar na família, por meio dos seus descendentes.
CONCLUSÃO
Assim, resumo que todos podem ser meus conhecidos, muitos podem ser meus amigos, alguns podem ser amigos íntimos e com alguém do sexo oposto pode-se desenvolver um relacionamento intimo monogâmico, por meio do casamento, para se eternizar por meio dos descendentes.
REFERÊNCIAS:
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.
BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução Rita Vynagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FELICIDADE E SATISFAÇÃO

Felicidade - Ai vou eu
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Recentemente fui abordado com a seguinte pergunta: “você feliz?” A partir da resposta afirmativa, surgiu a segunda pergunta: “o que é felicidade?” Nesse momento, afloraram minhas percepções de que havia um anseio por uma resposta objetiva, purificada de qualquer pretexto de subjetividade ou de relação particular. Aliás, a realidade do sentimento é muito particular, pois a alma é invisível e seu reflexo é visto por meio de palavras ou reações do ser humano. Por isto, a caixa preta da alma humana recebe vários nomes: inconsciente, id, subconsciente, coração, como uma ideia de estar caminhando em um terreno minado.
1. O CAMINHO DA FELICIDADE
Os enigmas da existência residem nas perguntas sobre a origem do ser humano, sua identicidade, possibilidade, propósito e destino. Claro, são perguntas difíceis de serem respondidas; por isto, os mistérios da ciência não se esgotam. Surge a procura de respostas até, se possível, em outros planetas. É consenso que o método da razão e da emperia não traduzem o senso de satisfação por um conceito de felicidade.
O caminho para se chegar à definição de felicidade passa pela solução do problema da resposta sobre a identidade do ser humano. Ou seja, a identificação de um propósito para a existência, a partir da transcendência divina, leva ao entendimento do homem como um ser criado. Isto só se encontra na transcendência, na faculdade da fé e da esperança e na crença na imortalidade da alma. Assim, surge um sistema de crenças no Deus pessoal, condescendente, que se relaciona intra e pessoalmente com seus adoradores. Por consequência se constitui em princípios para a satisfação da pessoa no seu conteúdo material e imaterial. Tal crença foi inaugurada no Judaísmo e perpetuada no Cristianismo.
Podemos inferir que a lei universal da felicidade encontra-se no Sermão da Montanha. Sua profundidade moral e espiritual inspirou o líder Mahatma Karamchand Gandhi (1869 – 1948) a se expressar dessa forma: Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse O SERMÃO DA MONTANHA, nada estaria perdido.” A definição da felicidade se encontra na virtude, valores morais e espirituais elevados, como: a humildade, a mansidão, a pureza de coração, o exemplo, o desprezo ao amor às riquezas e às primeiras posições, mostrando que o caráter é essencial enquanto que a reputação é transitória e superficial.
Vivemos em um mundo em que está em voga a cultura da emoção, sendo valorizado “o sentir-se bem”. Nessa sentido a felicidade tem uma definição imprecisa como: é uma gama de emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento ou satisfação até a alegria intensa ou júbilo. Por isto, a busca por emoções, adrenalina e fuga da realidade vão desde os esportes radicais ao consumo de drogas. Também, as diversões são pretextos não para o entretenimento, mas para conter uma aflição de espírito: um vazio existencial.
No enredo da cultura da emoção até o amor é banalizado, sendo capitalizado como objeto descartável, tendo o significado do flerte e do ficar. Assim, o sexo é um momento de gratificação pessoal, individualista, mesquinho, ausente de qualquer sentimento de amor ou de intimidade. Aliás, namorar é o começo do acasalamento, sendo o casamento um mero contrato social, que pode ser desfeito até a primeira prova da adversidade de gêneros.
O conceito de felicidade tem conotações capitalistas na representação social imposta pelos meios de comunicação. Por isto, é divulgada uma imagem de um homem feliz, milionário em uma mansão, com bebidas, carros importados e vida dissoluta. Outra imagem plantada é que a fama traz felicidade. Porém, como explicar os conflitos de gente rica e famosa com drogas, corrupção, separações e até mesmo suicídio?
A inversão de valores implica a confusão dos conceitos de felicidade e deturpa os sonhos. O rico tem o pesadelo de não querer ficar pobre e teme pela sua segurança, pois qualquer delinqüente pode minar o seu tesouro. Mesmo assim, um dos aspectos do capitalismo é a universalização do sonho de ter, principalmente dos mais pobres, porque a riqueza se concentra nas mãos de poucos. Talvez, nas aspirações de poder e na aquisição de capital esteja a gênese da violência e de outros crimes.
2. MINHA DEFINIÇÃO DE FELICIDADE
Minha definição de felicidade está presente na paz interna que o ser humano deve buscar. Isto conduz a sensação de quietude e bem estar pessoal. Logo não é uma explosão momentânea de alegria e ausência de momentos de tristeza. Aliás, a tristeza tem uma função compadecente com o sofrimento do próximo, visando a melhoria do seu estado de espírito e auxílio em suas tribulações. Por isto, doar-se pelo próximo produz satisfação como um orvalho que desce sobre a terra e ajudar as plantas a produzirem os seus frutos. Não me refiro a uma tristeza produzida pela ansiedade e que pode levar à depressão. Minha definição concorda com o apóstolo Paulo que fala de uma tristeza que conduz ao resgate da alma e enquanto que a outra produz morte.
O meu conceito de felicidade não exclui a possibilidade do sofrimento. Por isto, relato a experiência de conhecer uma pessoa que sofreu derrame, ficou na cadeira de rodas e sensibilizava as pessoas com sua autoestima, mensagens de fé, de otimismo e explosão de alegria. Sua imobilidade do corpo não paralisou as faculdades do espírito, transmitindo vida quando seu estado de saúde significava expectativa de morte. Nesse caso, a tribulação pode ser entendida como um ensino da perseverança que produz experiência e esperança. Claro, quando se tem esperança há vida e sonhos e não há rendição, pois quem se alimenta de esperança alcança vida eterna.
A felicidade está relacionada ao sistema de crenças que orienta o estilo de vida da pessoa. Ninguém vive a parte do seu sistema de crenças, pois, de outro modo, vaga orientado por qualquer vento de doutrina, sem direção. O sistema de crenças possibilita a visibilidade do propósito da existência humana, suas potencialidades e destino. Por isto, o cristianismo não existiria se não houvesse um propósito que toca de forma tão significativa nas expectativas humanas de vida eterna. Claro, o propósito é mais importante do que a existência, porque é anterior a esta. O entendimento do propósito leva a mudança da cultura do ter pela do ser. Ou seja, a essência humana é mais importante do que as motivações mais mesquinhas do ego.
Outra questão é que a felicidade é um bem tão valioso que deve ser compartilhado. A minha felicidade deve repartida com o meu próximo, quer ser por meio de valores morais, exemplos e lições de vida. A forma mais potente de satisfação do próximo é a solidariedade, principalmente em suas aflições. A solidariedade alivia a dor e possibilita sentimento de significância ao próximo irradiando alegria. Por consequência, a solidariedade produz reconhecimento e torna o doador recompensado com mais felicidade.
Infelizmente, há a ingratidão. São pessoas que não reconhecem o bem recebido e, na primeira intempérie, difamam aquele que lhe ajudou nos momentos difíceis. O Dr. Mike Murdock define Ingratidão como “investimento em pessoas erradas”. Contudo, tal situação serve de alerta para fazer o bem a todos, sabendo que até mesmo Jesus recebeu a ingratidão de nove leprosos que foram curados.
CONCLUSÃO
Em suma felicidade é o grande desejo da humanidade, mas é um bem espiritual não se encontra na exterioridade das riquezas e do acúmulo de bens. Compete ao ser humano descobri-la na transcendência de um Deus pessoal, na renovação do entendimento, transformando-se em pessoa revestida de propósito.

REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura do livro
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.
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