quarta-feira, 18 de novembro de 2020

OS IMPACTOS NEGATIVOS DO CORONAVÍRUS PARA A EDUCAÇÃO

 

fonte: https://canpp.com.br/histeria/

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes

INTRODUÇÃO

            Por força das circunstâncias, fui instado a escrever sobre as consequências da pandemia viral e respiratória do novo coronavírus (COVID-19) para a educação. Esse tema tem sido recorrente em reuniões e lives da educação com extensas repetições de chavões e jargões acadêmicos que beiram o senso comum. A discussão do tema é importante porque é um fenômeno recente tão presente na vida das pessoas e traz uma explosão ardente de sentimentos, de frustração e de esperanças. Logo, uma discussão acadêmica é insuficiente para traduzir esses reflexos interiores de cada pessoa em sua complexidade.

            Esse artigo foge do rigor do padrão acadêmico com o coletivo de enumerações e citações. O texto é um relato de experiência compartilhado com os demais docentes neste momento de pandemia. Então, escolhi alguns aspectos negativos do coronavírus na educação que foram apreendidos nas escutas dos diálogos com colegas professores, pais e estudantes.

1 – OS ASPECTOS EMOCIONAIS

            A pandemia trouxe perdas de saúde e de vidas, com impactos emocionais nunca vistos. Também, acarretou perdas econômicas. Muitos perderam seus empregos e seu padrão de vida antes estabilizado. E a nossa liberdade foi minguando aos limites de um confinamento forçado em nome da ciência, às vezes, comprometendo o direito as liberdades individuais e coletivas previstas na Constituição. Passamos a viver uma realidade de guerra em todos os aspectos de “Estado de Emergência”.

            Em função da pandemia foram baixados vários atos legais e normativos em âmbito nacional, estadual e municipal que culminaram com a suspensão das aulas. O município da Serra baixou até o momento cerca de 30 atos legais entre decretos, portarias, circulares, normas técnicas e resoluções. Logo, trata-se uma situação excepcional e que exige cuidados específicos.

Li textos e postagens que o confinamento na pandemia trouxe o resgate dos valores familiares: aproximou pais de filhos, marido e esposa, etc. Mostrou o valor da solidariedade, do repartir, do dividir.... Ajudou as pessoas a redescobrirem o amor e a misericórdia.

Discordo. O argumento que resume tudo isto foi apresentado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé em entrevista à TV Brasil no dia 31/05/2020: “A pandemia é uma doença social”. Isto porque a pandemia gera um sentimento de insegurança e desespero; um verdadeiro frenesi. As pessoas sentiram que o mundo desabou sobre as suas cabeças da noite para o dia. Ficaram sem chão, sem expectativas. Pensamentos catastróficos aterrissaram sobre suas cabeças: “o apocalipse chegou. Então vamos nos preparar para o fim do mundo”.  Inegavelmente, a histeria e o pânico dos adultos atingiram, também, as crianças. Nesse momento de histeria, pessoas idosas e pertencentes ao grupo de risco foram segregadas a uma quarentena. Os idosos foram privados do convívio com parentes, e as crianças foram consideradas vetores de transmissão do vírus com risco de morte aos avós. Lamentável, mas talvez necessário?... O tempo dirá.

            O fator emocional foi agravado pelo bombardeio de informações na mídia e nas redes sociais dia e noite. O ápice da notícia era contagem de mortos diários por COVID-19. Parece que os jornalistas estavam inculcando a seguinte frase: “A próxima vítima pode ser você! ”  E o consumo indiscriminado de notícias ruins e, até mesmo de fake News, prejudicou a saúde mental de muita gente.

            Nos momentos iniciais da pandemia, percebi o apego a fé como válvula de escape para o enfrentamento do medo e da angústia. As pessoas queriam um fio de esperança nesse universo de incertezas. Confinadas em seus apartamentos e casas, cantavam canções religiosas ou seculares com fervor no intuito de quebrarem as amarras psicológicas da desesperança.

Mas, como explicar para as crianças que um vírus que teve epicentro na China atravessou o Oceano e chegou até nós? Crianças maiores podem até entender alguma coisa. E as crianças pequenas? Como explicar para as crianças que não podem ir para a escola ou brincar na rua? Que não podem beijar e abraçar os seus avós.

            Lembro de uma situação em que uma ex-aluna adolescente me encontrou na rua e no impulso correu e me abraçou. Ela estava sem máscara e a despeito de todas as medidas de proteção correspondi ao seu abraço. Não podia frustrar sua alegria e entusiasmo, principalmente pela gratidão que ela apresentou nesse encontro. Então pensei: “existe um vírus maior que o coronavírus: é o preconceito. Ela não está leprosa. É um ser humano e Jesus tocou em leprosos. A despeito da pandemia não posso tratá-la com indiferença, principalmente por conhecer sua história social”. Outras situações ocorreram e em todas correspondi ao afeto recebido. Depois, ouvi relato de casos de pessoas que foram vítimas de preconceito porque tiveram COVID.

            Contudo, são percebíveis a tristeza e a frustração das crianças porque as escolas estão fechadas. Alguns alunos me perguntaram: “Tio, quando voltam às aulas? ” Apesar de reproduzirem a informação recebidas por pais e a mídia, nunca vivenciaram um momento como esse. Agora todas as emoções estão colocadas à prova e não tem os pais para protege-los como outrora reclamavam da professora e da escola. É algo que está além da força da indignação dos genitores.

            Inda mais, é percebível no olhar a frustração dos professores quando comparecem à escola e sentem nostalgia, um vazio no peito pelo silêncio do prédio outrora cheio de vida pelo barulho, correria e agitação das crianças. Aquela escola cheia de vida, agora é um prédio frio, depositário de documentos, móveis e de expediente burocrático. A pandemia matou a essência da escola que é a comunhão entre estudantes, pais, professores, etc.

2. ASPECTOS SOCIAIS E ECONÔMICOS

            O isolamento social foi uma medida factível para combater o avanço da pandemia e levou os governos a fechar prédios públicos, incluindo as escolas. Então, surgiu a modalidade de trabalho home office ou teletrabalho para que os serviços públicos não fossem totalmente paralisados.

A pandemia trouxe a interrupção abrupta do processo ensino-aprendizagem na escola. Muitos alunos estão em processo de alfabetização e sequer dominam a leitura e escrita. Eles dependem da supervisão direta de um adulto tanto para a motivação como para facilitar a assimilação dos conteúdos. Como esperar que um estudante aprenda a ler sozinho ou que um pai consiga alfabetizar uma criança? É possível, mas não é usual aprender sem a presença de um profissional da educação.

            Consequentemente, os professores tiveram que se adequar ao mundo digital e tecnológico para participar de reuniões online e de lives. As mídias sociais como WhatsApp, Facebook e Youtube se tornaram mais usuais. Contudo, nem todos os profissionais são tão funcionais no mundo digital. A frieza da conversação online substituiu aquelas reuniões repletas de calor humano. Agora, até a orientação e o planejamento didático passam a ser por meio de mídias digitais.

            A pretensão de envolver os alunos nesse universo digital não atingiu as expectativas. As desigualdades sociais entre os estudantes foram apresentadas como o argumento mais pertinente para o insucesso das interfaces entre os discentes e docentes. Aliás, a escola cumpre um papel social muito importante, sendo referência para uma comunidade.

O primeiro aspecto da desigualdade é a vulnerabilidade social de muitas famílias que dependem da escola na alimentação de seus filhos, mais do que a educação em si. Também, muitos pais trabalhadores dependem da escola para cuidar de seus filhos, mesmo que seja em um turno. Portanto, não tem a educação como prioridade e, consequentemente, as crianças não são incentivadas a dar o devido valor ao estudo. Então, distante da mentoria dos mestres e sem o apoio da família, esses estudantes ficarão fadados ao fracasso escolar.

Decorrente desse aspecto, temos a exclusão digital, principalmente nas classes populares situadas nas periferias das grandes cidades. Por isso, as opções de orientação aos estudantes por aula online ou material pela internet não estão acessíveis, embora o celular seja o equipamento usual por adultos, crianças e até moradores de rua. Contudo, a internet não é um recurso universal.

Também, até as escolas não dispõem de recursos suficientes para o contato com as famílias das crianças, tal como telefone celular institucional. Um mesmo celular institucional é utilizado por vários professores e é insuficiente para atender a demanda de contato com as famílias. Logo, a orientação por mídia social é breve, precária e insuficiente. Às vezes, produz mais dúvidas do que certezas.

As atividades pedagógicas não presenciais – APNPs foram apresentadas como estratégia atenuante para a aprendizagem perdida nesse mar de incertezas. Mas cadê o professor? Como avaliar o esforço e o desamino por não dominar as proficiências das questões apresentadas? Claro, as APNPs nivelaram os estudantes ao mesmo patamar meritocrático. Ficaram entregues a sorte de sua aspiração acadêmica, mesmo diante da estrutura prometida que ficou comprometida ao longo do percurso acadêmico.

Por outro lado, professores ficaram receosos até mesmo com a simples manipulação de papéis, mesmo cercando-se de cuidados. Além disso, sucumbiram à angústia quanto ao retorno das aulas sem a devida garantia de segurança sanitária. Um dos fatos que corrobora para esse sofrimento é o bombardeio de notícias na mídia e fake news. Sim, algumas discussões em rede social acusam os professores de leniência ideológica e desinteresse, ignorando suas reais motivações.  Por outro lado, há pais que consideram imprudente enviar seus filhos para escola sem as devidas garantias.

Li vários artigos e algumas lives sobre o tema “A educação na pandemia”. Algumas palestras com argumentos bem repetitivos e repletos de frases genéricas como: “Precisamos nos adequar ao novo normal”. Sim, e daí?

De todas as palestras, quero destacar a exposição do cientista político Daniel Tojeira Cara, na Assembleia Municipal de Educação da Serra – AMED, realizada no 30/09/2020. Em sua palestra disse que a pandemia causou impactos irreversíveis na área da educação, impactando sua qualidade do ensino, estrutura e financiamento. Isto porque a pandemia não representou o incremento de recursos na educação, pois o foco agora dos governos é o investimento na saúde e nos atenuantes da crise econômica.

Concordo com o Daniel Cara, quando ele diz, que a pandemia do coronavírus inevitavelmente compromete ainda mais a qualidade da educação, pois o investimento público vem caindo ao longo dos anos, impactando na formação docente, na estrutura e outros insumos básicos. O investimento é fundamental, pois a educação é cara e o investimento em pessoas demanda tempo e recursos ao longo dos anos. Isto, porque o ser humano não é forjado como ferramenta de fábrica, mas em sua personalidade que é desenvolvida por meio da instrução e das interações sociais durante seu ciclo de vida.

CONCLUSÃO

Tenho opinião é de que o ano de 2020 trouxe resultado inócuo para a aprendizagem das crianças. Tal opinião é corroborada ao saber que alguns pais contrataram aulas particulares para seus filhos. Mas quem não pode, como fica?

Diante da persistência da enfermidade com a 2ª onda, urge necessidade de buscar alternativas para o próximo ano letivo, pois a praga ainda não cessou. Há expectativa de vacina, mas sua aplicação depende da conclusão da fase de testes, como aprovação pela Anvisa e Ministério da Saúde. Então, é precipitado, falar em vacinação em massa, sem existência regular de uma vacina.

A realidade desenhada para educação que todos seriam vacinados antes do início do ano letivo seguinte não se concretizará, porque a aprovação de uma vacina é processo complexo e demorado. Logo, persiste a recomendação da higienização e dos cuidados sanitários, pois estamos rodeados de uma circunstância inevitável e imprevisível que é a pandemia do novo coronavírus. Contudo, ainda há uma esperança para essa geração se incumbirmos da responsabilidade de superar o problema com disciplina e fé.

REFERÊNCIAS

BOTTON, Alain de. As consolações da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2012.

CARA, Daniel Tojeira. Palestra proferida no dia 31/09/2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=5AtJ7wrzAy0

CURY. Augusto. O Semeador de Ideias: que atitudes tomaria se o mundo desabasse sobre você? São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2010.

PONDÉ, Luiz Felipe. Entrevista na TV Brasil no dia 31/05/2020. Disponível em https://tvbrasil.ebc.com.br/impressoes/2020/05/epidemia-e-uma-doenca-social-diz-o-filosofo-luiz-felipe-ponde acesso em 18/11/2020.

SERRA, Secretaria Municipal de. Documento de Orientações às Escolas Municipais de Ensino Fundamental para fins de Teletrabalho, 2020.

________ Portaria nº 008/2020. Autoriza a realização e distribuição (impressas ou online) de atividades pedagógicas não presenciais – APNP nas unidades de ensino por meio do regime de teletrabalho e dá outras providências em razão da epidemia de doença infecciosa viral e respiratória – COVID 19 (novo coronavírus).

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

SÃO APENAS PALAVRAS

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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Há tempos, busco a inspiração para falar sobre a sensibilidade que aflora da voz do coração. Falar da expressão de louvor da natureza na sua forma mais singela. Isto despido da automação da vida moderna que suga nossas energias mentais. Por vivermos na era da velocidade, ficamos cegos com o pragmatismo da máquina e da rotina burocrática. É preciso desacelerar para descansar os olhos e ouvidos da poluição visual e sonoro que nos acomete.
1.    A MÚSICA DE DEUS
Gosto muito de ouvir os diferentes sons e perceber a variedade de tons que existem na natureza. A beleza da criação se revela na orquestra dos pássaros e no sussurrar das folhas das árvores ao som do vento. São sons maravilhosos que não agridem os ouvidos e enlevam a alma. Por isto, gosto da música de Deus executada pela orquestra sinfônica da natureza.
Esse louvor divino da natureza se apresenta no decorrer do dia de forma espontânea sem cobrar aplausos. É o testemunho de que a natureza dada aos filhos dos homens é perfeita e harmônica. A beleza natural da paisagem traz o aprendizado para os sentidos, resgatando o sabor da existência. As vezes parece que o homem é parte distinta da natureza sem comunhão com os demais elementos.
A sensibilidade parece inédita quando há comunhão com a natureza. Ocorre a restauração da acuidade que se perdeu no decorrer da aceleração do movimento humano. Trata-se de fechar os olhos e ouvir as batidas do coração para sentir o brilho do sol aquecer o corpo e alma. Então, nota-se que existe uma cegueira de entendimento para compreender a vida com sua singeleza. Há uma perda da sensibilidade de viver o prazer da contemplação do belo e ouvir o encanto dos sons inaudíveis da natureza.
Só ouvimos a música de Deus quando temos o silêncio como pausa para a meditação e a reflexão. Nossa vida reclama por essa pausa para descansarmos os órgãos do sentido da agitação diária. Não é preciso tirar férias e viajar para contemplar os ecossistemas naturais. Basta olhar em redor e ver a maior natureza de Deus que é o ser humano. Essa natureza são imagem e semelhança que resvala no divino e reclama no seu íntimo por interação espiritual. Pena que muitos destroem a sua vida por desconhecer essa verdade. Por desconhecer seu valor não veem a grandeza da alma e julgam ser a mais insignificante das criaturas.
O silêncio parece monótono e invoca percepções de tédio, confundindo com a própria solidão. Mas o silêncio dá a oportunidade para ouvirmos a voz da alma e seus ensejos mais profundos. Pena que muitos têm medo estar sozinho em silêncio para ouvir sua alma reclamar por paz e padecer com a sensação de vazio existencial. Logo, acham que a tristeza e a frustração são males a serem evitados.
Mas quero estar a sós em silêncio para falar com Deus. Desligar da matéria e dirigir aos céus a minha súplica. Dar voz ao pensamento e contar os segredos guardados no íntimo até brotar a lágrima. Assim, junto ao jardim de delícias da oração alimentar a fé e a esperança.
O silêncio é a ferramenta para a reflexão dos poetas, escritores e filósofos. É o caminho mais sublime para adentrar no mundo das ideias para colher os frutos saborosos da imaginação e do pensamento. No mundo das ideias, os pensadores estabelecem visões de mundo ou reflexões sobre a realidade. Fogem por um instante da realidade para adentrar na aventura imaginária de um mundo perfeito. Ali desenham nas palavras histórias e lições de vida, tiradas das experiências banhadas de paixões comuns a qualquer mortal. Deixam fluir a sensibilidade, a percepção e a imaginação floreada de sonhos fantásticos.
Aliás o conhecimento produzido pela humanidade fala por meio do silêncio da escrita. Isto porque os pensadores estão ausentes ou são homens mortos. A base de todo o pensamento atual está sustentada em cima de homens mortos. Ou seja, morrem-se os homens mais permanecem suas ideias.
Essas ideias existem para serem apresentadas como pérolas nas nossas rodas de conversas, tal como deleite de um jogo de cartas. As opiniões divergentes são palpites que saboreamos com divertidas risadas ou como quadro pintado a várias mãos. Ficamos entretidos pelas ideias para autoconhecer-se, mas nunca para duelarmos pela razão até alcançarmos a solidão vencedora dos argumentos.
O silêncio se opõe a agressividade da gritaria, o palavrório da multidão e dos sons das máquinas. O silêncio pode ser a resposta mais prudente para a estupidez humana. Bem diferente dos estridentes sons que causam irritação e gradativas perdas da audição.
2.    A INTENSIDADE DA VIDA MODERNA
A intensidade da vida moderna faz-nos desacostumar do silêncio. Então o barulho passa a ser reclamado para uma emoção mais intensa nessa rotina alucinante. Busca-se mais adrenalina, pois o estado de êxtase ilude a própria alegria.
Então, diante dos barulhos, perdemos a capacidade de ouvir a simplicidade da música de Deus, produzida por sua obra criadora. É uma voz que soa no momento do silêncio, da calma e na serenidade do espírito.
O tempo moderno tem levado como folha ao vento a suavidade do sussurro. O contraditório do diálogo transforma-se em uma arena de enfrentamento de opiniões divergentes. Aumenta-se a intensidade da voz no calor do debate, podendo evoluir para ofensas até mesmo em questões triviais.
Acostumamo-nos com a velocidade da automação tecnológica presente no nosso cotidiano como se vivêssemos no universo da fantasia. O fetiche trazido pela revolução industrial faz com que o tempo seja absorvida pela eficiência e a padronização. Logo cremos que as maravilhas do conhecimento humano são indispensáveis para termos sensação de bem-estar físico e mental. Ninguém conseguirá sobreviver sem as benesses da tecnologia.
Isto percebemos quando as trevas nos surpreendem, devido aos acidentes da engenharia elétrica. Acontece nos momentos inesperados e a vela ou candeia está escondida no fundo das gavetas por acreditarmos na perenidade da eletricidade. É o mundo perfeito da ciência e da tecnologia que desmorona diante dos nossos olhos. Vem a lembrança do século pretérito marcada pela interação do homem e a natureza para usufruir dos recursos naturais para sua manutenção e sobrevivência. Julgamos que essa experiência representa o atraso da civilização que não foram abençoadas pela produção científica.
Sem os recursos da tecnologia, ficamos como presas frágeis, indefesas diante da eminente ociosidade. Parece que não sabemos o que fazer sem os recursos da mídia para nos entreter. O que diríamos para os nossos infantes acostumados com os recursos online, se forem privados de suas redes sociais?
Isto mostra como a tecnologia criou o engodo da autossuficiência da automação, tornando o homem mero coadjuvante das atividades sociais e econômicas. A inteligência artificial da máquina ganha personalidade própria e submete a rotina humana à sua programação.
Então, descobrimos que não temos segurança para olhar para o retrovisor da nossa história. Parece difícil apanhar as pérolas sagradas na nossa experiência e rirmos dos casos e cacos como algo tão particular e, ao mesmo tempo, sublime.
CONCLUSÃO
Essa perda da sensibilidade é reflexo da ignorância voluntária trazida pelo progresso. Trata-se da mecanização do homem que faz o seu trato diário uma subserviência à lógica do capital. Até mesmo o prazer torna-se uma mercadoria ao sabor das emoções em mundo individualista. Então, as coisas mais sublimes como o amor torna-se coisificado como se fosse possível materializar os sentimentos.
REFERÊNCIAS
BOTTON, Alain de. As consolações da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2012.
______. Desejo de Status. São Paulo: Saraiva, 2013.
CURY. Augusto. Os segredos do Pai-Nosso. A solidão de Deus: um estudo psicológico da oração mais conhecida no mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

LOPES, Hernandes Dias Lopes. Voando nas alturas: dez princípios para uma vida bem sucedida. São Paulo Editora Candeia, 1996.

sexta-feira, 24 de março de 2017

QUANDO AS EXPECTATIVAS FALHAM

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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Falar de expectativas é refletir sobre as motivações e convicções que movem os nossos olhos para o lugar onde gostaríamos de estar. Geralmente nossa imaginação faz uma viagem em direção ao sonho como se estivéssemos no oásis da felicidade. Devido a beleza do sonho, nos empenhamos no caminho e no caminhar. Contudo, o caminho do sonho é construído a partir de decisões sábias. Tal como o patriarca hebreu José, não estamos isentos de frustrações e das lições que esses momentos têm para nos ensinar.
O ENCANTO DA EXPECTATIVA
Ao olhar o horizonte, captamos a beleza da montanha que, mesmo diante da sua grandiosidade, não pode ser escondida pela engenharia das construções que povoam o solo do nosso habitat. Percebemos que o encanto da expectativa que temos não pode ser encoberto por maior que seja o obstáculo para alcançá-la. Porém, quanto mais descemos à intimidade do solo, ladeados de obstáculos, mais distante ficamos da possibilidade de contemplar os montes. Na frieza do piso terrestre, temos a materialidade das limitações de que qualquer expectativa se perde em meio ao caos. Doutro modo, precisaremos de força extra para enxergar socorro e refúgio.
Então me lembro que os hebreus, ao entoarem os cânticos das subidas, expressavam o calor da fé inabalável acima das circunstâncias. Eles olhavam para as montanhas para contemplar a esperança do socorro divino. Eles tiveram a grandeza de perceber que a montanha não era apenas obstáculo a ser superado. Podia ser refúgio e esconderijo contra as tempestades mentais e as flechas da autocomiseração. Da montanha, podiam organizar as estratégias com as armas da fé, ter supremacia sobre o medo e alcançar a vitória.
A montanha fala do tamanho da nossa dificuldade e da forma como enxergamos os problemas. Às vezes, o problema é pequeno, mas o medo nos faz perceber como anões lutando contra gigantes. A força do desespero suga as energias físicas e mentais e impõe o seguinte dilema: ter uma postura acovardada ou render-se ao milagre da fé? Desistir ou continuar lutando até triunfar?
Nisto nos ensina o pastor e ativista Martin Luther King (1929 - 1968 a lutar pelos ideais, contrariando as próprias expectativas. Ele lutou com convicção de modo a inspirar pessoas a acreditarem que sua luta era verdadeira e traria equidade social. Logo, mesmo que a batalha seja renhida, não lutamos contra seres humanos, pois eles erram por causa da ignorância. A nossa luta primordial é contra a própria incredulidade em relação ao nosso potencial. Também, lutamos para adquirir conhecimento e nos libertar das algemas da ignorância. Assim, com o conhecimento, poderemos ter convicções sublimes capazes de inspirar outras pessoas. Aliás, verdadeiros líderes não buscam seguidores como se fossem mercadores de ideias. Pelo contrário, atraem seguidores pela riqueza das suas convicções e experiências.
A RELAÇÃO FRACASSO E SUCESSO
O sucesso não é um fenômeno herdado, mas a coroação de um trabalho árduo construído com as pérolas da inteligência, utilizando as oportunidades que surgem no decorrer da existência. Ele é escrito diariamente nas páginas da vida com as tintas preparadas com a lágrima, o suor do cansaço e o calor da ansiedade, com entusiasmo e alegria. Requer sacrifício diário no altar do comprometimento e da obstinação com a causa que nos empenhamos.
O fracasso que experimentamos em nossos empreendimentos não representa o fim da história. Reporta a máxima “de perder para ganhar”, com gota ardente de sacrifício de suor e lágrimas. A tristeza inaugural da derrota nos leva a perguntar: Por quê?  Logo, as perguntas são a fonte para a busca das respostas. O cérebro reúne os elementos racionais para extrair a explicação lógica. Os sentimentos são convocados para imaginar a retrospectivas em flashback de cada ato falho e a desenhar o caminho propício.
Quando as expectativas vão se agigantando a cada dia, ficamos sórdidos na autoconfiança por acreditar no enquadramento da rotina à nossa zona de conforto. Então, descansamos na certeza de que as estratégicas são factíveis para o sucesso dos planos de comodidade no tempo vindouro. Acreditamos que o comprometimento diário se reverterá adiante em um patrimônio moral inesgotável e que o legado será inspirador.
Nossa imaginação flerta com o universo celestial no antegozo do divino. Almejamos a paz sublime repleta da perfeição da natureza e da harmonia fraterna. Nossa ideia máxima é repleta de boas intenções, mas ao celebrar a perfeição no universo fantástico dos sonhos, temos os olhos vendados para os erros inevitáveis.
Na verdade, a infâmia do fracasso é causada pela falta de entendimento da realidade e suas possibilidades. Por isso, pessoas correm de um lado para outro em busca de soluções mágicas e apresentam suas libações no altar das superstições. Muitas dessas superstições se baseiam na onipotência de pensamentos – o meu pensamento tem poder! Então, inconscientemente acreditam na conexão simbólica entre o pensar e o realizar como forma de influenciar os deuses e as forças da natureza. Mas tudo isso, não passa de atalhos ilusórios, paliativos de problemas bem maiores relacionados a autoestima e a incredulidade. Esses atalhos supersticiosos expõem publicamente a crença no panteão da felicidade por meio de escambos espirituais.
A gênese da humanidade é materialista e individualista. Logo o caminho do sucesso tem obstáculos relacionados à corrupção coletiva do gênero humano. A inveja e a trapaça dos outros não devem ser ignoradas nesse empreendimento individual. É possível que alguém te veja como concorrente e não como parceiro da vida. Contudo, não existe voo solitário, dependemos uns dos outros para a consecução dos nossos objetivos.
A bem da verdade, algumas pessoas fizeram a opção de fracassar no projeto existencial e por ignoraram as placas de sinalização da responsabilidade moral. Infelizmente, muitos lançam seu projétil a esmo e, como bala perdida, atingem nossa verdade e confronta a nossa equidade. Aliás, essa é a ilusão de quem utiliza sua liberdade sem consciência da sua responsabilidade moral.
Em cima da tragédia dos fracassados por irresponsabilidade moral e social, surge a ideologia de proteção às vítimas sociais, invertendo os valores da virtude daqueles triunfaram na vida com méritos. Por essa ideologia a culpa pela tragédia dos fracassados é transferida para aqueles que alcançaram o sucesso e a toda a sociedade. Ignoram que o fracasso é consequência da liberdade de consciência e das atitudes erradas como a negligência e a rebeldia.
Há sempre alguém que pensa que a liberdade é salvo conduto para impor seu individualismo e outros adereços do ego até as últimas consequências em busca de satisfação eminentemente carnal. A liberdade tem um valor inigualável, mas impõe limites morais com objetivo de preservar a sociedade da opressão do mais forte sobre o mais fraco. Por isto, o mau uso da liberdade causa separação, violência e degeneração social.
APRENDENDO COM AS ADVERSIDADES
Descobrimos que somos frágeis, como pássaros, diante das tempestades quando são frustrados os planos de voo.  Às vezes, somos induzidos a acreditar que voar é o símbolo maior da liberdade. Contudo, a liberdade real é consequência do autoconhecimento que, por sua vez, pressupõe um aprendizado persistente em dominar os obstáculos. Nossa liberdade de voar nos planos da imaginação depende da força das circunstâncias que, por vezes, se encontra com as adversidades.
Essas adversidades não nos perguntam a oportunidade e intensidade para chegarem a porta da nossa vida. Também, não pedem educadamente licença para entrar nem perguntam se há espaço na nossa agenda e diário de bordo para assumi-la incondicionalmente. Então, a adversidade não aceita suas desculpas de que não está preparado emocionalmente ou que não tem recursos para assumir todas as consequências. Aliás, é impossível prever a dimensão desse oceano de infortuno que tenta nos afogar com suas ondas de ansiedade e stress.
O universo da dor proporciona,, na medida da sua intensidade, a renúncia à autossuficiência e expõe as fragilidades do ser humano mais incauto e arrogante. Nesse momento, busca-se nas trincheiras da alma a arma de defesa mais apropriada para salvar o resquício de egoísmo e individualismo. Aliás, a dor traz a radiografia da fragilidade do bioma humano no confronto direto com a razão.
Claro todos nós somos tentados conforme as nossas convicções e visões de mundo ideal. O universo das ideologias é confrontado quando a nossa expectativa de um mundo perfeito é frustrada por meio de uma fatalidade que vem em nosso encontro.
Então, somos provados quanto a resistência emocional para lidar com os problemas. Somos bombardeados intensamente por questionamentos relacionados à justiça e à equidade do caráter. Além disso, brota sentimento de culpa e de autocomiseração.
CONCLUSÃO
O âmago do ser humano é ter vida estável isenta de frustrações, mesmo consciente dessa impossibilidade. Ensejamos pelos estritos parâmetros da felicidade como se a existência finita se esgotasse nas perspectivas de um mundo perfeito. Por outro, saturamos com a rotina e desejamos que a experiência seja renovada para que nossa história seja coroada de glórias. Contudo, as lutas são elementos desafiadores para os nossos processos mentais e, de forma inequívoca, torneiam a nossa inteligência, dando-nos as estratégias para triunfar.
Entendemos que a história é dinâmica tal como um barco que navega no oceano da existência. Às vezes navegamos nas águas calmas da rotina e da acomodação e ficamos satisfeitos com a liberdade da nossa felicidade. Em outros momentos, as ondas tenebrosas dos acontecimentos nos querem afogar nos sentimentos de desespero e desânimo. Então, percebemos que a reflexão sobre o propósito da adversidade nos levará a um aprendizado.
REFERÊNCIAS
BOTTON, Alain de. As consolações da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2012.
______. Desejo de Status. São Paulo: Saraiva, 2013.
BRIZOTTI, Alan. Identidade Cristã: resgatando a verdadeira identidade. São Paulo: Primícias, 2013
KOYZIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Editora Vida Nova, 2014.

LOPES, Hernandes Dias. Voando nas alturas. São Paulo: Hagnos, 2015

terça-feira, 20 de setembro de 2016

EU TENHO FÉ E ESPERANÇA

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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Diante das circunstâncias, encontro renovação do espírito na esperança, considerando que adversidades foram vencidas com fé e perseverança. Apesar de todas as implicações psicológicas, percebo que o caráter é forjado nos momentos de pressão e adversidade.
O ECOSSISTEMA DOS SONHOS
Acordar bem cedo é como desfrutar da experiência da ressurreição do corpo que se entrega a fraqueza do cansaço para desfrutar da renovação da vida no amanhecer. Quando o corpo repousa das energias gastas no dia-a-dia, temos a sensação de que a alma caminha em direção ao universo fantástico dos sonhos à procura da fonte da vitalidade no afã de encontrar a imortalidade.
A partir daí surgiu a parábola do sono para ilustrar a morte e o renascer da esperança de uma nova vida. Isto porque o homem se recusa a aceitar a morte como capítulo final da vida e reconhece que a essência imaterial do ser humano está revestida da imortalidade. Essa essência imaterial é entendida como alma.
Também, acredito que a mente encontra no ecossistema dos sonhos: ideias, vitalidade e esperança. O ecossistema dos sonhos é tão fantástico que, na maioria das vezes, esquecemos as imagens dada a liberdade de encontrar o verdadeiro EU isento de mecanismos de qualquer repressão. É como se o homem interior viajasse na exploração do mundo espiritual e não comunicasse a nossa consciência sua dimensão e significados devido a imaturidade da nossa mente para entender tamanha grandeza.
Alguém porventura argumentará que o sono tranquilo é a evidência de paz interior e de uma consciência livre. Dirá que o sonho é o jardim de delícias para aqueles que desfrutam da paz como companheira inseparável inclusive nos momentos mais difíceis da vida. Enquanto outros enfrentam o açoite dos pesadelos que vão de encontro dos seus medos e temores diante da culpa e do ressentimento de uma mente debilitada.
O sonho tem a razoabilidade na mente dos cientistas que a tratam como atividade mecânica do cérebro por meio reações químicas produzidas pelo organismo humano. Pensam que a emoção, a sensibilidade e múltiplas informações da memória encontram campos férteis no universo dos sonhos. Consideram as imagens dessa aventura mensagens do cérebro diante do bombardeio de informações recebidas cotidianamente que se manifestam em resposta ao temor ou ao desejo.
Algumas teorias tendem equivocar o impacto do espiritual para remeter todas as informações esquecidas ao termo mental inconsciente como se o sonho fosse resultado de reações químicas do cérebro impactados pela multiplicidade de informações que não conseguiu absorver empurrando-as para a despensa da alma. Invocam a influência dos desejos, dos medos e da culpa despertados no momento do sono por meio de cenas fantásticas.
Para o médico psiquiatra e psicanalista Augusto Cury, a memória não é seletiva quanto ao registro das informações que recebemos no dia-a-dia. Cada pensamento e emoção é registrado na memória automaticamente e não é descartado com o tempo. O problema não é a informação boa ou ruim que recebemos, mas a forma como a interpretamos e dela iremos utilizar para o proveito ou destruição da autoestima. Essa é a razão porque devemos cultivar pensamentos e emoções saudáveis para termos boas influências na autoestima, inteligência e tomada de decisão.
Especialistas no estudo da mente acreditam que no depósito da memória estão guardadas muitas informações não processadas pelo cérebro que retomam a consciência em forma de lembrança nos sonhos. Contudo, a relação da memória com a mente continua envolta em mistério, suscitando várias especulações e teorias.
A COMPLEXIDADE DA ALMA E A NATUREZA DA FÉ
Algumas vezes, somos impactados pela lembrança do sonho a ponto de entendê-la como uma comunicação divina de propósito e de acontecimentos futuros. Amparados na crença, buscamos explicação para os significados dos códigos e das imagens que nos foram apresentadas. Cremos na conexão divina, da revelação do desconhecido no sentido de entender o propósito das circunstâncias que nos serão apresentadas.
Embora o sono seja uma atividade mecânica, os sonhos trazem enigmas a serem desvendados com relação da dualidade do corpo e alma/espirito. A crença que o corpo é o tabernáculo da alma se mostra com nitidez quando a matéria repousa e o espírito apresenta sua condição de imaterialidade complexa.
Alguns pesquisadores ao dissertarem sobre a dualidade corpo e espírito, concluíram que a psique humana tem uma afinidade com Deus e está além dos limites da consciência. Aliás, a consciência é incapaz de conceber a dimensão da alma, pois o transcurso da alma quando o corpo está inerte será sempre desconhecido inclusive para as mentes mais brilhantes. Diante desse mistério, amparamos a crença de que a resposta se encontra no fundamento divino da existência da vida. Portanto, alma é a chama ou combustível da vida, pois sem ela o corpo seria um cadáver. Essa essência espiritual da alma abre janelas na mente para abrigar a fé com resposta à vida.
Nesse aspecto surge a teologia de que os olhos da alma são a fé e a esperança. A fé é a firme convicção da verdade que temos sem a exigência absoluta da prova de que seja verdade. A fé ocupa os espaços que a evidente existência da matéria não consegue preencher nem a sensorial lógica empirista pode explicar. Surge como alternativa para superar os limites estabelecidos pela lei da natureza e a superação da lógica racionalista.
Por contrariar a ética das possibilidades, a fé flerta com o impossível, proporcionando acontecimentos fora do comum que não reúnam argumentos para explicá-los.Então, acusamos o milagre amparados na crença do sobrenatural. Acreditamos que o milagre deixa de se apresentar nas circunstâncias do acaso e, pela perseverança da fé deixamo-nos envolver pela esperança.
A abstração da fé só consegue ser tocada pela necessidade da alma de se conectar com o divino. Ela apela para a natureza sobrenatural da alma para expressar a sede de imortalidade que nenhum ser humano conseguiu satisfazer com sua concepção carnal. Por isto, a fé testemunha a existência do favor divino antes da sua materialidade, amparada no fundamento da graça irresistível. Então a fé enfrenta no plano da consciência uma batalha intrépida para esmagar a dúvida e faz resplandecer a esperança no meio do caos.
Há de se conceber que a fé está amparada no conhecimento da verdade, isenta das comprovações sensoriais empiristas. As riquezas da tradição oral das concepções de fé dos antepassados foram reunidas no livro sagrado para transmitir o conhecimento, a verdade e a justiça de geração em geração. Não há como negar que as concepções moral e ética foram construídas no universo da fé no sentido de estabelecer valores humanos nas relações interpessoais. Faz-se a escola da vida na seara dos pensamentos, palavras e ações, apresentando doutrina moral na qual há consequência em cada decisão tomada à margem da sua crença.
Por ser uma virtude excelente atinge as faculdades da alma: emoções, inteligência e vontade. A fé é uma experiência repleta de fervor da emoção e mexe com as sensações humanas: ansiedade, tristeza, alegria. A fé é uma arma contra o medo, pois, apesar das adversidades que conspiram em favor das dúvidas, ela fortalece cada vez mais as convicções.
A fé é inteligente porque está amparada no sistema de pensamentos que existe desde os primórdios da humanidade: a religião. Alguns ideólogos quiseram desqualificar a fé ao conceituá-la como meio de fuga das pessoas ignorantes para se alienar diante dos problemas sociais e políticos que enfrentavam. Por isso, alguns agentes políticos, no afã de querer prevalecer sua ideologia marxista, impuseram estratégias para anular qualquer forma de teísmo e de crença. Contudo, vacilaram pois não conseguiram anular a necessidade do ser humano que de se conectar com o divino – anseio primitivo da alma que reclama por imortalidade.
A imortalidade surge da esperança por que a alternativa biológica dos seres de perpetuar-se por meio dos seus descendentes não satisfaz a sede de eternidade que reclama o espirito humano. O ciclo de vida comum a todas as pessoas é finito, realça a brevidade da vida com a seguinte reflexão:
 -  Nossa existência humana é breve. Nossos dias passam rapidamente como um conto ligeiro. Rubem Alves destacou que na percepção das crianças um dia inteiro é longo, mas para os adultos, as horas passam num momento, frustrando nossas expectativas. Logo, lamentamos como a idade avançou sem que antes pudéssemos realizar aquilo que havíamos intentado fazer e sentirmos satisfeitos.
-    Nossa estrutura humana é frágil, por isto nos debilitamos física e mentalmente diante de circunstância adversas no ambiente e relacionamento, estando sujeitos a doenças e acidentes que provocam dor e debilidade.
-   Estamos rodeados de inúmeros perigos e nossa existência pode ser interrompida a qualquer momento. A convivência humana é marcada por conflitos pela qual a presença do Estado tem sido insuficiente para pacificar as tensões. As contendas, pelejas e inimizades tem gerado mais vítimas do que a pior das epidemias conhecidas no mundo.
Diante da brevidade da vida, a esperança surge como flecha atirada em direção a eternidade, sustentada na fé de que a existência humana não se esgota com a morte. É o balsamo da consolação para aqueles encontram-se na fragilidade da carne e buscam a robustez da alma no plano espiritual onde encontram convicções além da eternidade.
CONCLUSÃO
É possível perceber que a história tem eventos coincidentes presentes em todas eras. A religião está sempre presente na história das civilizações, mostrando como era a vida das pessoas em comunhão com a sua fé, como herança cultural dos antepassados e meio de firmar a sua identidade enquanto nação. Inclusive as civilizações mais simples construíram o seu conhecimento sociocultural a partir da doutrina da sua crença.
REFERÊNCIAS
Indico a leitura dos seguintes livros:
BOTTON, Alain de. Desejo de Status. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
______. As consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
BRIZOTTI, Alan. Quando a vida dói: Reflexões bíblicas para tratar dores da alma. 1ª Edição – Goiânia: Estação da Fé, 2013.
CURY. Augusto. O Semeador de Ideias: que atitudes tomaria se o mundo desabasse sobre você? São Paulo: Editora Academia de Inteligência, 2010.
GALLAGHER, Steve. O Poder da Humildade: Deus resiste aos orgulhosos mas dá graças aos humildes. Brasília: Editora Propósito Eterno, 2006.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O PREÇO DO DESAFIO


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Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes

INTRODUÇÃO
Desde algum tempo, venho refletindo as razões para o sucesso ou para o fracasso. Então cheguei à conclusão de que nada é produto do acaso. Existe a relação causa x efeito ou atos versus consequência. Alguém pode até pensar que herdou o sucesso por presente dos deuses que lançaram a sorte e o fez prosperar. Comportam-se como aqueles que esperam alguém preparar o almoço ou a cama para elas dormirem. Não existe almoço grátis; alguém está pagando a conta. Quem fica na comodidade à espreita da sorte tem a desculpa de que não foram abençoadas pelas oportunidades da vida. Contudo, sempre acreditei na força do trabalho por motivação intrínseca para atingir determinada finalidade.

OUSADIA PARA REALIZAR SONHOS
Minhas decisões mais corajosas foram tomadas com muito medo e ansiedade. Eram decisões em que os riscos foram confrontados com o altruísmo sob o prisma da razão e do objetivo final que foi desenhado com expectativa de sucesso. O risco do fracasso era evidente e o medo me perseguia a cada passo dado em direção do desafio premeditado. Por vezes fiquei atônito, suando frio, mas não desisti. Sabia que a desistência poderia refletir no arrependimento tardio de não ter tentado e negligenciado nos momentos de tomada de decisão. Por vezes, o arrependimento pelas oportunidades perdidas se armazena na consciência como se fosse a marca de um fracasso. Fica a sensação de que o corpo armazenou por anos sonhos abortados por medo e timidez com a sensação de que se perdeu a oportunidade de agir com ousadia no momento importante de tomada de decisão.
Acredito que as ações mais corajosas não são isentas de sensações e de reflexões morais. A hesitação é tangível e, por vezes, faço questionamentos relacionados a reputação, ao sucesso e ao fracasso. Percebo que o espírito da aventura, acompanhado da ansiedade, mostra que nem todas as coisas se revestem de previsibilidade, mas de possibilidades de sucesso e de fracasso. O fracasso nem sempre representa algo essencialmente mau, dependendo do aprendizado que ele produz. O fracasso se tornou matéria prima do sucesso de muitas pessoas. Elas aprenderam a serem persistentes mesmo quando as coisas não alcançavam o resultado esperado. Aprenderam que a reengenharia do sucesso passa por rever conceitos, ações, entender a realidade ou contextos para que as oportunidades se tornem favoráveis. Assim, com visão otimista e instrumentalizando a inteligência, extraíram da força do trabalho, a realização do sonho.
UMA VIDA COM PROPÓSITO
Então passo a acreditar na importância de ter uma vida com propósito. Propósito significa a razão da existência de todas as coisas. Nada existe sem uma finalidade ou motivo pelo qual foi criado. Por isso, o ser humano deve orientar sua vida por um propósito para descobrir sua utilidade, o valor do serviço ao próximo para que sua vida tenha significância. Doutro modo, correrá intensamente em busca de uma satisfação não definida, corrompida pelo individualismo e pelo egocentrismo em busca de preencher o vazio existencial.
Certa vez, o Dr. Myles Munroe declarou: "Eu acredito que a maior tragédia na vida não é a morte. Mas a grande tragédia na vida é uma vida sem propósito."
Ele explicou que muitas pessoas são infelizes por não tem uma vida com propósito. Por isso, Myles Munroe declarou que “Até que você descubra o propósito pelo qual foi criado, você nunca estará realizado".
Sem propósito, as pessoas vivem a procura de coisas vãs sem ter consciência de si mesmo, do que pode fazer e sem expectativa de futuro. Não tem consciência de importância e a identidade será frágil em relação a expectativa do futuro. Logo não é factível a realização de sonhos. A falta de expectativas e de esperança levam pessoas a procurarem aventuras e ter estilo de vida autodestruitivo.
É a partir do propósito que fazemos os planos para a vida e definimos os limites da satisfação pessoal. Logo, é possível identificar o ponto de partida e o objetivo a ser alcançado. Toda realização de um sonho só é possível a partir de um plano no qual todos os riscos e o valor do prêmio foram calculados. Contudo, não haverá significado (ou importância) se não tivermos consciência do propósito. Claro, a partir de novas vivências e experiências vamos construindo novas identidades, pois o conhecimento possibilita ampliar a visão de mundo.
Não existe significado pessoal se não houve sentimento de utilidade e valorização do mais simples ser humano. O verdadeiro sentimento de importância é desprovido de orgulho pessoal. Algumas pessoas foram embriagadas pelo conhecimento e ensoberbeceram pelo sucesso que ele proporcionou. Julgaram-se mais excelentes que os demais seres humanos, Cultivaram a divinização do ego imputando insignificância as pessoas desprovidas de qualificação profissional e de status.

O PREÇO DO SUCESSO
Não quero estar no berço esplêndido das imaginações, sem empenhar pelo resultado esperado. Não folgo com o acaso e o inesperado. Às vezes, tende-se acreditar na sorte como presente dos deuses em resposta a crença na onipotência do pensamento. Alguns acreditam que seus pensamentos têm tanto poder que podem influenciar no curso da natureza e do destino. Creditam ao universo metafísico as alterações e oportunidades que lhe proporcionarão sucesso.
Acredito que a programação das ações, aliadas a persistência e a capacidade de superação conduzem ao resultado projetado no universo dos sonhos. Logo não há soluções mágicas e resultados instantâneos. Isto implica em avaliar o preço a ser pago, pois nenhum objetivo será alcançado sem a ação sacrificial. O sacrifício pode ser entendido como a entrega de algo valioso em troca de algo mais valioso ainda. Assim entendido, temos valores materiais e imateriais a renunciar quanto pleiteamos algo mais excelente. Por exemplo: o estudante está disposto a abrir mão do lazer e até mesmo do repouso como sacrifício em prol de um prêmio maior para ter acesso a universidade ou aprovação em concurso público em sua área de formação. Ao final percebe-se que o sacrifício traz o triunfo como recompensa.
Quando buscar o segredo do sucesso profissional de alguém, deve-se perguntar: “Qual foi o seu preço para alcançar tal resultado?”
O sucesso na vida profissional é o resultado de anos de aplicação nos estudos. Não há como aferir as horas de lazer e os fins de semana que foram sacrificados, a noite de sono perdida, a ansiedade e o medo. Isto faz o mais aplicado dos estudantes ser especial por que se compra com a ansiedade e o cansaço, a felicidade e a estabilidade da vida no futuro.
É preciso viver o presente com expectativas para o futuro. Isto implica na capacidade de sonhar e de fazer planos. Ter a capacidade de imaginar a realidade trazendo no futuro próximo sensação de bem-estar e de conforto. Acreditar que o dia-a-dia é necessário plantar sementes de relações interpessoais sadias, pois a verdadeira amizade providenciará a solidariedade orgânica no momento da adversidade.
É importante desfrutar do vigor da juventude e o prazer de suas experiências sensórias, mas nunca se descuidar de suas responsabilidades individual e coletiva. Aqueles que são ávidos por liberdade e diversão como se fosse o único néctar dos deuses apresentados aos seres humanos no esplendor da sua força no decorrer dos anos, perceberão o desencanto pelas agruras da vida. Logo, é preciso ser sóbrio na provisão da vida para os momentos da adversidade.
Claro todo o ser humano é ávido pelo prazer e o bem estar, mas é importante ter cuidado para não ser escravo do entretenimento. Hoje a tecnologia tem roubado a naturalidade das relações plantadas pela convivência amorosa, substituindo-a pela artificialidade das amizades online. A dependência física e psíquica por experiências sensoriais, aflora pelo néctar viciante da adrenalina. É enganoso viver intensamente as aventuras e mergulhar na ilusão ter usufruído de todos os prazeres na perspectiva de existência finita. É como se o mundo estivesse prestes a se acabar e privasse de desfrutar a vida com sabor carnal, tal como a frase: “Comamos e bebamos que amanhã morreremos.”   
Nenhum sucesso é plantado com ociosidade. Tudo requer sacrifício em prol de algo mais excelente. Portanto, viver intensamente é administrar a própria vida com conhecimento, entendimento e sabedoria. O conhecimento é a forma como abstraímos a ideia ou noção das coisas. Por outro lado, o entendimento é mais profundo do que o conhecimento pois implica na compreensão da finalidade das coisas. A Sabedoria significa tomar as decisões adequadas com responsabilidade, usufruindo de senso moral e ético elevado, superando o orgulho e o individualismo, privilegiando a humildade e o respeito ao próximo. Ter sabedoria não depende de graduação ou posição social.
CONCLUSÃO
Sou tentado a buscar novos significados para a vida na direção das oportunidades que me são apresentadas e levam a explorar os limites da capacidade de cognição e de iniciativa. Claro, a mesmice pode até produzir certa zona de conforto, mas cansa. Não produz o entusiasmo próprio da experiência inédita. Por isto, gosto de ver o brilho nos olhos pela oportunidade de realização do sonho. Essas antecipações mentais ajudam a visualizar o resultado. Ou seja, vivenciar o fim antes do começo por meio da imaginação. Acredito que o homem se renova a cada dia no universo dos sonhos e coloca passos no futuro com a confiança de melhorias de vida, conforto e segurança.
REFERÊNCIAS
Recomenda a leitura das seguintes obras:
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
­­_______. As Consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
CURY, Augusto. O semeador de ideias. São Paulo: Academia de Inteligência, 2010.
LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.