terça-feira, 20 de setembro de 2016

EU TENHO FÉ E ESPERANÇA

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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Diante das circunstâncias, encontro renovação do espírito na esperança, considerando que adversidades foram vencidas com fé e perseverança. Apesar de todas as implicações psicológicas, percebo que o caráter é forjado nos momentos de pressão e adversidade.
O ECOSSISTEMA DOS SONHOS
Acordar bem cedo é como desfrutar da experiência da ressurreição do corpo que se entrega a fraqueza do cansaço para desfrutar da renovação da vida no amanhecer. Quando o corpo repousa das energias gastas no dia-a-dia, temos a sensação de que a alma caminha em direção ao universo fantástico dos sonhos à procura da fonte da vitalidade no afã de encontrar a imortalidade.
A partir daí surgiu a parábola do sono para ilustrar a morte e o renascer da esperança de uma nova vida. Isto porque o homem se recusa a aceitar a morte como capítulo final da vida e reconhece que a essência imaterial do ser humano está revestida da imortalidade. Essa essência imaterial é entendida como alma.
Também, acredito que a mente encontra no ecossistema dos sonhos: ideias, vitalidade e esperança. O ecossistema dos sonhos é tão fantástico que, na maioria das vezes, esquecemos as imagens dada a liberdade de encontrar o verdadeiro EU isento de mecanismos de qualquer repressão. É como se o homem interior viajasse na exploração do mundo espiritual e não comunicasse a nossa consciência sua dimensão e significados devido a imaturidade da nossa mente para entender tamanha grandeza.
Alguém porventura argumentará que o sono tranquilo é a evidência de paz interior e de uma consciência livre. Dirá que o sonho é o jardim de delícias para aqueles que desfrutam da paz como companheira inseparável inclusive nos momentos mais difíceis da vida. Enquanto outros enfrentam o açoite dos pesadelos que vão de encontro dos seus medos e temores diante da culpa e do ressentimento de uma mente debilitada.
O sonho tem a razoabilidade na mente dos cientistas que a tratam como atividade mecânica do cérebro por meio reações químicas produzidas pelo organismo humano. Pensam que a emoção, a sensibilidade e múltiplas informações da memória encontram campos férteis no universo dos sonhos. Consideram as imagens dessa aventura mensagens do cérebro diante do bombardeio de informações recebidas cotidianamente que se manifestam em resposta ao temor ou ao desejo.
Algumas teorias tendem equivocar o impacto do espiritual para remeter todas as informações esquecidas ao termo mental inconsciente como se o sonho fosse resultado de reações químicas do cérebro impactados pela multiplicidade de informações que não conseguiu absorver empurrando-as para a despensa da alma. Invocam a influência dos desejos, dos medos e da culpa despertados no momento do sono por meio de cenas fantásticas.
Para o médico psiquiatra e psicanalista Augusto Cury, a memória não é seletiva quanto ao registro das informações que recebemos no dia-a-dia. Cada pensamento e emoção é registrado na memória automaticamente e não é descartado com o tempo. O problema não é a informação boa ou ruim que recebemos, mas a forma como a interpretamos e dela iremos utilizar para o proveito ou destruição da autoestima. Essa é a razão porque devemos cultivar pensamentos e emoções saudáveis para termos boas influências na autoestima, inteligência e tomada de decisão.
Especialistas no estudo da mente acreditam que no depósito da memória estão guardadas muitas informações não processadas pelo cérebro que retomam a consciência em forma de lembrança nos sonhos. Contudo, a relação da memória com a mente continua envolta em mistério, suscitando várias especulações e teorias.
A COMPLEXIDADE DA ALMA E A NATUREZA DA FÉ
Algumas vezes, somos impactados pela lembrança do sonho a ponto de entendê-la como uma comunicação divina de propósito e de acontecimentos futuros. Amparados na crença, buscamos explicação para os significados dos códigos e das imagens que nos foram apresentadas. Cremos na conexão divina, da revelação do desconhecido no sentido de entender o propósito das circunstâncias que nos serão apresentadas.
Embora o sono seja uma atividade mecânica, os sonhos trazem enigmas a serem desvendados com relação da dualidade do corpo e alma/espirito. A crença que o corpo é o tabernáculo da alma se mostra com nitidez quando a matéria repousa e o espírito apresenta sua condição de imaterialidade complexa.
Alguns pesquisadores ao dissertarem sobre a dualidade corpo e espírito, concluíram que a psique humana tem uma afinidade com Deus e está além dos limites da consciência. Aliás, a consciência é incapaz de conceber a dimensão da alma, pois o transcurso da alma quando o corpo está inerte será sempre desconhecido inclusive para as mentes mais brilhantes. Diante desse mistério, amparamos a crença de que a resposta se encontra no fundamento divino da existência da vida. Portanto, alma é a chama ou combustível da vida, pois sem ela o corpo seria um cadáver. Essa essência espiritual da alma abre janelas na mente para abrigar a fé com resposta à vida.
Nesse aspecto surge a teologia de que os olhos da alma são a fé e a esperança. A fé é a firme convicção da verdade que temos sem a exigência absoluta da prova de que seja verdade. A fé ocupa os espaços que a evidente existência da matéria não consegue preencher nem a sensorial lógica empirista pode explicar. Surge como alternativa para superar os limites estabelecidos pela lei da natureza e a superação da lógica racionalista.
Por contrariar a ética das possibilidades, a fé flerta com o impossível, proporcionando acontecimentos fora do comum que não reúnam argumentos para explicá-los.Então, acusamos o milagre amparados na crença do sobrenatural. Acreditamos que o milagre deixa de se apresentar nas circunstâncias do acaso e, pela perseverança da fé deixamo-nos envolver pela esperança.
A abstração da fé só consegue ser tocada pela necessidade da alma de se conectar com o divino. Ela apela para a natureza sobrenatural da alma para expressar a sede de imortalidade que nenhum ser humano conseguiu satisfazer com sua concepção carnal. Por isto, a fé testemunha a existência do favor divino antes da sua materialidade, amparada no fundamento da graça irresistível. Então a fé enfrenta no plano da consciência uma batalha intrépida para esmagar a dúvida e faz resplandecer a esperança no meio do caos.
Há de se conceber que a fé está amparada no conhecimento da verdade, isenta das comprovações sensoriais empiristas. As riquezas da tradição oral das concepções de fé dos antepassados foram reunidas no livro sagrado para transmitir o conhecimento, a verdade e a justiça de geração em geração. Não há como negar que as concepções moral e ética foram construídas no universo da fé no sentido de estabelecer valores humanos nas relações interpessoais. Faz-se a escola da vida na seara dos pensamentos, palavras e ações, apresentando doutrina moral na qual há consequência em cada decisão tomada à margem da sua crença.
Por ser uma virtude excelente atinge as faculdades da alma: emoções, inteligência e vontade. A fé é uma experiência repleta de fervor da emoção e mexe com as sensações humanas: ansiedade, tristeza, alegria. A fé é uma arma contra o medo, pois, apesar das adversidades que conspiram em favor das dúvidas, ela fortalece cada vez mais as convicções.
A fé é inteligente porque está amparada no sistema de pensamentos que existe desde os primórdios da humanidade: a religião. Alguns ideólogos quiseram desqualificar a fé ao conceituá-la como meio de fuga das pessoas ignorantes para se alienar diante dos problemas sociais e políticos que enfrentavam. Por isso, alguns agentes políticos, no afã de querer prevalecer sua ideologia marxista, impuseram estratégias para anular qualquer forma de teísmo e de crença. Contudo, vacilaram pois não conseguiram anular a necessidade do ser humano que de se conectar com o divino – anseio primitivo da alma que reclama por imortalidade.
A imortalidade surge da esperança por que a alternativa biológica dos seres de perpetuar-se por meio dos seus descendentes não satisfaz a sede de eternidade que reclama o espirito humano. O ciclo de vida comum a todas as pessoas é finito, realça a brevidade da vida com a seguinte reflexão:
 -  Nossa existência humana é breve. Nossos dias passam rapidamente como um conto ligeiro. Rubem Alves destacou que na percepção das crianças um dia inteiro é longo, mas para os adultos, as horas passam num momento, frustrando nossas expectativas. Logo, lamentamos como a idade avançou sem que antes pudéssemos realizar aquilo que havíamos intentado fazer e sentirmos satisfeitos.
-    Nossa estrutura humana é frágil, por isto nos debilitamos física e mentalmente diante de circunstância adversas no ambiente e relacionamento, estando sujeitos a doenças e acidentes que provocam dor e debilidade.
-   Estamos rodeados de inúmeros perigos e nossa existência pode ser interrompida a qualquer momento. A convivência humana é marcada por conflitos pela qual a presença do Estado tem sido insuficiente para pacificar as tensões. As contendas, pelejas e inimizades tem gerado mais vítimas do que a pior das epidemias conhecidas no mundo.
Diante da brevidade da vida, a esperança surge como flecha atirada em direção a eternidade, sustentada na fé de que a existência humana não se esgota com a morte. É o balsamo da consolação para aqueles encontram-se na fragilidade da carne e buscam a robustez da alma no plano espiritual onde encontram convicções além da eternidade.
CONCLUSÃO
É possível perceber que a história tem eventos coincidentes presentes em todas eras. A religião está sempre presente na história das civilizações, mostrando como era a vida das pessoas em comunhão com a sua fé, como herança cultural dos antepassados e meio de firmar a sua identidade enquanto nação. Inclusive as civilizações mais simples construíram o seu conhecimento sociocultural a partir da doutrina da sua crença.
REFERÊNCIAS
Indico a leitura dos seguintes livros:
BOTTON, Alain de. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
______. As consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
BRIZOTTI, Alan. Quando a vida dói: Reflexões bíblicas para tratar dores da alma. 1ª Edição – Goiânia: Estação da Fé, 2013.
CURY. Augusto. O Semeador de Ideias: que atitudes tomaria se o mundo desabasse sobre você? São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2010.
GALLAGHER, Steve. O Poder da Humildade: Deus resiste aos orgulhosos mas dá graças aos humildes. Brasília: Editora Propósito Eterno, 2006.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O PREÇO DO DESAFIO


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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes

INTRODUÇÃO
Desde algum tempo, venho refletindo as razões para o sucesso ou para o fracasso. Então cheguei à conclusão de que nada é produto do acaso. Existe a relação causa x efeito ou atos versus consequência. Alguém pode até pensar que herdou o sucesso por presente dos deuses que lançaram a sorte e o fez prosperar. Comportam-se como aqueles que esperam alguém preparar o almoço ou a cama para elas dormirem. Não existe almoço grátis; alguém está pagando a conta. Quem fica na comodidade à espreita da sorte tem a desculpa de que não foram abençoadas pelas oportunidades da vida. Contudo, sempre acreditei na força do trabalho por motivação intrínseca para atingir determinada finalidade.

OUSADIA PARA REALIZAR SONHOS
Minhas decisões mais corajosas foram tomadas com muito medo e ansiedade. Eram decisões em que os riscos foram confrontados com o altruísmo sob o prisma da razão e do objetivo final que foi desenhado com expectativa de sucesso. O risco do fracasso era evidente e o medo me perseguia a cada passo dado em direção do desafio premeditado. Por vezes fiquei atônito, suando frio, mas não desisti. Sabia que a desistência poderia refletir no arrependimento tardio de não ter tentado e negligenciado nos momentos de tomada de decisão. Por vezes, o arrependimento pelas oportunidades perdidas se armazena na consciência como se fosse a marca de um fracasso. Fica a sensação de que o corpo armazenou por anos sonhos abortados por medo e timidez com a sensação de que se perdeu a oportunidade de agir com ousadia no momento importante de tomada de decisão.
Acredito que as ações mais corajosas não são isentas de sensações e de reflexões morais. A hesitação é tangível e, por vezes, faço questionamentos relacionados a reputação, ao sucesso e ao fracasso. Percebo que o espírito da aventura, acompanhado da ansiedade, mostra que nem todas as coisas se revestem de previsibilidade, mas de possibilidades de sucesso e de fracasso. O fracasso nem sempre representa algo essencialmente mau, dependendo do aprendizado que ele produz. O fracasso se tornou matéria prima do sucesso de muitas pessoas. Elas aprenderam a serem persistentes mesmo quando as coisas não alcançavam o resultado esperado. Aprenderam que a reengenharia do sucesso passa por rever conceitos, ações, entender a realidade ou contextos para que as oportunidades se tornem favoráveis. Assim, com visão otimista e instrumentalizando a inteligência, extraíram da força do trabalho, a realização do sonho.
UMA VIDA COM PROPÓSITO
Então passo a acreditar na importância de ter uma vida com propósito. Propósito significa a razão da existência de todas as coisas. Nada existe sem uma finalidade ou motivo pelo qual foi criado. Por isso, o ser humano deve orientar sua vida por um propósito para descobrir sua utilidade, o valor do serviço ao próximo para que sua vida tenha significância. Doutro modo, correrá intensamente em busca de uma satisfação não definida, corrompida pelo individualismo e pelo egocentrismo em busca de preencher o vazio existencial.
Certa vez, o Dr. Myles Munroe declarou: "Eu acredito que a maior tragédia na vida não é a morte. Mas a grande tragédia na vida é uma vida sem propósito."
Ele explicou que muitas pessoas são infelizes por não tem uma vida com propósito. Por isso, Myles Munroe declarou que “Até que você descubra o propósito pelo qual foi criado, você nunca estará realizado".
Sem propósito, as pessoas vivem a procura de coisas vãs sem ter consciência de si mesmo, do que pode fazer e sem expectativa de futuro. Não tem consciência de importância e a identidade será frágil em relação a expectativa do futuro. Logo não é factível a realização de sonhos. A falta de expectativas e de esperança levam pessoas a procurarem aventuras e ter estilo de vida autodestruitivo.
É a partir do propósito que fazemos os planos para a vida e definimos os limites da satisfação pessoal. Logo, é possível identificar o ponto de partida e o objetivo a ser alcançado. Toda realização de um sonho só é possível a partir de um plano no qual todos os riscos e o valor do prêmio foram calculados. Contudo, não haverá significado (ou importância) se não tivermos consciência do propósito. Claro, a partir de novas vivências e experiências vamos construindo novas identidades, pois o conhecimento possibilita ampliar a visão de mundo.
Não existe significado pessoal se não houve sentimento de utilidade e valorização do mais simples ser humano. O verdadeiro sentimento de importância é desprovido de orgulho pessoal. Algumas pessoas foram embriagadas pelo conhecimento e ensoberbeceram pelo sucesso que ele proporcionou. Julgaram-se mais excelentes que os demais seres humanos, Cultivaram a divinização do ego imputando insignificância as pessoas desprovidas de qualificação profissional e de status.

O PREÇO DO SUCESSO
Não quero estar no berço esplêndido das imaginações, sem empenhar pelo resultado esperado. Não folgo com o acaso e o inesperado. Às vezes, tende-se acreditar na sorte como presente dos deuses em resposta a crença na onipotência do pensamento. Alguns acreditam que seus pensamentos têm tanto poder que podem influenciar no curso da natureza e do destino. Creditam ao universo metafísico as alterações e oportunidades que lhe proporcionarão sucesso.
Acredito que a programação das ações, aliadas a persistência e a capacidade de superação conduzem ao resultado projetado no universo dos sonhos. Logo não há soluções mágicas e resultados instantâneos. Isto implica em avaliar o preço a ser pago, pois nenhum objetivo será alcançado sem a ação sacrificial. O sacrifício pode ser entendido como a entrega de algo valioso em troca de algo mais valioso ainda. Assim entendido, temos valores materiais e imateriais a renunciar quanto pleiteamos algo mais excelente. Por exemplo: o estudante está disposto a abrir mão do lazer e até mesmo do repouso como sacrifício em prol de um prêmio maior para ter acesso a universidade ou aprovação em concurso público em sua área de formação. Ao final percebe-se que o sacrifício traz o triunfo como recompensa.
Quando buscar o segredo do sucesso profissional de alguém, deve-se perguntar: “Qual foi o seu preço para alcançar tal resultado?”
O sucesso na vida profissional é o resultado de anos de aplicação nos estudos. Não há como aferir as horas de lazer e os fins de semana que foram sacrificados, a noite de sono perdida, a ansiedade e o medo. Isto faz o mais aplicado dos estudantes ser especial por que se compra com a ansiedade e o cansaço, a felicidade e a estabilidade da vida no futuro.
É preciso viver o presente com expectativas para o futuro. Isto implica na capacidade de sonhar e de fazer planos. Ter a capacidade de imaginar a realidade trazendo no futuro próximo sensação de bem-estar e de conforto. Acreditar que o dia-a-dia é necessário plantar sementes de relações interpessoais sadias, pois a verdadeira amizade providenciará a solidariedade orgânica no momento da adversidade.
É importante desfrutar do vigor da juventude e o prazer de suas experiências sensórias, mas nunca se descuidar de suas responsabilidades individual e coletiva. Aqueles que são ávidos por liberdade e diversão como se fosse o único néctar dos deuses apresentados aos seres humanos no esplendor da sua força no decorrer dos anos, perceberão o desencanto pelas agruras da vida. Logo, é preciso ser sóbrio na provisão da vida para os momentos da adversidade.
Claro todo o ser humano é ávido pelo prazer e o bem estar, mas é importante ter cuidado para não ser escravo do entretenimento. Hoje a tecnologia tem roubado a naturalidade das relações plantadas pela convivência amorosa, substituindo-a pela artificialidade das amizades online. A dependência física e psíquica por experiências sensoriais, aflora pelo néctar viciante da adrenalina. É enganoso viver intensamente as aventuras e mergulhar na ilusão ter usufruído de todos os prazeres na perspectiva de existência finita. É como se o mundo estivesse prestes a se acabar e privasse de desfrutar a vida com sabor carnal, tal como a frase: “Comamos e bebamos que amanhã morreremos.”   
Nenhum sucesso é plantado com ociosidade. Tudo requer sacrifício em prol de algo mais excelente. Portanto, viver intensamente é administrar a própria vida com conhecimento, entendimento e sabedoria. O conhecimento é a forma como abstraímos a ideia ou noção das coisas. Por outro lado, o entendimento é mais profundo do que o conhecimento pois implica na compreensão da finalidade das coisas. A Sabedoria significa tomar as decisões adequadas com responsabilidade, usufruindo de senso moral e ético elevado, superando o orgulho e o individualismo, privilegiando a humildade e o respeito ao próximo. Ter sabedoria não depende de graduação ou posição social.
CONCLUSÃO
Sou tentado a buscar novos significados para a vida na direção das oportunidades que me são apresentadas e levam a explorar os limites da capacidade de cognição e de iniciativa. Claro, a mesmice pode até produzir certa zona de conforto, mas cansa. Não produz o entusiasmo próprio da experiência inédita. Por isto, gosto de ver o brilho nos olhos pela oportunidade de realização do sonho. Essas antecipações mentais ajudam a visualizar o resultado. Ou seja, vivenciar o fim antes do começo por meio da imaginação. Acredito que o homem se renova a cada dia no universo dos sonhos e coloca passos no futuro com a confiança de melhorias de vida, conforto e segurança.
REFERÊNCIAS
Recomenda a leitura das seguintes obras:
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
­­_______. As Consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
CURY, Augusto. O semeador de ideias. São Paulo: Academia de Inteligência, 2010.
LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NO SILÊNCIO E NA SOLIDÃO...



INTRODUÇÃO
Tenho usado o silêncio como terapia em momentos solitários face a necessidade de interromper, mesmo que por um momento, o ritmo alucinante do dia-a-dia. Então percebo como tenho mais acuidade em ouvir os sons da natureza de forma magnífica e de rara grandeza. Também, o meu olhar se fixa em um ponto repetidas vezes e a novidade das cores e dos sons se manifestam nas impressões mentais como se a fantasia das histórias infantis se materializasse diante de mim. Parece que a natureza desacelerou para que eu pudesse ver as cores mais brilhantes e os detalhes mais apurados. Às vezes parece que a visão é ilusória, própria da fantasia e das imaginações. Fico extasiado como o comum se torna incomum diante dos meus olhos. Antes não era possível, devido a precipitação mecânica das experiências sensoriais do dia-a-dia que faz-nos absorver apenas aquilo que é imediato e pragmático. Isto porque a mecanização da rotina adormece as relações simbólicas com a natureza e com as pessoas.
O SILÊNCIO E O TRIBUNAL DA CONSCIÊNCIA
Agora no ritmo das batidas do coração, passo a ser acompanhado pelos pensamentos que me convidam para uma reflexão solene da vida. Essa experiência é repleta de emoção e o reluzir do olhar está acompanhado das imagens do flashback da história de vida. Essas imagens estão acompanhadas de narrações da consciência (Os esquizofrênicos dizem que ouvem vozes pois são incapazes de diferenciar o que é imaginação do real). É muito difícil silenciar a voz dos pensamentos principalmente quando eles te convidam para uma situação de confronto sobre a prática de uma crença e desafiam para o exercício da coerência. Então, entendo que os pensamentos são diálogos da alma pelos quais as perguntas trazem um incômodo sobre o real significado da existência.
A dimensão do conflito interior se intensifica quando queremos justificar para nós mesmos as posições equivocadas. Por vezes, queremos silenciar em nossas mentes as vozes das opiniões alheias e até mesmo da consciência. Odiamos o sarcasmo, o tom ácido das críticas e até o contraditório, temendo possíveis lesões no nosso ego e as reações que nos tiram da zona de conforto. Então, o pensamento fica procurando as respostas com mais capacidade de cognição e coerência para advogar perante o tribunal a nossa consciência. Claro, a consciência penaliza a nossa mente e o corpo com açoites do pelourinho moral, trazendo a luz todo dualismo do bem e mal, do certo e errado. Então, entendo que o alto preço da liberdade está na faculdade de sermos responsabilizados por todos os atos, resultantes da vontade, cognição e determinação.
O real significado da liberdade está impresso na consciência. A liberdade é uma percepção individual sobre a faculdade de ser e estar no mundo com a devida autonomia. Essa autonomia se revela na experiência sensorial de calcular os riscos das decisões que a liberdade nos possibilita. Às vezes temos de encarar o medo como um adversário vigoroso e impiedoso. Por isto, as grades que nos prendem não estão nas prisões das penitenciárias, mas nos sentimentos de inutilidade e de incapacidade que nos impedem de voar em direção dos nossos sonhos. Também, a liberdade nos coloca diante diferentes caminhos a seguir e impõe o julgamento mental com antecipação das realidades a serem escolhidas com a devida segurança. Como disse o coelho da história de “Alice no País das Maravilhas”: “caminhos levam a algum lugar, depende do lugar onde você quer chegar!” Por isto, os melhores julgamentos morais das nossas decisões acontecem no silêncio e na solidão, no confronto direto de uma sã consciência. Deve-se considerar a armadilha das decisões solitárias que não iluminadas por bons conselhos. Decisões solitárias tomadas em momentos de dor ou ódios causam tragédias e o arrependimento pode ser tarde demais.
A SOLIDÃO DOS PENSAMENTOS
Na solidão e na ociosidade se manifestam todas as fraquezas do ego humano. A vaidade se dissipa pela autocomiseração e pensamos como somos insignificantes. A grandeza de muita gente não passa de uma maquiagem social que encobre suas fragilidades, mas que, no confronto direto da consciência, ficam reduzidos como pó miúdo espalhado pelo vento. Por isto, muita gente tem o pavor de ficar sozinha. Tem o pavor da dramaticidade dos pensamentos que trazem consigo os fantasmas do medo que esvaziam toda a sensação de alegria e de prazer. As alucinações causadas pelo medo sugam as forças vitais do pensamento. Parece que a paz se exilou nos lugares mais distantes da terra e o sentimento de culpa torna-se inevitável. Pensa-se o que foi feito e aquilo que não pôde realizar, nas expectativas do futuro e logo se manifesta todas as fobias possíveis.
A solidão é uma percepção individual carregada de sentimentos de abandono. Independe da companhia de pessoas ou até mesmo do diálogo que se estabelece entre si. Traz a patologia da ansiedade e da incompreensão de uma alma que implora por auto aceitação. Tudo culpa da cultura da emoção em que a tônica da vida secular está baseada sensação de bem-estar. Há uma realidade de fuga da realidade pelo entretenimento, esportes radicais, alcoolismos e drogas. Muitos não estão preparados para deparar com a crítica e com a rejeição. Assim, a consequência desse antropocentrismo (o homem no centro do universo) é a epidemia de frustrações crônicas. Hoje a indústria dos processos por coisas banais mostra como há imaturidade de pessoas com sentimentos corroídos por ideologias e que se julgam protegidas pelo direito de não serem criticadas. 
É necessário que o entusiasmo do sonho seja rompido pela frustração para que a dúvida se estabeleça e coloque em teste toda a determinação do ser humano. O contraditório e a frustração são elementos que colocam em prova todas as nossas convicções. Surge o conflito mental com o seguinte dilema: retroceder ou persistir com a mesma fé e esperança no sonho? Há temor do julgamento alheios porque novo fracasso poderá ser entendido com teimosia; mas também, o sucesso será a prova cabal da determinação.
Acredito que as nossas frustrações pode ser aulas que nos ensinam os passos para o sucesso, desde que estejam acompanhadas da devida reflexão. É preciso avaliar as razões do fracasso para construir pontes para o sucesso. Então, surge a oportunidade de recomeçar com novas estratégias, administrando com segurança a ansiedade e melhor controle dos resultados. Desde que haja determinação no caminho que almeja chegar.
Às vezes, o pensamento negativo está tão persistente que maltrata o corpo pela insônia, impedindo o sadio descanso. O sono deveria ser a experiência lúdica mais solitária do ser humano que permite a alma viajar pelo magnífico mundo da imaginação. O sonho traz lembranças passadas com detalhes dantes percebidos e comunica realização de desejos. Faz acreditar que adentramos no mundo divino para colher por meio de enigmas os sábios conselhos. Logo, o leito deveria ser o jardim das delícias onde alimentamos a nossa alma e revigoramos as energias físicas, mentais e espirituais. Nesse ambiente a sã consciência cumpre o seu trajeto ao adentrar no mundo dos mistérios onde o futuro descortina nos arautos da fé e da esperança.
Por isso, a alegada paz do silêncio não passa de uma alegoria para alguns, porque, às vezes, na solidão se manifestam as lembranças daquilo que gostariam de esquecer Também, aparecem os fantasmas imaginários e as teorias da conspiração naquelas pessoas que foram infectadas pelo vírus da baixo-estima. A solidão é digerida como remédio amargo por aqueles que se torturam com a tristeza, ansiedade e depressão no deserto do coração. Por isto, os planos mais sórdidos são tramados na individualidade do pensamento, quando a voz da consciência foi silenciada pela amargura. A etimologia da morte do sonho passa pela desesperança nascida na amarga solidão.
O SILÊNCIO E A EXPERIÊNCIA SENSORIAL
Porém, quero aproveitar o silêncio para me esvaziar dos sentimentos e das lembranças nefastas que poluem o ecossistema da alma. Quero desenhar no pensamento as ideias mais brilhantes sobre o horizonte dos sonhos. Quero desfrutar o silêncio com os olhos bem fechados, desligando-os da arquitetura que me prende ao mundo material. Adentro no universo das percepções sensoriais com o pensamento iluminado pela fé. Quero conversar com Deus e ser curado na terapia do amor e do perdão divino. Assim, anseio todos os dias adentrar no jardim da existência onde o entusiasmo da felicidade me completa de fervor espiritual.
A reflexão sobre a perenidade da vida se apresenta na solidão dos nossos pensamentos. Julgamos que a vida se cansou de todas as novidades e que estamos sendo consumidos pela rotina, repetindo pela automação o ciclo de vida. Claro, a vida implora por novidade, novas emoções e expectativas no ritmo ascendente. Isto por que os nossos pensamentos são dependentes das nossas experiências sensoriais, principalmente daquilo que apreendemos pela visão.
Mas, a racionalidade impede que sejamos pessoas passionais inconstantes nas diferentes variações de humor e impulsivos na satisfação dos instintos, inclusive aqueles mais primitivos. A razão se manifesta na serenidade das nossas reflexões amparadas na ética e na moral, coadjuvada pelo bom senso. Não é a explosão reivindicatória dos direitos, de reparação de danos com expediente de insensatez e brutalidade. A razão é a decisão amparada na inteligência que impõe determinações a vontade e controla os sentimentos de justiça própria e de vingança. Ela pesa as palavras e as tempera com gentileza, retirando a amargura, mesmo em situações de extrema tensão emocional.
Por diversas vezes a experiência sensorial é ilusória. O que vimos ou ouvimos são interpretados pelos nossos sentimentos e, muitas vezes, não passam por um filtro moral da consciência nem pelas reflexões lógicas do intelecto. Então, cremos piamente naquilo que vimos e julgamos sentir. Por causa da visão e dos sentimentos recorrentes somos induzidos a ter interpretações equivocadas da realidade. Essa é a razão de muitos conflitos e mal entendidos entre pessoas. O que vimos ou ouvimos assemelha-se a imagem de um espelho embaçado e a verdade que construímos não passam de palpites na roda de amigos. Se assim entendermos teremos o ponto de partida para o exercício da tolerância e da escuta compreensiva.
Gosto de exercitar a visão quando a arte da contemplação da natureza está acompanhada do silêncio. Percebo que o mundo não parou de girar apesar do silêncio e da ociosidade. Percebo que os sons da natureza são sussurros provocados pelo vento: o agitar das folhas e a melodia dos pássaros. Consigo reunir informações que sequer havíamos pensado. Penso como a cor verde é a abundante esperança que nos convida a redescobrir a fé nas maravilhas de Deus. Então percebo que a natureza é um testemunho diário do milagre da vida desde que os mundos foram criados.
CONCLUSÃO
Acredito que é na solidão dos pensamentos que tomamos as decisões mais qualificadas com o auxílio do tribunal da consciência. Por isto, buscamos o autoexílio para conectar diretamente com os problemas e buscar pela lógica matemática chegar aos cálculos de suas soluções. Pode parecer manifestação explícita do egocentrismo, mas no primeiro momento recusamos partilhar os nossos problemas com alguém para omitir qualquer percepção de fraqueza. Mas, depois, que a solução matemática dos nossos problemas dependem da presença do outro; que a amizade pode muito em seus efeitos terapêuticos de solidariedade.
REFERÊNCIAS
Não citar referências. Apenas vou indicar as seguintes obras:
BOTTON, Alain. Ensaio de Amor, Tradução de Fábio Fernandes. São Paulo: Rocco, 2011.
______. Ensaio de Amor, Tradução de Eneida Santos. São Paulo: Rocco, 2013.
LOPES, Hernandes Dias Lopes. Voando nas alturas: dez princípios par uma vida bem sucedida. São Paulo: Editora Candeia, 1996.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A ECOLOGIA DA ALMA

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INTRODUÇÃO
Folgo pela oportunidade de adentrar no mundo das ideias para extrair pensamentos em brasa e lavrar com entusiasmo as palavras que imploravam vir a existência. Elas estavam guardadas dentro da consciência e não se contentavam em ser apenas abstração ou um som. Aliás, o som tende a se perder no ar como bolhas de sabão. Depois, fragmentos desses pensamentos aprisionados no inconsciente só retornam à mente na forma de lembranças. Logo, não é pertinente ser narcisista a ponto de amar os pensamentos na vã filosofia da vida. Quando divulgamos os pensamentos, eles se tornam ideias. Ideias tem a capacidade de transformar pessoas e até mesmo o mundo.
A INEVITÁVEL COMPARAÇÃO
Inevitavelmente analiso o comportamento humano a partir do meu próprio eixo moral. Mesmo não considerando um paradigma a ser seguido, minhas expectativas da reciprocidade de bondade me introduzem ao universo da comparação. Às vezes, utilizo o meu pensamento para fazer as especulações sobre o mundo ideal onde as pessoas se comportam com a educação e o respeito tão almejado. Contudo, quando expectativas são frustradas, tenho a constatação que a convivência humana é o reflexo de uma época de crises.
 
A prática da comparação é muito ingrata, pois, via de regra, estamos tendenciosos a nos considerar inferiores ou superiores a outras pessoas. Por vezes, confundimos reputação com caráter, personalidade com virtude, performance com competência. Assim, toda beleza de palavras ou gestos das pessoas ditas ilustres traem o olhar e o pensamento com relação a nossa relevância no mundo.
Outras vezes, a frustração surge quando o empenho de justiça e a referência de educação entra em conflito com a agressividade e a indelicadeza de pessoas com quem convivemos ou eventualmente encontramos. Acredito piamente no diálogo como a energia que abre as portas da alma para o afeto e a aproximação fraterna, mas quando não se vê outra coisa além reclamação de direitos, prevalece a vontade de quem se impõe no grito e na força.
Costumo dizer que a reclamação por direitos é ambígua e ao mesmo tempo particular. Essa reclamação pessoal do direito sobrepõe aos limites da lei e da ética, pois é inflamada pela razão após explosão irremediável dos impulsos e dos sentimentos mais sórdidos. A satisfação pessoal não tem limites e se fossem preenchidas todas exigências da vaidade humana ainda restaria o enfado, o tédio e a irritabilidade sem sentido. O vazio interior não se preenche com fortuna, fama e poder. O coração íntegro só pode ser alimentado de sentimentos recíprocos e verdadeiros.
O aprendizado da reciprocidade é resistível desde a tenra infância e a rebeldia é impressionante. Surge desde o momento que a criança aprende a dizer não. Percebo que o ego humano é solitário, manipulador e autoritário. É fenomenal como as crianças tem uma natureza egocêntrica para, depois, adultos se revelarem individualistas e egoístas. Adiciona ao fenômeno comportamental pitadas da ideologia capitalista de recorrente competição e de supervalorização dos melhores adaptados.  
Observo como as vozes e os gritos ecoam no ar, no absurdo protesto pela atenção. O que me impressiona é que todos querem falar, às vezes, ao mesmo tempo, ignorando a sequência e o bom senso. Falta paciência para ouvir e há grande dificuldade para entender o outro. Parece que as palavras são formas de esvaziar o excesso de informações que se acumularam no cérebro. É preciso falar para relaxar e sentir-se bem, nem que isto seja frivolidade da vergonha alheia. Essa compulsão oral é o retrato da epidemia de ansiedade que tomou conta do mundo.
Por isto, a submissão voluntária e consciente é o exercício mental mais difícil de ser aprendido. Aliás, a submissão é algo que se aprende com o coração e não com o intelecto. O amor é o sentimento mais sublime que produz a rendição do ego humano e leva alguém a se submeter voluntariamente. Traz consigo o entendimento do benevolente serviço ao próximo como a mais elevada virtude.
A CAPACIDADE DE OLHAR
Considero um dos exercícios mais fascinantes parar e olhar a natureza com a sua aparente tranquilidade. A arte da contemplação nos ensina como o silêncio dá vozes ao pensamento e à imaginação. Esse diálogo interior penetra no ecossistema da alma e revela segredos que desconhecemos. Pensamos nas coisas mais simples e saborosas que não degustamos por andarmos apressados demais. Estamos acostumados com o estilo de vida acelerado que faz o tempo parecer insuficiente para atender todas as nossas demandas.  
A velocidade nos faz perder a riqueza dos detalhes, cansar o olhar e profanar as maravilhas de Deus. Resgatar a natureza perdida dentro de nós é renunciar o pernicioso materialismo de nossas mentes, trazer para dentro do coração a capacidade de ter a visão fantástica do universo divino. Por isto, fecho os olhos para que a alma possa entrar o mundo das ideias e comunicar todos os sonhos que plantei com esperança.
Talvez, em uma manhã gloriosa surja o inevitável tédio pela mecanização da rotina. Fazemos todos os dias as mesmas coisas, convivemos com as mesmas pessoas e reclamamos dos mesmos problemas. Ouvimos também as mesmas queixas e as críticas nos cansam. Gostamos de ser elogiados, mas também a recorrente adulação nos enfada e coloca sob prova a vaidade do nosso ego.
Entendo que o conflito interior do ser humano traz as inquietações do sucesso e das expectativas frustradas. Há o anseio de satisfação pessoal na busca pelo bem-estar físico, mental, social e espiritual. Estar bem consigo comunga a ideia de se sentir completo, sem aquele vazio existencial que aflige a alma. A busca de significados reside na pergunta: qual a razão do existir ou o propósito da vida?
Como Myles Munroe (1954 – 2014), acredito que a maior tragédia na vida não é a morte, mas viver uma vida sem propósito.  A vida não pode ser entendida como um casuísmo da natureza ou um acidente automático da história. Não somos atores encenando uma apresentação no quadro da história até encerrarmos o ciclo da nossa existência. Entramos na história, sedentos de uma existência eterna e não nos conformamos com a morte e, se possível, combateríamos contra ela até o limite das nossas forças.
Outra questão é que não estamos sozinhos no mundo. Fomos contemplados por uma história de antepassados, de pessoas com quem convivemos e têm similaridades com a nossa existência. É inegável a presunção de que todas as histórias têm suas origens em um ancestral comum. Por formação somos semelhantes em essência corporal, faculdade racional e espiritual. Seríamos os mais excelentes dos seres criados ao som da música de Deus se a irresistível liberdade não nos corrompesse a ultrapassar os seus limites. Acredito que a arquitetura do barro seria a mais bela história da origem humana, gerada pela necessidade da divindade de fazer brilhar a luz do amor entre os homens. O amor seria o culto mais belo da adoração na qual a sublimidade da vida seria enriquecida pelos contornos da eternidade. A vitalidade da existência estaria presente na recíproca confiança, no tratado da obediência por amor e pelo exercício da liberdade com a pureza do coração.
A VITALIDADE DA EXISTÊNCIA
Passo a pensar na vitalidade da existência e sua inocente felicidade sem neuras. A vida deveria ser desfrutada com simplicidade, com a alegria de quem colhe um fruto saboroso a cada dia. Parece que até as coisas simples carecem de explicação complexa. Para alguns, a certeza cria um incômodo. É preciso arranjar um pretexto para dialogar com a dúvida nem que seja para provar o néctar dos deuses: o conhecimento.
Claro, o conhecimento flerta com o divino, se apresenta como algo obscuro, inacessível, encoberto com aspectos mágicos. Surge a curiosidade de experimentar o poder como mecanismo de controle e de satisfação pessoal. Mas ao contrário, o conhecimento não é apenas o entendimento de informações reveladas. Ele descortina diante do homem o dualismo entre o bem e o mal, traz consigo o expecto da morte e traça o destino não só de uma pessoa, mas de toda a humanidade. Por consequência, a engenharia criativa do homem pode ser utilizada para salvar vidas e para a dor da destruição.
O destino de alguém é definido a partir de sua visão de mundo: o que pensa em relação a si mesmo e os outros; as expectativas que constrói para o bem social. Essa visão tenta explicar algumas perguntas básicas que o conhecimento produzido até então não conseguiu responder:
·         Quem sou eu? Pergunta sobre a identidade: o que me faz um ser distinto no universo e do que sou constituído;
·         De onde eu vim? Pergunta sobre a origem: não se trata de respostas físico-biológicas, mas de conotações metafísicas ou espirituais os quais sobrepõe as explicações científicas;
·         Por que nasci? Pergunta sobre o propósito: a visão que orientará a vocação de cada um para determinado bem;
·         O que eu posso fazer? Pergunta sobre a capacidade: é descobrir o dom a ser empregado para satisfação pessoal e em benefício do próximo;
·         Para onde eu vou? Pergunta sobre o destino que é alimentada pela sede de eternidade.
O ser humano é forjado a partir de uma ideologia, presente em um sistema de crenças herdado culturalmente e pela convivência em diferentes grupos sociais. O sistema de crenças é influenciado pela leitura do mundo. Essa leitura está para além da contemplação da natureza e dos ângulos das edificações. É a própria dinâmica das relações humanas, conflituosa, com o sabor da solidariedade orgânica, o amargo da violência e suas múltiplas facetas.
Como se percebe olhar para o mundo não é contemplar a fauna e flora da natureza. Hoje o ecossistema das almas está desprovido de profundidade moral desde a base familiar, entregue a superficialidade do saber, do conforto de quem não admite ser confrontado. A ecologia da alma mostra como o homem, maior natureza de Deus, destrói sua vida diariamente, sobretudo no aspecto moral.
A pedagogia do olhar está presente nas crianças com a sua natural curiosidade e simplicidade do jogo simbólico das cores dos objetos. Ela consegue extrair o belo nas coisas mais insignificantes da natureza e do que é produzido a partir dela. As coisas inanimadas estão repletas de vida e produzem sons que enlevam a alma. Não somente as crianças, mas também pessoas embriagadas pelo contagiante otimismo são capazes de ver o belo mesmo diante das dificuldades. Mostram que é possível fazer a leitura do mundo a partir do universo das possibilidades e colocar-se como agente da transformação para que a influência da agenda positiva possa cobrir as deformidades moral, social e espiritual da sociedade.
Logo, a forma como olhamos o mundo pode revestir-se pelo entusiasmo ou de um pessimismo antes as incertezas do futuro. Esse olhar é a própria nuance do contraditório, da insegurança, da relatividade sobre os valores e o próprio pensamento. As diferentes visões do mundo deveriam encaminhar-se para um diálogo cognoscente sobre as oportunidades. Há pessoas que preferem as desculpas para se omitir e aceitar a ruína com fato consumado ou, então, produzir um dossiê das responsabilidades nos casuísmos da desordem.
O olhar otimista da realidade apresenta o desenho do futuro segundo as nossas expectativas de felicidade, desprovido do hedonismo irresponsável de que teremos a realização do sonho com todas as suas belezas e cores. O otimismo só pode ser produzido a partir da semente da fé. A manifestação da fé acontece nos momentos de contrastes e de conflitos. Nesse momento, alguém descobre a esperança e se compromete em mudar a sua realidade. Logo olhar não é fotografar as imagens e cores, processar os seus significados no cérebro. Olhar é uma experiência emocionante do aprendizado pelo qual fazemos a construção, desconstrução e reconstrução do mundo a partir da fé e da esperança.
Tem gente que não faz a leitura do mundo porque perdeu a capacidade de sonhar, imaginar. Por isso, ficaram refém do fatalismo, pois as trevas da realidade contêm crueldade, insegurança e ilusão. Mas também, julgo ardiloso apegar-se a um idealismo ingênuo e delirante como se a fé e a esperança fossem a energia cósmica do absurdo. A vida é feita de etapas compreendidas em cada lapso temporal de cada evento e das oportunidades que se apresentam. Logo, a fé se manifesta no plano da ação e não pela maravilha do divino diante da estática do homem. Somos agentes participantes do milagre diário da vida e revelamos a natureza de Deus quando comunicamos com a vida os nossos sonhos.
CONCLUSÃO
Os elementos espirituais sonhos, pensamentos e palavras são testemunhos da existência da alma. Não podemos ver a alma nem tocar o espírito, pois o mundo espiritual se comunica por meio dos sentimentos, dos pensamentos e da vontade. Essas sensações são manifestadas por meio do nosso corpo: os olhos ardem, o coração palpita e acelera e a pele se aquece. Penso que as palavras nos dão algumas impressões sobre a alma humana a medida que com convivemos com as pessoas. Assim nos tornamos participantes dos seus sonhos quando empregamos a fé e a esperança.
REFERÊNCIAS:
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O ENCANTO E O DESENCANTO DA EDUCAÇÃO


Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO

Faço da experiência na educação uma reminiscência dos encantos dos primeiros anos da vida em que a beleza da fantasia estava presente na minha leitura do mundo. O encanto do sonho fazia com que a educação fosse a última gota de esperança para melhoria de vida de uma geração acostumada com a vida repleta de dificuldades. A realização do sonho dos pais era sentir a felicidade dos filhos na contramão das dificuldades que eles tiveram. Por isto o maior investimento era a educação que davam aos filhos mesmo desconhecendo a grandiosidade dos valores que eles transmitiam na simplicidade das palavras.
A SIMPLICIDADE DO ENSINO 

Por isto, invisto na memória com uma saudação nostálgica à inocência dos meus primeiros anos. Eram momentos em que o sonho era complacente com a imaginação fértil da infância. Nesse universo colorido, até a lágrima tinha o sabor da fantasia cujo enredo se renovava a cada vivência. O expecto da felicidade estava na simplicidade de ver o mundo na pureza do olhar, sem a rudeza adulta que nos cercava. Em cada brincadeira estávamos construindo o nosso mundo a partir da música de Deus que escutávamos na natureza. Essa era a nossa leitura de mundo com a sua beleza e cores. Os dias eram longos, intermináveis, como a história sem fim e fazíamos da brincadeira o sonho da realidade que desejávamos viver. Na pureza do encanto, vivíamos a beleza da liberdade mesmo alardeada pelo desencanto do não. A simplicidade da existência estava no fato de bebermos a pureza da inocência sem a culpa e a igualdade da convivência sem medo e constrangimentos. Estávamos aprendendo a viver a vida pela emoção da novidade com o mundo que se apresentava sem as contradições no horizonte. Assim enxergávamos o mundo e fazia sua leitura e escrevíamos as imagens com as penas da imaginação nas páginas do coração.

Lembro-me das noites a conversar sob a luz da candeia em que as histórias rimavam com a sabedoria popular aprendida de geração em geração. Era a tradição oral com os seus rituais nas rodas de conversas sobre a experiência vivida pelos ancestrais, trazendo à memória sua origem e feitos. Devido à curiosidade, os contos eram mais vigorosos que a literatura que hoje conhecemos. Livros eram raridade, mas os preceitos essenciais da vida estavam sendo impressos nas tábuas do coração. Não tínhamos a sistematização complexa de hierarquia. Isto não bastava. O exemplo dos mais velhos nos empurrava para a vocação de querer imitá-los pelo simples prazer de ser ensinados pelos “deuses”. A aura da verdade estava na palavra empenhada, na fé de um simples aperto de mãos, dispensando quaisquer laudas cartoriais. Portanto, o senso de justiça era regulado pela crença de considerar reciprocamente o próximo superior em relação a si mesmo. Essa concepção de serviço ao próximo era o retrato humanitário dos mais humildes. Pessoas desprovidas da instrução acadêmica, mas que aprenderam a reconstruir o mundo a partir de suas experiências de vida. Não eram perfeitas, mas não viviam prostradas diante de repetições de erros que haviam sepultado em passado pregresso. Suas experiências eram lições morais que inspiravam os mais jovens a serem iluminados no processo de tornar-se pessoa. A dignidade moral era a virtude mais excelente que indicava a prontidão do jovem para a vida adulta, propício a tomar suas próprias decisões, inaugurando sua autonomia intelectual e social.

O universo do sonho era atravessado na esperança de superação da dureza da vida pela instrução escolar. Apesar da funcionalidade, ler e escrever eram apenas o divisor entre o analfabetismo e a escolarização. Buscava-se a facilidade do trânsito diário na condução das soluções simples para a vida social. A ambição de cada pessoa estava na humildade de perpetuar seu nome por gerações à essência espiritual aprendida pelos genitores. Portanto, grau acadêmico seria apenas um adorno a toda herança cultural rica em valores e representações sociais marcantes de um povo. Isto tornava a vida simples por que o conhecimento eram pinturas desenhadas na alma e na intensidade da vida de forma natural e intuitiva.

Passo a lembrar dos relatos do filósofo Carlos Eduardo Brandão sobre os primórdios da educação. Ele mostra que a roda de conversa propicia a abertura de alguém ensinável, abraçado a genial humildade de ser um aprendiz. A beleza do diálogo está na prontidão de alguém buscar se alimentar da sabedoria com vigor de suas forças mentais e com alegria de saciar-se nos banquetes do conhecimento. Isto pode ser visualizado nas comunidades simples onde a aprendizagem da criança parte do reconhecimento da sua identidade cultural no meio em que vive. A exploração dos órgãos dos sentidos reveste a aprendizagem da emoção do patrimônio imaterial que é experimentado a cada dia, criando expectativas de vivenciar experiências significativas na plenitude da idade adulta.

Lembro-me da deidade da sabedoria dos anciãos que apregoavam o caminho da dignidade por meio das histórias de suas experiências de vida. O mundo das ideias adentrava nas mentes por meio da imaginação dos seus atos heroicos. A cada conversa uma lição de vida que nos convidava a imitá-los. Eram humanos, mas na nossa imaginação eram deuses que nos abençoavam por meio de palavras. Essas palavras eram vigorosas e proporcionavam a ação educativa de viver a dignidade acima de qualquer bem material.

A novidade do mundo do trabalho era introduzida aos infantes com a arte de mostrar a predestinação de se construir uma vida adulta autônoma. Construía-se o ciclo a partir da infância com a doçura do olhar, perplexo com intento de se aventurar ao mundo da responsabilidade. Gozava-se a infância de forma vagarosa, sem a exigência da velocidade no aprendizado. Respeitava-se a lei da natureza de crescer na estação própria para colher os frutos da maturidade com a qualidade da vida.

Nessa aprendizagem da vida, destacava-se o senso de preservação das crianças para que elas não adentrassem prematuramente nas contradições do mundo adulto. Estavam propositalmente excluídas das informações e debates acalorados promovidos nas rodas das pessoas crescidas. Importava que elas vivessem a infância, respeitando o seu universo de ludicidade e encanto.

Então, as crianças deveriam captar o conhecimento do mundo pela beleza do olhar, pela naturalidade das palavras e pelo encanto dos gestos. Nada de conhecimento prematuro, apressado e impositivo. Tudo aconteceria no momento certo, seguindo a lógica da curiosidade e da descoberta. Contudo, não era custoso mostrar o caminho a ser percorrido com segurança em situações do cotidiano. Aprender fazendo e questionando seus próprios erros era a forma de produzir maturidade psicológica e emocional. O sentimento de culpa era usufruído com uma tristeza causada por um arrependimento e traria gozo em momento oportuno. O gesto amoroso da correção levava a reflexão sobre as oportunidades de praticar a virtude como o espelho do homem ideal a ser formado. Mas, o homem ideal não estava carregado da áurea da santidade, isento de todos os defeitos e protegido de todos os sentimentos indesejáveis. Era tão próximo e tão marcante como nossa própria carne. Por isto, cultuávamos em nossos pais o respeito dos deuses.

A experiência religiosa era introduzida no caminho, no caminhar e suas ondulações eram conhecidas com o brilho no olhar. No sonho era plantada a esperança que estava presente na existência dando-lhe beleza nas cores. Educar para a esperança era mostrar que as dificuldades da vida era um processo dinâmico a ser superado com o tempo para olhar mais adiante pelo retrovisor da experiência.
AS MARCAS DO ENSINO NO CORAÇÃO

Assim, as palavras eram tintas que nos marcavam e grudavam em nós, dando forma aos nossos pensamentos e ajudando-nos a estruturar ideias. As palavras tinham o valor de ouro e não causavam enfado aos ouvidos. Isto por que tínhamos o orgulho de ter a ignorância como a nossa nobre fraqueza. O reconhecimento da ignorância era o pensamento que embasava a nossa humildade. Ao praticar a virtude da humildade, o mais importante era ouvir para apreender a exposição oral, deixando a imaginação construir as imagens das informações. Não importava tanto fotografias e filmes. Todo o ensino quando chegava ao nosso entendimento se transformava em um conteúdo autobiográfico. Inevitavelmente entrávamos na história, vivendo ao lado dos personagens como se estivesse presenciando suas aventuras. Assim, construíamos os significados, dando cores e imagens às palavras, mesmo que elas fossem instruções e advertências.

Por consequência, algumas palavras nos marcaram como vergões. Nem mesmo adultos nos esquecemos delas. Eram bem diferentes desses jargões que martelam a nossa mente com suas exaustivas repetições. Os jargões não passam de uma celebração à ignorância e uma violência contra a educação, pois transforma pessoas em receptores passivos e repetidores involuntários de palavras ou frases. O que me refiro é o encanto de receber as palavras como pérolas para adornar a experiência de vida. É lembrar-se das palavras e relacioná-las a pessoas e acontecimentos de vida, bem como a experiência marcante da história. Nessas lembranças, às vezes, temos a experiência do flashback, imaginando as vozes e as imagens do passado. Aliás, a memória nos faz viajar para trazer a lembrança dos aprendizados que precisamos usar como ferramentas em momento oportuno.

Agora lembro que, certa vez, a poetisa Adélia Prado refletiu que o nosso corpo é feito de palavras. É impressionante como as imagens, que vimos, interiorizam a leitura do mundo. As palavras têm uma conexão simbólica com a leitura de mundo com suas imagens e cores. Fazemos-nos participantes da história nos construtos da mente. É o modo solene pelo qual adentramos no mundo das ideias onde o pensamento se materializa com o jogo simbólico das imagens que criamos.

A mesma coisa disse Rubem Alves, explicando que as palavras grudam em nosso corpo como uma tinta ou tatuagem. O que ouvimos não poderá ser removido e que novas palavras são inseridas no conhecimento que já temos como a nossa própria vivência. Isso faz parte da experiência com seus casos e percalços.
A CORRUPÇÃO DO SONHO PELA TEORIZAÇÃO DA REALIDADE

Agora cito Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) para falar do sofrimento. Para Nietzche, o sofrimento é algo vantajoso na vida. Sem sofrimento não há vitória, não há sucesso. Alguém pode imaginar que o sucesso é algo fácil e natural, mas não existe um caminho reto até o topo. Ele escreveu.

"Não falem de dons ou talentos inatos. Podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e transformaram-se em gênios. Elas fizeram isso superando dificuldades."

O sofrimento e as dificuldades enfrentadas por muitos em sua infância e juventude ajudou a valorizar a educação familiar e escolar como a essência da própria virtude. Para alguns, o chão da escola estava no quintal da casa e nos afazeres domésticos. As aprendizagens fluíam com a naturalidade do crescimento físico com a mesma graça e verdade. A cada momento era plantada a semente da esperança doada pela experiência dos mais velhos. Cada palavra plantava o sonho da imitação da virtude dos pais. O orgulho de pertencimento à família dava-se em função da proximidade do respeito e do reconhecimento.

Atualmente a renúncia ao sofrimento tem corrompido à criança. Prega-se uma realidade ausente de fraquezas, tristezas e frustrações. A criança é o centro do universo com suas queixas e direitos, precursor da formação de um adulto servo do paternalismo exacerbado. Como consequência, temos a imaturidade e a rebeldia do adolescente e do jovem. O enfraquecimento do pátrio poder é uma realidade evidente nos nossos dias com pais inseguros e impotentes diante da desobediência de seus filhos. A intervenção do Estado nas famílias decorre dessa insegurança e desespero.

Todos esses problemas deságuam na escola como se fosse um espaço para cobrir a ociosidade das crianças que reclamam por curtição e irresponsabilidade. A tragédia da educação inaugura-se na sala de aula pelo enfraquecimento da capacidade da escola de resolver conflitos com origem familiar. O desrespeito aos profissionais da educação inaugura a época da violência simbólica, verbal e física. Os pequenos ditadores ameaçam, constrangem e agridem, fazendo com que os atos infracionais sejam uma rotina no ambiente escolar. As famílias incentivam o desrespeito ao professor quando os tratam como empregados dos seus filhos. A obsessão pela aprovação faz com a educação seja uma mercadoria muito barata em detrimento do conhecimento real. Agora esperemos o tiro de misericórdia na educação com a promoção automática dos alunos, inclusive daqueles que não moveram sequer um dedo para apreender uma gota de conhecimento.

Espera-se com a educação progressista e libertadora (que nunca se entendeu o que era) venha tornar a educação uma mercadoria por meio de barganha política do poder público com o lobby dos intelectuais. A posição secundária imputada aos educadores faz com o aluno e suas famílias estejam no centro da razão e excluídos de responsabilidades com relação ao fracasso escolar.

CONCLUSÃO

A reflexão nostálgica não se encerra nessas linhas. A imaginação inaugura reticências com as indagações e explicações a serem buscadas. Sou apenas um especulador teórico usando a nossa vã filosofia para entender os mistérios que existem no céu e na terra. Estou limitado para compreender a evolução do pensamento humano e as inúmeras contradições que surgem no duelo de palavras inúteis, onde cada um deles busca convencer-se da verdade. Portanto, a ideologia se alimenta do ego em relação ao próprio conhecimento. Quanto a mim, voltarei a dormir na simplicidade do humilde conhecimento aprendido pelos antigos, dialogando com os saberes que me são apresentados.

REFERÊNCIAS


ALVES, Rubem. Um Céu Numa Flor Silvestre: a Beleza Em Todas as Coisas. Campinas: Verus, 2009.

BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Que é Educação. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.

CHALITA, Gabriel. Educação: A solução está no afeto. Rio de Janeiro: Editora da Gente, 2001.

CURY. Augusto. Os segredos do Pai-Nosso. A solidão de Deus: um estudo psicológico da oração mais conhecida no mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

NIETZSCHE. Coleção Os Pensadores. Vol. 1. São Paulo: Nova Cultural, 1987.