sexta-feira, 29 de junho de 2012

ENSAIOS DE AMOR

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Após muito hesitar, resolvi escrever sobre amor. Considero um tema muito teórico, partindo de um ideal de vida prática que, se cumprido, mudaria a história do mundo. Contudo, todos nós estamos em débito com a virtude mais excelente, devido às falhas constantes emanadas do ego. Claro, ainda a nossa vaidade fala mais alto do que as nossas convicções. Também, o individualismo tem primazia sobre a solidariedade e a misericórdia.
Também, esse é um tema presente nas conversas teológicas, nos ensaios científicos e pano de fundo em muitos textos existencialistas. Aliás, as vertentes filosóficas que mais me identifico são a fenomenologia e o existencialismo. Gosto muito do existencialismo de Martins Heidegger (1889 – 1976) e Soren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855) com o seus conceitos sobre livre-arbítrio e outros. É sabido que o filósofo Jean Paul Sarte (1905 – 1980) se apropriava dos romances que escrevia para divulgar suas ideias existencialistas.
O AMOR COMO JOIA DO ENSINO E PRÁTICA TEOLÓGICOS
O amor é a joia maior nos ensinos teológicos, tendo como máxima: “Deus é Amor”. Assim sendo, sua relação com os seres humanos reflete características de sua personalidade e atributos. Essa relação amorosa é também sacrificial e graciosa, indo além das intenções humanas, traduzindo uma relação: criador e criatura, pai e filho. Por isto, o termo “ágape” é frequentemente utilizado no cânon bíblico.
Gosto muito do ideal do sermão da montanha, pois transmite a mensagem que o amor está em oposição à ideia de supremacia sobre as demais pessoas. As palavras mais presentes nesse sermão é serviço, sacrifício em prol de relações humanas fraternas e transformação de vidas. Assim, cada pessoa capitaliza o serviço e exemplo como coerção amorosa de princípios morais absolutos, induzindo alguém a questionar os seus valores e ensejar por mudança.
Essa ideia de amor como relação de serviço e sacrifício está presente nos escritos paulinos. O amor é a força motriz das virtudes mais excelentes do cristianismo; está acima de qualquer motivação egocêntrica, possessiva e ações altruístas. Aliás, sem o amor qualquer ato de bondade é destituído de tons e significados, podendo ser meio de promoção pessoal ou até mesmo forma de aliviar a culpa da consciência pela negligência com o próximo.
Nos ensinos sobre o amor, surge a solidariedade contextualizada e provida de significados. Trata-se da condescendência, que nos leva a se colocar no lugar de alguém como estivesse vivendo a mesma situação. Esse jogo de imagens visuais produz sofrimento, lamento pela situação dos oprimidos e constrange adoção de medidas reparadoras. Aliás, “paixão” é o sentimento que produz angústia, tristeza e provoca fascínio em ajudar alguém necessitado. A palavra “paixão” vem do latim “passion” e significa literalmente sofrer ou suportar uma situação difícil. Um dos termos mais conhecidos da humanidade é “paixão de Cristo” que retrata o ponto mais culminante da doutrina vital do cristianismo: a salvação sacrificial dos homens.
O ensino canônico sobre o amor vai à contramão do espírito humano de pelejar em todas as instâncias e situações, indo até as últimas consequências, mesmo que requeira o preço de sangue. Hoje, assistimos a banalização da vida e pessoas morrendo por motivos fúteis. Lamentavelmente, as disputas de poder em todas as instâncias e contextos tem levado a perda de muitas vidas.
O AMOR NO VIÉS POLÍTICO SOCIAL
A moeda da vaidade tem dois lados: esnobismo e autocomiseração. O esnobismo é pretexto para a discriminação de alguém sem status elevado para distingui-lo entre outros de maior valor capitalizado. Assim, cria-se grupo social seleto e isola-se a “ralé” (camada inferior da sociedade). A acepção afasta pessoas e cria desigualdades. Aliás, a ideia de aristocracia ou nobreza foram reproduzidas pela burguesia nas idades moderna e contemporânea e está presente nas representações sociais do nosso dia-a-dia.
Por sua vez, a comiseração é o efeito de sentir pena de si próprio. A imagem das “excelências”, das benesses das celebridades e ricos são vitrines para os mais pobres. Essa ideia de felicidade, vendida na mídia, mesmo ilusória, é um sonho socializado, reforçando os elementos mais sórdidos do capitalismo.  Daí visualiza-se mais desigualdades e sensações de inferioridade. Agora, passa a ser valorizado o ter do que o ser. O caráter passa ter valor relativo e secundário diante da valorização do capital e da fama.
Na teia dos discursos por igualdade, solidariedade e respeito ao próximo, principalmente aos mais pobres, surgem os charlatões que apresentam a ilha da felicidade e da prosperidade. Alguns apresentam o caminho da política como meio de se obter um mundo mais igualitário e fraterno. Contudo, o contraditório aparece nos embates ideológicos da política e nas expressões mais usuais como: confronto, guerra, corrupção e disputa de poder.
Percebe-se que o amor ao dinheiro e aos interesses pessoais vem prevalecendo na política. O amor ao próximo é apenas um pretexto para interesses mesquinhos, apesar das declarações de defesa dos direitos de todos e de cada um.
O amor fraternal (gr. “fileo”) está perdendo adeptos para o individualismo. Também, a banalização da violência pela exagerada exposição na mídia é uma das causas da perda da comoção das pessoas. Nos grandes acidentes, o socorro tem sido relegado e fico impressionado com a população saqueia as mercadorias, mesmo diante das lentes do cinegrafista ávido por notícias sensacionalistas. As grandes tragédias são banalizadas pela rotina como coisa normal, roubando a sensibilidade das pessoas.
Hoje, nem as crianças são poupadas de presenciar barbáries  e até participam de protestos violentos contra policiais. Como seres com imaturidade física, cognitiva, moral, psicológicas, as crianças deveriam ser preservadas e protegidas, ao invés de serem expostas a contextos que elas não compreendem. Por isto, vivemos em uma sociedade em que a insubordinação aos pais, professores e autoridades começa desde a tenra infância. Claro, as crianças se espelham no exemplo dos adultos e aprendem pela imitação a questionar a autoridade, a começar pela família.
O AMOR COMO ATRIBUTO RELACIONAL
Vivemos na época do amor sem disciplina em que a razão dá a tônica da liberdade. Assim, percebemos paixões exacerbadas que revelam relações de domínio opressor. O amor doentio, sem limites acontece quando não se reconhece o respeito à liberdade do outro. Já escrevi um artigo explicando que o direito ao respeito compreende:
  • o direito do outro ser o que ele é e não o que nós queremos;
  • o direito do outro viver a sua própria vida sem impedimentos ou restrições impostas por alguém. Não me refiro àquelas situações em que alguém quer se eximir de suas obrigações legais;
  • o direito de sonhar os seus próprios sonhos e não viver em função de cumprir expectativas ou projetos de alguém;
  • o direito de querer o que é melhor para si e não estar escravizado por caprichos de alguém.
O amor é realçado nas novelas como um sentimento possessivo alheio à vontade, justificando-se todos os artifícios para realizá-lo. Porém, da mesma forma que o amor é mostrado como uma paixão arrebatadora, estranhamente ele muda de foco e de pessoa. A troca de casais revela atitudes mesquinhas, individualistas cuja tônica é o prazer. Não consigo entender porque o prazer é confundido com felicidade. Será que estávamos vivendo a banalização da felicidade, reduzindo-a a um momento de experiência sensorial, descontextualizando da virtude e das relações humanas fraternas.
O amor como abstração ligeira revela os sentimentos mais mesquinhos e egoístas do ser humano, alheio as frustrações de quem em algum momento se sentiu amado de verdade e, depois, descartado com objeto de uso temporário.
Atualmente, surge a defesa da fidelidade ao sentimento e não à pessoa. Ou seja, o sentimento é supervalorizado como uma experiência sensorial e imaginativa, calcada no prazer eminentemente carnal. Deste modo, a naturalidade do desgaste da experiência com o tempo, após esgotar todas as possibilidades de imaginação, torna-se uma condição racional para muitos. O amor é tratado como um resfriado que se pega no ar e desaparece no decorrer do tempo ou, então, como um experimento das probabilidades de afinidades e, nessa tentativa do acerto x erro, muitos têm dilacerados os seus corações. Mas, alguns erros são capitais, deixam marcas irreparáveis para o resto da vida.
Acredito que as asas da amizade, da cumplicidade e do companheirismo nasceram da lealdade e da confiança. A confiança resulta do reconhecimento das virtudes altruístas em alguém, de viver e praticar a verdade, demonstrada por atitudes. Isto leva certo tempo. Depende do momento que a alma é revelada com sua transparência de virtudes e defeitos. Sim, conhecer os defeitos de alguém nos ajuda a administrar situações e nos previne de decepções. A gente se decepciona quando não conhece alguém e, assim, presume conhecer algo e, depois, constata que a coisa é diferente daquilo que acredita.
O contexto das relações entre pessoas passa pelo autoconhecimento e valorização do papel do outro. O princípio da exclusividade da relação amorosa diferencia o ser humano das demais espécies. Bem certo é que algumas espécies cumprem a fidelidade aos seus parceiros.
No contexto científico, surgem as explicações psicofísicas para o amor, principalmente na filosofia de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860) na qual as informações subjetivas são mote para a aproximação de duas pessoas. Nesse caso, o amor seria o meio que o ser humano encontrou para a vaidade e para a necessidade de procriação; isto é, seria a via para que o indivíduo possa perenizar por meios dos seus descendentes.
Segundo Shopenhauer, as escolhas são determinadas pela lógica do aperfeiçoamento da espécie. Assim, explicaria as diferenças nas formações de casais, pois, dessa forma, cada um reflete suas características indesejáveis para se completar com alguém diferente, porém idealmente perfeito, para superar essa condição por meio de seus descendentes perfeitos.
Para tanto, o amor seria o pretexto para homem e a mulher se completar. Contudo, o amor está repleto de riscos e tem o seu preço ou responsabilidade.Logo, ninguém afirma de forma tácita suas pretensões, preferindo os contornos visuais e simbólicos do romance para a aproximação.
Os riscos do amor estão determinados pelas mores, pelos contextos sociais e está presente nas representações mentais de cada um. Sem os riscos, o amor se resumiria em uma experiência sensorial ou mecanismo de procriação e, por outro lado, teríamos um mundo sem regras para proteger os mais fracos, especialmente as crianças. Também, aboliria a instituição família e haveria maior degeneração da sociedade.
Cito o exemplo do filósofo Jacques Rousseau (1712 – 1778) que teve uma vida boêmia e seus filhos não foram reconhecidos por ele. Alguns foram abandonados à própria sorte, outros entregues a casa de caridade e morreram na tenra idade. O reverenciado filósofo quis se eximir da culpa de ser mau pai, repassando-a sociedade. Ele escreveu as obras "Contrato Social"  e "Emílio" nas quais diz que “a criança nasce pura, quem a corrompe é a sociedade”. Assim, ele propôs o Estado Ideal para transferir a responsabilidade das pessoas e das famílias; ou melhor, o Estado Cuidador. A partir desse momento, tudo que aconteceria de ruim (a criminalidade, a prostituição, o consumo de drogas) seria culpa do meio, da sociedade e do Estado que não cumpriu o seu papel de cuidador. Pior que essa ideia prevalece nos meios acadêmicos e político-social e tem muita gente que acredita.
CONCLUSÃO
Acredito que o amor é uma semente pequenina, invisível que é plantada nos corações, cuidada em todo tempo e dá frutos no silêncio do anonimato, longe das luzes dos holofotes. Por isto, as pesquisas vêm comprovando que os pobres são as pessoas mais solidárias da face da terra.
REFERÊNCIAS:
Vou apenas recomendar a leitura dos seguintes livros:
BOTTON, Alain de. Desejo de Status. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
______, filosofia: um guia para a felicidade. Documentário TV Escola.
HART, Stuart L. O capitalismo na encruzilhada: as inúmeras oportunidades de negócios na solução de problemas mais difíceis do mundo. Tradução Luciana de Oliveira da Rocha. Porto Alegre: Bookman, 2006.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

OS DILEMAS E DESAFIOS PARA UMA TRANSPARÊNCIA AMPLA E PROATIVA

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Até que enfim consegui um tempo para praticar o meu hobby favorito: escrever. Atendendo às solicitações, estou escrevendo um artigo sobre um tema muito atual que é a transparência. Neste texto, a transparência é um tema de natureza moral que reflete sobre o caráter das pessoas e uma crítica sobre o que move alguém a preferir a invisibilidade. Não se trata apenas da timidez (característica comportamental), mas de um receio amparado na certeza de que suas ações poderão ser reprovadas.
A IMPORTÂNCIA DA TRANSPARÊNCIA
Percebo a dificuldade de alguém expor o que pensa sem temer a censura ou a argumentação contrária. Às vezes, a verbalização de uma ideia traduz um convite para uma arena de debates. Nossas palavras são carregadas de juízo de valor e não estão isentas de teor ideológico. Aliás, a palavra ‘ideologia’ é bem mais do que um conjunto de ideias. Sua concepção é imprecisa, está em constante transformação e, dependendo do contexto, são aceitas várias definições. Gosto muito da definição do sociólogo Pedro Demo: “ideologia é justificativa das nossas opções políticas”.  Também, gosto da definição dada pelo Dr. Myles Munroe para a palavra “ideia” como a exteriorização de um pensamento lógico que expressa a intencionalidade de uma ação.
Creio que a verbalização de uma ideia ou repreensão pode mexer com os sentimentos mais primitivos de um ser humano. Cada um gosta de ouvir aquilo que satisfaz o seu ego ou é conveniente com os seus interesses. Aquilo que é ruim ninguém gosta de ouvir, tampouco que seja revelado algo que o comprometa. Mas o ser humano é assim mesmo: complexo e contraditório por natureza. É sedento por poder, mesmo que isto lhe custe ultrapassar todos os escrúpulos e penalizar o seu próximo.
Em função disto, surge a ordem legal e jurídica para estabelecer a justiça, a equidade e proteger os mais fracos da violência dos mais fortes. A palavra violência não está somente relacionada à agressão física. Há também a violência simbólica que é uma agressão moral e psicológica e causa danos à alma da pessoa, inclusive para o resto da vida. Por sua vez, a violência institucional é causada pela omissão do Estado no dever de garantir os direitos fundamentais do cidadão. É uma forma de usurpação do poder e do dinheiro público por aqueles que dizem ser representantes do povo.
No arremedo da omissão do Estado surge a guerra da informação, daquilo que supõe enquanto a realidade está encoberta. Controlar a informação e deliberar sobre o que deve ser revelado passa ser uma forma de propalar as virtudes dos detentores do poder e encobrir aquilo que pode suscitar questionamentos de privilégios ou ilicitude. Nesse caso, não tem fundamento as alegações de que o povo é ignorante e que não domina o saber sistematizado a ponto de reivindicar as informações que lhe é de direito. Também, não se sustenta o argumento que a divulgação de determinados fatos pode criar um conflito de interesses e manipulação de natureza política, pois a verdade está acima das pretensões de cada um.
A guerra da informação também é uma disputa de poder e quem a detém pode usá-la como meio de manipulação ou de transformação social. A informação é uma das formas de apropriação do poder, por isto uma das forças das grandes democracias é a imprensa livre e a liberdade de expressão. Essa faculdade do direito permite as pessoas manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos sobre assuntos de seu interesse. Daí surge o fundamento legal para criticar comportamentos e vícios morais dos governos, instituições e pessoas.
A crítica torna-se normalmente um incômodo para os agentes públicos/políticos, principalmente quando ela está robustecida no protesto coletivo. Por esta razão, o mal feito, a corrupção e outras ilicitudes se amparam no argumento do sigilo pessoal e institucional. As pessoas não querem ser vigiadas, criticadas e penalizadas pelos seus desvios morais. Sentem-se privadas de sua liberdade e invadidas em suas atribuições institucionais ou em espaços funcionais. Contudo, está mais do que fundamentado em lei que o interesse público prevalece sobre as questões pessoais, principalmente nas instituições públicas. Logo, essa exigência de visibilidade é mote da transparência publica ampla e proativa.
A transparência ampla é um ideal perseguido por organismos internacionais e por instituições não governamentais, sem vinculação política, que defendem contas abertas e informações disponíveis independentes de solicitação formal. Por isto, a transparência deve ser proativa. Se as informações dizem respeito ao coletivo de pessoas, elas devem ser públicas e notórias bem antes que alguém se manifeste, exigindo conhecê-la.
Dessas minhas observações, resumi em três pontos vários preceitos relacionados à transparência. Ou seja, para que haja transparência ampla e proativa é necessário que: toda informação seja pública, acessível e entendida por todos.
TODA INFORMAÇÃO DEVE SER PÚBLICA
 Segundo o entendimento, referenciado por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), o Estado é a síntese dos antagonismos ou contradições presentes na sociedade. Logo, o Estado é o condomínio que agrega os interesses dos cidadãos e instituições presentes na sociedade, estabelecendo a ordem e o direito. Portanto, o Estado deve prestar contas da competência a ele delegada, dos recursos recolhidos e apresentar os serviços à sociedade que o legitima como poder estabelecido.
Para uma transparência ampla e proativa, as informações devem ser divulgadas em tempo real, utilizando de todos os meios disponíveis, principalmente os instrumentos eletrônicos. Mas, muitos agentes públicos/políticos tem usado a publicidade, patrocinada pelo Estado, como propaganda pessoal para se perpetuarem no poder com requintes de manipulação. Depois, surgem as denúncias do uso irregular de recursos públicos, com inferência da promiscuidade de agentes públicos/políticos com a elite corrupta. Aliás, essa mistura do interesse público com o privado apenas beneficia uma dúzia de criminosos, travestidos de políticos e de empresários de sucesso.
Uma transparência ampla e proativa exige que toda a informação seja pública, inclusive aquela relacionada à remuneração do servidor como meio de vigilância e prevenção contra as ilicitudes e quaisquer formas de corrupção.
Os detalhes da informação são determinantes para perceber as nuanças políticas e sociais, refletindo se o interesse geral foi atendido pelo Estado ou instituições. Uma informação genérica ou incompleta é uma forma sonegar o direito coletivo de conhecer algo de seu interesse.
Ainda existe um mal fadado engodo encoberto na argumentação do sigilo. Não deveria existir sigilo para informação, referentes a ações custeadas com recursos públicos ou de uma coletividade. Todos têm o direito de saber o que está sendo feito com o dinheiro que deles foi cobrado por meio de impostos, taxas e outras formas de contribuições. Também, têm o direito de exigir a forma como gostariam de ser informados para melhor entendimento.
É de lamentar a cultura subliminar no entendimento de muitos de que o Estado é o assento da nobreza e o cidadão é patrício ou plebeu dos quais são cobrados impostos e obrigações, pois isto remete a época da idade antiga e média. O ideal é que o Estado e seus agentes devem se submeter ao interesse público e não o contrário. O Estado deve informar todas as suas ações, pois é a sociedade que o legitima.
TODA INFORMAÇÃO DEVE SER ACESSÍVEL
Para uma transparência ampla e proativa, quando alguém procurar a informação deve encontrá-la independente de solicitação formal. Para tanto, tem surgido, por determinação legal, os portais de transparência nos entes federados e instituições por eles mantidas. Essa acessibilidade visa facilitar a busca pelas informações, evitando a burocracia presente em uma solicitação formal. Isto não é um favor, mas é uma exigência da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência da administração pública. A publicidade dos atos públicos dá ao cidadão a possibilidade de avaliar a legalidade das ações dos agentes públicos/políticos, fazendo uma conexão com o ideal do interesse público e a realidade existente.
Um dos fatores inibidores para alguém buscar acesso a alguma informação era a exigência de expor os motivos da sua solicitação e a negativa do atendimento em função do sigilo. Hoje essa argumentação não tem consistência legal, depois de aprovada a Lei de Acesso à Informação (Lei Federal nº 12.527 de 18 de novembro de 2011). Por essa lei, somente são considerados dados sigilosos aqueles cuja divulgação atenta contra a segurança do Estado e da sociedade. Mas até mesmo o sigilo de algumas informações é questionado por alguns movimentos ligados aos direitos humanos que reivindicam abertura dos dados da Ditadura Militar. Agora, depois da pressão desses movimentos, foi instituída a Comissão da Verdade que busca esclarecimentos sobre fatos relacionados aos crimes da época da Ditadura Militar, mesmo com a reclamação de alguns oficiais militares.
Por isto, sou ardoroso defensor do acesso às informações na crença de que o resgate da confiabilidade das instituições públicas passa por esse caminho. Se existem suspeitas ou insinuação é porque as informações não são de conhecimento geral. Alguém está se sentindo lesado e a forma encontrada para o protesto foi semear deduções de natureza especulativa.
TODA INFORMAÇÃO DEVE ENTENDIDA POR TODOS
Não acredito em unanimidade sem um debate sério e não impositivo. A unanimidade não deve ser construída sem os devidos esclarecimentos dos fatos. De outro modo, é impossível que todos tenham a mesma opinião sobre um mesmo assunto. Mas, para que a informação seja entendida por todos é precisa uma explicação didática sobre os dados de natureza complexa. Após o entendimento será possível fazer as ilações políticas sobre os dados.
Também nenhuma conclusão se faz de forma apressada ou em função de eventual emergência. A compreensão se dá na suavidade do silêncio, pelo cruzamento das informações e pela exposição dos contraditórios. Sem o contraditório não existe uma compreensão real dos fatos nem é construída uma síntese baseada nas opiniões divergentes.
A compreensão do teor da informação é condição essencial para a assinatura de qualquer documento. Ninguém pode endossar moralmente qualquer ato sem conhecimento exaustivo do que realmente se trata. Logo, todos os esclarecimentos são direitos do cidadão ou de qualquer sócio de uma instituição. Isto é uma questão de respeito a quem é patrão dos agentes públicos. Assim, a tarefa do servidor ou agente público/político é realmente servir à população e não de utilizar o cargo/função pública em benefício próprio como se a sociedade fosse composta de nobres e de vassalos.
CONCLUSÃO
A pulverização de denúncias tem o seu arremedo especulativo quando as informações não são públicas, acessíveis e entendidas por todos. A negativa do acesso com a argumentação do sigilo pode ser um pretexto para ser eximir de obrigações morais e legais. Há sempre quem quer agir na sombra, na sua zona de conforto, sem a necessidade de explicar a natureza dos seus atos. Geralmente, quem não gosta de dar satisfação de seus atos também não gosta de se submeter às regras e, por si mesmo, quer ditar procedimentos e estar acima das leis e da ordem estabelecida. Aliás, tem no mínimo suposição de que suas ações não terão a aprovação da sociedade.
REFERÊNCIAS:
Vou apenas recomendar as seguintes leituras:
DEMO, Pedro. Introdução à Metodologia da Ciência. 2ª Ed. São Paulo, Atlas, 1985.
Lei de Acesso à Informação (Lei Federal nº 12.527, de 18 de novembro de 2011) e o seu Regulamento (Decreto Federal nº 7.724 de 16 de maio de 2012).
Também recomendo visitas aos Portais de Transparência dos governos federal, estadual e municipal.

sábado, 31 de março de 2012

SENSO CRÍTICO

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Lembro-me dos meus estudos de Filosofia, nos quais aprendi conceitos como “reflexão”; ou seja, repensar aquilo que fazemos sem ter noção dos significados. A partir daí, percebi como temos uma recepção passiva naquilo que ouvimos e como reproduzimos muitas coisas sem ter consciência daquilo que fazemos. Como exemplo, certa vez, um professor de Matemática foi arguido por uma aluna por que ensinava logaritmos e progressão geométrica e ele, não tendo uma resposta convincente, disse: “me mandaram ensinar isto a vocês”.
Talvez, as respostas não são buscadas por falta de perguntas e porque alguém quer evitar o confronto. Às vezes, as perguntas são um incômodo e soam como uma provocação e expõem o contraditório, revelando posições antagônicas: o conflito. Quem gosta de uma pergunta embaraçosa? Na verdade, o que queremos é fugir dela, mesmo que a resposta não seja convincente nem mesmo para nós.
1.      PRECISAMOS DE BUSCA DE RESPOSTAS A NOSSAS PERGUNTAS
Vivemos em uma sociedade de muitas perguntas e de pouca busca de respostas. Nesse vácuo existencial, surgem os arautos das respostas prontas, as receitas dos gurus da autoajuda e com a ilusão da prosperidade pessoal e que se lixe o mundo.
Contudo, quero alertar a resposta não virá sem estudo sistemático e sem a radicalidade daquilo que se pergunta. Explico: radicalidade significa “tudo tem a sua raiz”; ou seja, uma razão de ser que foi sofrendo mutação em seus objetivos e resultados no decorrer da história. Quero dizer que as coisas estão diferentes do que eram no início e, por algum motivo, houve um desvirtuamento do propósito. Por exemplo, as instituições não são as mesmas desde que foram fundadas, pois foram mudando de acordo com o pensamento humano.
O pensamento humano aparentemente muda. Apenas aparentemente, pois uma das marcas mais significativas da pessoa é a vaidade – palavra que definimos para esse apego à glória temporária e ilusória, que embriaga o ego, dando-lhe uma leve sensação de divindade, acima dos demais homens comuns. Não é a toa que Faraós, Cézares e imperadores mundiais na Antiguidade se consideravam deuses e exigiam adoração de seus súditos, punindo alguns com a morte. Ainda hoje, prevalece, em alguns arraiás, o argumento de que poder evoca prerrogativas divinas e que, em função disto, deve ser silenciada toda crítica ou oposição. Amparada nessa crença de excelência, alguns cometem as maiores arbitrariedades.
2.      ALGUNS PRECEITOS CRÍTICOS
Com relação à crítica, guardei alguns preceitos para me proteger da insegurança da autoaceitação. Aliás, todos nós buscamos o reconhecimento e amamos os elogios como se fosse a pérola mais linda do mundo. A nossa expectativa é que a crítica se encaixe no desenho do nosso ego para não nos entristecer e nos conduzir ao caminho da autocomiseração. Queremos dormir nas nuvens do bem-estar, crendo que não seremos incomodados pelas flechas da imputação do erro. Desse jeito, seria o máximo da utopia da perfeição, mesmo estando propícios a tropeçar no engano dos nossos pensamentos, na ociosidade das palavras e nas ações equivocadas.
Em função da eminência do engano e da soberba, elegi como primeiro preceito: “não tenho controle sobre o pensamento e as palavras de alguém que proferir julgamento na minha ausência”. Considero que alguém pode se defender, argumentando que as palavras interpretadas fora do contexto, produziram outro significado. Por isto, para me proteger evito proferir citar nomes e focar em situações, criticar comportamento e não pessoas. Claro, o mesmo erro pode ser repetido por muitas pessoas em diferentes situações, tempos e lugares. Não há ofensa quando se critica comportamentos.
Tenho como segundo preceito que ninguém é incriticável e isento de julgamento moral. Quando alguém não se sujeita a um julgamento moral, torna autoritário, arrogante e sem respeito pelos demais. Compreender a crítica é se submeter ao processo de escuta, proposto Carl Rogers (1902 – 1987), e tornar-se participando de um feedback que proporcionará uma reflexão sobre si mesmo e um crescimento enquanto pessoa. Também cito o argumento da missionária católica Joane Tereza Blainey que, em um debate sobre a justiça restaurativa em 2010, disse que a crítica é uma forma de compreender os motivos do outros, inclusive a raiva, está desarmado para o diálogo e receber as palavras isentas de confronto, aponta o caminho para o entendimento e a resolução de problemas. Assim, extrair algo de bom de uma crítica exige renúncia a essa vaidade, que utiliza a razão para satisfazer os seus interesses mais mesquinhos.
Outro preceito que guardo é que nos contraditórios residem os elementos democráticos: “o aplauso é tão democrático como a vaia”. Quem gosta de elogio deve estar preparado para receber críticas. Por isto, recebo toda crítica com imensa tristeza, mas, depois, vou digerindo as razões que motivaram a crítica e passo a refletir sobre aquilo que incomoda o meu próximo. Responder na mesma moeda, confrontar acusando ou lançar em rosto é a tática dos covardes.
Convém fazer uma ressalva. Há aqueles que encobrem as suas próprias transgressões para acusar os outros, julgando-se acima do bem e do mal. Falam como se tivessem autoridade para repreender, inclusive de público e colocam-se como arautos da verdade. Criticam tudo e a todos e em nenhum momento são propositivos ou encostam o dedo para ajudar. São néscios, soberbos e não tem a humildade para reconhecer o erro e ter a dignidade de pedir desculpas. Amparam-se em uma falsa justiça e santidade e, mesmo na hipocrisia, não aceitam receber críticas.
Acredito na reciprocidade da convivência e no apelo amoroso da verdade. Não falo de uma verdade escrita nas tábulas da razão e nas leis da ciência. Acredito na verdade trazida pelo sopro de Deus que liberta das amarras do vazio existencial e produz vida com qualidade eterna. Essa verdade aponta as crises mais insondáveis do ser humano, estanca as sangrias da vaidade do poder e produz humildade. Claro, somos parte de um todo, de uma existência compartilhada, mas mergulhada em uma crise de identidade. Por causa da crise, queremos se afirmar acima das demais pessoas e exercer o domínio.
A crítica coloca a crise na evidência, seus contrastes, suas contradições e aponta a necessidade de solução. O problema é ponto de partida da crítica e a sua motivação. Às vezes, criticamos para envolver pessoas em enredo sedutor, derrubá-las e se apropriar de um espaço que nos interessa. Daí resulta as pelejas com as suas vítimas na batalha do poder.
Recentemente, tenho visto publicações em que pessoas são criticadas ou persistentemente expostas em razão de algum ato que fere as normas da conduta e da moral. Uma das coisas que observo é a motivação do escândalo. Pergunto: há alguma busca em estabelecer a verdade e a justiça pela denúncia do engano ou é uma vingança de um cúmplice de um mal feito que, em determinado momento, se sentiu prejudicado? Há pessoas que optam pelo silêncio quando estão se beneficiando de um sistema mesmo sabendo dos seus equívocos e arbitrariedades. Nesse momento concordam com tudo ou fingem que concordam. São críticos de acordo com a conveniência, até o momento em que são beneficiados.
Penso que é importante cultivar a virtude e estar atento ao mundo em redor. Não devemos ignorar o engano em suas diferentes formas. A mentira se transveste de verdade por meios de argumentos convincentes, proferidas por pessoas ditas iluminadas e abençoadas por Deus. Trata-se de alguém que busca a sua própria glória, riqueza e poder; que se alimenta da ignorância dos escravos por meio de palavras persuasivas e atos de grandeza própria; que são amantes do dinheiro. O remédio para combater o engano é a análise crítica, a investigação metodológica para distinguir o que é real e o falso.
Vivemos em uma época que é prevalecente a cultura da emoção. As pessoas estão propensas a vivenciar o prazer das sensações, a explorar as imagens com se fosse algo real e, assim, se iludem com os órgãos dos sentidos. Aquilo que vimos, ouvimos e sentimos pode ser a aparência do real e essa ilusão é uma das estratégias de lobos vestidos de ovelhas para tentar devorar os incautos. Em função disto, devemos estar aptos para examinarmos tudo e extrair o que é verdadeiro e descartar o engano. Quem é crítico não se prende a ameaças das maldições, pois toda verdade é límpida, isenta de parcialidade e dúvidas, é agradável, benéfica e alimenta a virtude.
CONCLUSÃO
Recomendo a leitura de bons livros, pois o conhecimento é o maior investimento a ser feito, bem mais importante que a alimentação. O alimento dura 02 ou 04 horas no organismo e, depois, é eliminado, mas o conhecimento dura para a vida toda. O que sabemos é uma arma de defesa e de ataque contra o engano. Sempre cito o preceito canônico de que a “verdade liberta” o homem do poder da ignorância que o aprisiona. Acredito que o maior inimigo do homem é a sua ignorância, que lhe torna presa fácil dos ardis do tentador e escraviza a sua consciência, distanciando-o daquilo que é bom. O homem só consegue a capacidade crítica quando se liberta das amarras que impede a sua consciência de fazer às escolhas certas por meio de julgamento moral à luz da verdade.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura do livro
LUCADO, Max. Viver sem Medo: redescobrindo uma vida de tranquilidade e paz interior. Tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

TALVEZ A AMIZADE SEJA ISTO

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Percebo que atualmente se aproximar de alguém tem sido um desafio extremo com o receio do desconhecido e da malignidade do mundo. Por esta razão, as pessoas estão cada vez mais distantes e isoladas no seu mundo. Às vezes penso que elas perderam a noção da cor e dos detalhes da natureza, devido à velocidade como conduzem a sua vida. Parece que só veem a sua frente a necessidade e os compromissos do dia. Por isto, vivemos o momento da escassez da amizade, da convivência e da vida em comunidade. Parece que vimos inúmeras pessoas, conhecemos muitos, relacionamos com poucos, e temos pouquíssimos amigos.
A CULTURA DO ISOLAMENTO
Passaram-se dez anos após a conclusão do curso, parecia ser a mesma universidade, os mesmos estudantes afoitos por conhecimento para a realização de um sonho. Mas, os detalhes desses anos não foram alterados no âmbito das relações humanas. As pessoas estavam caminhando em diferentes direções, apressadas, centradas nos seus pensamentos, sem a percepção de olhar o mundo em redor. Talvez, o raciocínio mais próximo de uma explicação era a “muvuca” da própria universidade: muita gente, obrigações a serem cumpridas e o tempo e as relações são obstáculos para se atingir os objetivos e metas de uma jornada acadêmica. Como consequência, pessoas são alegorias animadas que caminham e que nos servem apenas para atender ao pedido de informações como se pede a conta a um garçon.
Igualmente, ao visitar um shopping sem a intenção de comprar alguma coisa, observa-se muita gente caminhando em diferentes direções. Algumas caminhavam em dupla ou em trio e sequem olhavam para quem cruzava o seu caminho. Até quando são forçados a assentar a mesma mesa da praça de alimentação é difícil se estabelecer um diálogo. Percebe-se um constrangimento, um receio fora do comum e uma aposta suicida de quem disparará a primeira palavra. Parece que a exclusividade é uma arma de defesa para o infortúnio de uma presença inconveniente de um estranho. Algumas exceções à regra são os flertes, movidos pela aventura sensual onde os riscos são ignorados por uma satisfação carnal imediata.
Também, os bairros e empreendimentos imobiliários trazem a natureza do isolamento e as pessoas já cercam suas casas com muros altos, grades e interfones. Não há mais  comunicação entre vizinhos nem é possível saber o nome dos moradores, pois a visitas e as rodas de conversas nas casas se tornaram escassas. As casas permanecem fechadas a maior parte do dia e pergunta-se onde estão os moradores. Observa-se que até mesmo as festas, quando realizadas em casa, têm mais amigos e parentes residentes em outros locais do que moradores do bairro. Ou seja, as pessoas estão cada vez mais isoladas, egocêntricas e fechadas no seu mundinho onde só podem entrar pessoas por elas devidamente autorizadas.
As hostes da maldade estão presentes em todo lugar escondidas em máscaras de bondade, simpatia e ideais de justiça. Nem sempre é possível discernir as diferenças entre as pessoas idôneas e aquelas movidas pela perversidade. Hoje não arriscaria dar uma informação sobre o endereço de alguém para um desconhecido com o receio de dar um passaporte para a morte de alguém. As intenções do coração somente são conhecidas depois de algum tempo, pois a mentira é repleta de argumentos lógicos que aparentam ser verdade. É possível que alguém já tenha sido vítima do engano e, por causa dessa lembrança, busque ter mais atenção à realidade dos fatos. Em função disto, as pessoas buscam refugiar suas incertezas do caráter humano no isolamento. Perde-se a ideia de comunidade onde as pessoas se inspiram na necessidade de compartilhamento.
Partindo do flashback da infância e da adolescência, vejo as brincadeiras das crianças nas ruas, vizinhas conversando nas varandas, as casas sem muros, as festas do bairro organizadas pelos moradores, etc. Era possível saber o nome da pessoa, sua família e localização para prestar uma informação qualificada. Nesse caso, quando alguém ficava enfermo, os vizinhos visitavam e colaboravam dentro das suas possibilidades. As relações eram construídas a partir da convivência, parceria e cada membro da comunidade ganhava os seus realces de importância. A vida tinha os contornos de liberdade e de felicidade apesar de algumas dificuldades. Isto porque os males da sociedade atual com seus contornos sofisticados e aparato tecnológico não eram realidade naquela época.
A ideia de comunidade convida à integração, ao compartilhamento, à amizade e a solidariedade. O diferente e o desconhecido são pontes para aproximação entre pessoas por meio do diálogo cognoscente e amoroso. Nem sempre a aproximação tem o compromisso da amizade, o propósito de humanidade e de convívio social. Inclusive “comunidade global” é uma das expressões mais arroladas na literatura moderna de alcance social. Traduz uma preocupação com um padrão de vida sustentável para esta e as futuras gerações pela inter-relação homem e natureza. É um convite a integração social e a renúncia ao individualismo, centrado no culto a acumulação de capital e no prazer.
QUERO CELEBRAR A AMIZADE
Contudo, quero celebrar a amizade com o estado de graça pela aquisição da mais brilhante joia do mundo. Claro, a amizade é uma das riquezas incalculáveis do mundo produzidas pela relação de confiança e lealdade de uma pessoa a outra. Como resultado da amizade, aparecem a criatividade, a parceria, a cumplicidade e a solidariedade. Tudo isto é produzido pela comunicação que é arte de se conhecer e se fazer conhecido. Antes da comunicação, a pessoa que nós vimos não passa de um corpo e um nome. Mas por meio da comunicação, passamos a conhecer a alma que habita no corpo: os sentimentos, os aspirações, as virtudes, os defeitos, temperamentos, etc. É pelo conhecimento das pessoas produzido pela comunicação é que selecionamos quem será o nosso amigo. Aquele em que confiamos, sentimos bem como a sua presença e que expressa a lealdade quanto as nossas expectativas.
A comunicação é um instrumento poderoso para aproximar pessoas e também é uma arma perigosa. Por isto, o provérbio canônico assevera que “as palavras sábias ditas a seu tempo são como maçãs de ouro em salvas de prata”. Ou seja, a comunicação deve estar a serviço da verdade, da paz, da justiça e do bom senso e jamais deve ser usado como instrumento de iniquidade para satisfazer a interesses sórdidos.
Lembro-me da leitura de um livro do padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira) sobre a amizade. Ele procurava trazer algumas premissas sobre a amizade verdadeira, amorosa e para além da aparência e do status social. Sua intenção era levar as pessoas a pensarem o verdadeiro motivo de uma amizade e a desconstruir a ideia de uma relação de troca de favores. Nesse sentido, a amizade é uma relação entre duas pessoas sem características românticas / sexuais. É um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo.
A amizade desperta o senso de cooperação e o desejo de desfrutar momentos juntos pela companha e amizade do outro. Segundo Carl Rogers “a amizade é a aceitação do outro do jeito que ele é”. Por isto, a amizade é capaz de despertar sentimentos tão sublimes como: desejar o bem do outro, simpatia e empatia, honestidade, altruísmo e lealdade. Além disto, a amizade é capaz de minimizar os defeitos do outro para dividir os bons e maus momentos. O verdadeiro amigo é atraído pelo outro pelo o que ele realmente é e não por aquilo que ele tem.
Na amizade não existe subordinação e ideia de classes. A amizade trabalha em igualdade de condições e rejeita a opressão, a manipulação e o engano. Quem é amigo não usa as pessoas em benefício próprio. A amizade é mais excelente que a posição ou condição social, pois quem tem amizade aceita a pessoa sem discriminações e imposições.
Atualmente, percebo a banalização da amizade como se fosse coisa a ser comprada. Aliás, tem pessoas que vendem a sua dignidade para obter a amizade de um político e desfrutar dos seus favores. Isto não é amizade. É uma barganha, uma relação de troca de interesses, um produto descartável.
Contudo, a perda da sensibilidade, da cooperação e da responsabilidade tem despertado em alguns educadores o entendimento de que além do saber acadêmico, a escola tem que ensinar valores humanos. Sabe por que? A amizade verdadeira é manifestação mais visível do amor. O amor é a virtude que retrata a natureza do caráter de Deus, leva a desfrutar o sabor da fraternidade, afasta a acepção de pessoas e abraça as diferenças com respeito e dignidade.
CONCLUSÃO
Deixo um pensamento de Silver Penguin sobre a amizade, a forma como pessoas marcam a nossa vida, a nossa história, produzindo significado.
As pessoas entram e saem de nossas vidas, algumas passam despercebidas, outras deixam sua presença em nossa memória, outras em nosso coração. Algumas deixam coisas boas, outras coisas ruins, mas as pessoas que levo comigo são aquelas que mudaram a minha vida, que me fizeram dar um sorriso, que me fizeram esquecer uma tristeza, que me ajudaram nos momentos difíceis, que não fugiram em nenhum segundo, nem nos felizes, nem nos tristes. As coisas mais importantes que podemos ter na vida são as que duram pra sempre, que podemos sempre levar conosco, e acho que nenhuma delas é mais forte que uma amizade sincera.
Por isto, desejo saúde e vida longa para os meus amigos, pois na adversidade muitos tem se revelados como verdadeiros irmãos.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura do livro
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
CURY, Augusto. Pais brilhantes e professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

EM TODA CAMINHADA

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Estamos iniciando mais um ano. Quantas coisas aconteceram e pensávamos que não chegaríamos a tanto! Nessas lembranças, chegamos a ter um flashback de muitos eventos que aconteceram no ano e ao longo da vida para ter uma conclusão que sobrevivemos quando a angústia e a morte passaram por cima da nossa alma. Alguns diriam que o destino foi muito caprichoso e fomos alcançados pela sorte no momento oportuno. Mas outros, como eu, acreditam em designo – havia um propósito no decreto divino que inaugurou a nossa existência. Por isto, não acredito na crença em uma criação abandonada no universo a mercê do acaso ou da programação da natureza e da história, vivendo inclinada ao desejo dos seus pensamentos e à coerção das leis.
TODOS BUSCAM UMA DIREÇÃO
Acredito que a existência é vestida de um propósito superior às nossas aspirações e projetos. Nenhuma pessoa veio ao mundo apenas para cumprir um ciclo de vida animal: nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer. Alguns tentam ignorar a imaterialidade como se vida humana fosse terminativa e para justificar um estilo de vida hedonista. Creem que a matéria se desfaz com a morte e, com ela, a existência.
A existência é algo tão complexo de se entender que os textos canônicos, utilizam várias alegorias como: caminho, carta, livro, embarcação, viagem, etc. Por exemplo:  conhecemos o caminho da serpente entre as rochas, o voo da águia no céu, o trajeto do navio em alto mar, mas desconhecemos o caminho de um homem e, inclusive, o nosso próximo passo apesar dos programas que fizemos com a devida prontidão e precisão. Parece que estamos prestes a ser surpreendidos pelo acaso e o destino.
Todas as alegorias dão a ideia de que a vida é uma construção gradual, imprecisa e dependente de decisões que cada um toma no seu dia-a-dia como também das circunstâncias que se apresentam alheias a nossa vontade. Não sabemos quando o inesperado virá visitar a nossa vida. Por isto, tememos a doença, o desemprego, a fatalidade e à morte. Ainda, aprendemos que não devemos ficar prostrados diante das situações inesperadas, pois nela descobrimos a energia para voltarmos para a nossa essência espiritual. Isto mesmo, na adversidade, nós aprendemos até mesmo a orar com súplicas incendiadas pela fé isenta de dúvida. Por isto, a decisão de crer é uma opção pela vida integral: espírito, alma e corpo. É ter a vida banhada no oceano das virtudes mais excelentes do cristianismo.
As decisões que tomamos na vida têm seus resultados cumulativos e estão relacionadas ao caráter e a personalidade de cada pessoa. Ouvi certa vez, alguém citar um pensamento anônimo:
“Cuidado com seus pensamentos, eles se transformam em palavras; cuidado com suas palavras, elas se transformam em ações; cuidado com suas ações, elas se transformam em hábitos; cuidado com seus hábitos, eles moldam o seu caráter; cuidado com seu caráter, ele controla o seu destino”.
Todos têm um centro decisório sobre as opções que a vida apresenta no tocante ao bem e ao mal. São essas decisões que vão determinar a escalada da vida e a decadência da morte ou em uma linguagem teológica: a bênção e a maldição.
Uma das alegorias que absorvi recentemente é que a nossa personalidade é semelhante a uma cidade com seus muros, torres e portas. Por isto, assim diz o sábio canônico: “Como uma cidade sem muros é o homem que não consegue controlar o seu temperamento”. Se guardarmos os muros dos bons valores, da ética, da moral e do decoro que aprendemos com os pais e pastores iremos resistir o ataque ao nosso bom nome. Contudo, é necessário estarmos vigilantes nas torres quando as ciladas do mal vierem em nossa direção. Também devemos ter como portas da alma as decisões que devemos tomar: abrir a porta para receber aquilo que é bom, de boa fama e agradável e eliminar o lixo das posturas inadequadas.
Cada pessoa é uma individualidade, não há duas pessoas iguais nem os irmãos gêmeos univitelinos. Às vezes, há pessoas de uma mesma família com a mesma formação e educação que tomam orientações de vida diferentes, revelando personalidade diferente dos demais membros de sua família. São chamados comumente de “ovelha negra” pelo caráter transgressor e agressivo aos padrões culturais da família. Isto mostra que a liberdade que nos foi concedida implica em responsabilidades sobre as decisões tomadas, gerando conseqüências.
Tenho por excelente a ilustração da lei da semeadura: “o que a pessoa semear, isso ceifará”. Ou seja, cada decisão boa trará bons resultados para a vida e a opção pelo mal trará consequências danosas. Por isto, há um abismo entre as pessoas nadam nos rios da felicidade e as que sofrem nos desertos das consciências atormentadas pela culpa.
Em toda caminhada, somos açoitados pela dúvida de qual decisão tomar. Qual é a alternativa correta? E se estivermos enganados? Claro, uma decisão equivocada pode provocar uma situação inesperada, trazer sofrimentos, destruição de sonhos e fazer desmoronar uma carreira, um casamento, uma família, um projeto de vida. Geralmente, para muitos a vida concede uma segunda chance de restaurar o que se perdeu, mas para outros há apenas alternativa para recomeçar.
Em função das incertezas do hoje e do amanhã não queremos cometer erros que venham comprometer o que edificamos com sacrifícios e lágrimas. Parece que somos visionários nos desertos enxergando miragens ou a nossa visão está turva a ponto de não enxergarmos com clareza a realidade dos fatos. Claro, algumas vezes a vida nos apresenta enigmas a serem desvendados, desafiando a nossa inteligência e a fé. Por causa dos órgãos dos sentidos somos iludidos a acreditar na aparência e a duvidar da fé. Acreditamos naquilo que vemos e tocamos como algo real e verdadeiro semelhante à mágica de um ilusionista competente. Isto porque queremos respostas objetivas curtas e diretas para os nossos questionamentos e problemas como o sim e o não. Ou seja, somos focados no imediato e somos apressados em busca das soluções com o argumento de que o sofrimento é necessidade básica. Mas, para mim, o sofrimento é uma contradição da vida no seu duelo com a morte – o inimigo que nos atormenta com os aguilhões.
Nem todas as respostas estão disponíveis no momento. Há aquelas que encontraremos caminhando com paciência o caminho que nos foi proposto. No caminho e no caminhar encontraremos respostas tal como aluno aprende as matérias do currículo da sua academia. Claro, a superação dos erros mais primitivos acontece no exercício da autodisciplina e na aprendizagem da coexistência com o próximo com dignidade estão as respostas sobre as decisões mais propícias e verdadeiras. Nesse caso, devemos aceitar a correção que a nós é apresentada como oportunidade propícia para nós revermos nossas posições e tirarmos a venda da credulidade da razão. A razão já foi louvada pelos filósofos como a alma do verdadeiro conhecimento, mas é contraditória, pois até mesmo os loucos têm sua razão para cometer as maiores arbitrariedades com o seu séquito ensandecido. Claro, a razão apresenta nos confrontos sua face egocêntrica, no intuito de prevalecer em determinada situação. Por isto, devemos ter como tutora a verdade eterna para se submeter ao julgamento das nossas atitudes isento da vaidade da razão.
Tendo dito exaustivamente que a vida é uma via de mão dupla: eu e o próximo. Não sou o único ser no mundo. Estou rodeado de pessoas e com elas me relaciono em todo tempo com as palavras e ações compartilhadas. Nesse compartilhamento de existência, temos a família, amigos, conhecidos e desconhecidos que proporciona a felicidade e a solidariedade orgânica – esse preceito positivista de Émile Durkheim (1858 – 1917). Aliás, tudo que fazemos de bem se reverterá em benefícios não somente para nós, mas também para o nosso próximo, pois as virtudes mais excelentes existem para serem repartidas e traz a verdade, a paz e solidariedade de geração em geração.
As ações individualizadas e individualistas são egocêntricas e se inserem na ideia de supremacia: há alguém importante, uma classe superior diferente das demais. Essa ideia de hegemonia gera conflitos e disputas entre classes pela sensação de injustiça social. O individualismo fomentado pela acumulação de capital tem suas conseqüências que alcançam outras pessoas. Alguns se iludem com os benefícios do individualismo pela incapacidade de repartir as benesses do lucro, do conforto, da fama e de ser servido por outros. Não entendem que a vida é feita de reciprocidades e esse vai-e-vem de relações pessoais sadias ou opressoras trazem conseqüências para a convivência social.
Quando alguém aumenta sua fazenda maior será o número daqueles que dela comem. Ninguém é feliz sozinho e sempre haverá motivo para repartir, pois o mundo é injusto, privilegiando na lógica da competição os melhores adaptados.
CONCLUSÃO
Acredito que o nosso caminho deve ser é iluminado pela provisão da verdade para não sermos devorados pela cultura calamitosa da porfia. Não somos gladiadores da existência no confronto com o próximo, mas no duelo com a morte. Nesse caso, não se morre quando há separação da alma do corpo e jaz um cadáver. Cada decisão errada é uma opção de morte que abrevia a programação da vida.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura do livro
BOTTON, Alain. Arquitetura da Felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
HART, Stuart L. O capitalismo na encruzilhada: as inúmeras oportunidades de negócios na solução dos problemas mais difíceis do mundo. Tradução de Luciana de Oliveira Rocha. Porto Alegre: Bookman, 2006.

sábado, 24 de dezembro de 2011

TRAZEMOS NOS OLHOS




Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
Há algum tempo venho compartilhando ideias em rodas de conversas com amigos sobre assuntos de natureza moral, alguns princípios e especulações teóricas. Nessas conversas surgia sempre a indignação com o mal feito, a injustiça e as posturas equivocadas. Ficava escandalizado como muitas pessoas, algumas delas declaradamente religiosas, faziam o caminho inverso do desvendamento da luz da existência, impondo a ideologia da interdição do corpo com uma política mesquinha, tapando a boca do poço da verdade para os sedentos.
Parece que quando a oportunidade de a verdade ser desvendada sempre surge algum fato novo para desviar a atenção e encobri-la por mais um tempo. Enquanto isto, alguns loucos dialogam sozinhos suas inquietações e, quando falam, ficam na expectativa de serem silenciados. Aliás, protestar contra o erro incomoda os reis em seus palácios, pois a eminência de qualquer revolta ameaça a perda dos seus privilégios.
A voz dos loucos algumas vezes caminha contramão da lógica daqueles que exercem o domínio. É a voz do oprimido, do insatisfeito com a tragédia do caminho tortuoso e dos erros dos poderosos. Ainda, assim, a propaganda da eficiência e da culpa é estratégica mais adotada para engabelar os insensatos e encobrir seus deslizes. A intenção se perpetuar no poder e sobreviver lutando contra todos os adversários até a última gota. Não sabe que aqueles que resistem se alimentam das fraquezas para anunciar a necessidade de mudança.
A LUZ DOS OLHOS E O NATAL
Parece que o Natal é o pretexto para silenciar todos os argumentos da contradição e para a apresentação dos anúncios de paz, alegria e fraternidade. Nessa época, até os excluídos recebem presentes pressupostamente atribuídos a Papai Noel e os que passam fome recebem cestas básicas e de Natal. Destaca-se o refrão de que todos tenham um “Feliz Natal”, mesmo que seja apenas um dia no ano. É nesse momento que se lembra dos orfanatos, dos asilos, das favelas, dos miseráveis do sertão, etc. Contudo, o princípio do Natal deveria ser manifesto todos os dias do ano na vida das pessoas e não apenas nas celebrações do Natal.
Por isto, trazemos nos olhos neste Natal a expectativa de que nasça uma nova consciência entre os homens. Que a solidariedade não seja uma coerção cultural festiva, mas um ato de transformação moral e social. Do contrário, tudo volta a mesmice do individualismo canibalesco que se alimenta da exploração do próximo.
A mesma mensagem do Natal se repete há tempos, mas os valores vão se deformando ao longo dos anos, os conceitos de famílias se evaporam como naftalina nos armários e a educação dos filhos é terceirizada à mídia, aos grupos de amigos e à escola. Mas, no Natal, a família se reúne para celebrar a fartura da ceia com os excessos de comida e bebida alcoólica. A alegria efêmera é celebrada com um punhado de tradição, sem nenhuma reflexão teológica que o dia de Natal exige.
O Natal do Papai Noel faz a alegria do capitalismo, movimenta a indústria e comércio deste país e do mundo. O Natal comercial desvirtua a comemoração do nascimento Cristo do Cristianismo. Esse Natal é cheio de luzes, com presépios iluminados e custos elevados para os municípios – valor tão alto que poderia cobrir despesas com educação, saúde e/ou de outra área social. Mas que pena! Somos traídos pelos órgãos dos sentidos, a começar pela visão e a beleza que fascina é a nossa ilusão. Nem tudo que vimos é real por mais belo que seja. É uma cortina que nos veda o acesso a realidade dos fatos. A verdade está atrás da cortina ou como diz o escritor de Cantares está atrás dos nossos muros. Por isto que a candeia do corpo são olhos e os nossos olhos precisam ser bons para que o nosso corpo seja iluminado. Do contrário, seremos domesticados e orientados pelas viseiras da ideologia dominante.
As luzes e as celebrações deveriam mover as batidas do coração e abrir os olhos da alma. Porém, as lanternas do capitalismo só permitem ver troca de presentes, comidas e bebidas das ceias de Natal. Além disto, o Papai Noel torna-se o centro das atenções das crianças e dos adultos, pois o velhinho é um ídolo cultivado desde a antiguidade como símbolo do Natal. No lugar do presépio surge a árvore de Natal e os presentes em que cada um presenteia aos membros do ciclo de amizade.
Nosso olhar sobre o Natal não deveria ser mercantilista, amparado na tradição dos excessos. Esses excessos de comida, de bebidas e de despesas supérfluas que geram em muitos o endividamento. Nesse caso, as compras são realizadas porimpulso como meio de satisfação pessoal e social ou até mesmo ostentação.  
No advento de cada Natal fala-se muito em paz, solidariedade e justiça, mas, no decorrer do ano, tudo não passa de votos não cumpridos e esquecidos na masmorra das consciências. Trata-se da repetição de um ciclo de posturas viciadas e alienantes em que cada um devora o seu próximo como se fosse um manual de sobrevivência na selva, onde os mais fortes suplantam os mais fracos.
Convido a refletir com o filósofo Mario Sérgio Cortella sobre o Natal. Ele mostra que o Natal deve levar as pessoas sobre a importância do nascimento de Jesus e o que Ele significa para a história da Humanidade, como o seu ensino tem relação com a nossa vida e a fé que inaugura. A reflexão exige o silêncio, a pausa e até a mesmo a melancolia. Faz a pessoa se desligar do mundo e viajar para dentro de si mesma e verificar se a vida, ações e relações condizem com os princípios anunciados por Cristo. Também, a reflexão pode ser celebrada junto em família desde que a palavra “comemorar” signifique “lembrar juntos” com a família, os amigos etc. Claro, não existe Natal sem Cristo, assim como não existe Cristianismo sem Cristo. O Natal sem Cristo é uma tradição sem vida, extemporânea e midiática.  
CONCLUSÃO
Sou uma das pessoas que no Natal quero celebrar a encarnação do Verbo Divino, o significado da habitação de Deus entre os homens, seu propósito e essência. A vida não precisa ter trevas. Há a luz de uma estrela que brilhou no primeiro Natal e irradia sua doutrina no mundo. A palavra de Cristo é luz transformadora de vidas desde que a pessoa ande como Ele andou.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura dos textos do filósofo Mario Sérgio Cortella sobre o Natal, principalmente pela experiência religiosa e seus escritos enquanto teólogo.

sábado, 10 de dezembro de 2011

APENAS A VERDADE – PARTE 2


Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
No último artigo refleti sobre a verdade como princípio ético e moral, porém ficaram algumas omissões importantes e a algumas perguntas não respondidas, tais como: por que o mal campeia triunfante durante longo tempo, causando tanto dano, fazendo as pessoas desacreditarem da bondade, da justiça e da verdade.
Percebi que realmente a mentira continua produzindo danos incalculáveis e que há inúmeros exemplos ao longo da história e do cotidiano: de pessoas que foram mortas por causa de uma mentira, casamentos desfeitos, guerras, etc. Restaram como despojo a mágoa, o ressentimento e a vingança, pois, a vida perdida não voltará mais e o belo castelo construído desmanchou-se apenas com uma palavra. Assim, o desafio de perdoar a afronta de alguém tem o peso de uma montanha para ser transportada, porque é algo que mexe nas cicatrizes da alma, com o orgulho ferido. Mas, manter a mágoa alarga a ferida, deprime, adoece a alma, envelhece os ossos e produz morte.
QUANDO A VERDADE FALTA
Vivemos a geração das terapias e dos antidepressivos, pois a cada dia aumenta o número de vítimas do trânsito, de assaltos, homicídios, fatalidades e outras tragédias. Apesar das proibições e das penalidades legais, persistem as irresponsabilidades de pessoas alcoolizadas, usuários de drogas e delinqüentes. Mesmo assim, há quem defenda que os infratores também são vítimas e culpa a sociedade, a família e o Estado por todos os males. Nessa lógica, a marginalidade seria forma de retaliação do indivíduo excluído socialmente à agressão simbólica que sofreram e, nessa desculpa, atenua-se a culpa dos inconseqüentes.
Percebo que a corrente humanista aparenta ser menos complacente com as vítimas da violência e institucionaliza a lógica da desforra na sociedade. Nesse caso, o adolescente se torna infrator porque sua família é desajustada, o mauricinho se torna usuário de drogas e marginal por causa do enfado da vida de luxo e da família permissiva, alguém matou porque sofreu violenta emoção do ciúme e, assim, cresce a enumeração das desculpas. Espera-se que alguém tenha a dignidade de assumir seus erros, tirando a máscara da presunção de inocência, amparado na demência do ato jurídico.
A impunidade se legitima pela mentira produzida por hábeis advogados, pagos a preços de ouro. Os subterfúgios do poder econômico são usados para afrouxar a lei e o juízo. Essa opressão sobre o fraco e o pobre tem suas desculpas: o Código Penal Brasileiro está ultrapassado e precisa ser mudado. E por que não muda? Porque, entre os que fazem a lei, há quem dela se beneficie por estar respondendo a processos de improbidade administrativa, grilagem, evasão de divisas, formação de quadrilha e outros crimes, cujos processos são postergados por caros advogados. Enquanto isto, acontecem manifestações, clamores por justiça e multiplicam-se as desculpas por meio de transferências de responsabilidades e, no final, a culpa recai sobre a sociedade por ser pressupostamente omissa, ignorante e por não saber escolher os seus representantes nos centros decisórios de poder. Daí surge nova desculpa é preciso investir mais em educação e por que isto não acontece?
Ninguém pode negar que a mentira é uma ideia. Também, não se pode negar que uma ideia é construção lógica de uma forma de pensar com certa coerência, pois envolve todos os processos mentais: aplicação, encadeamento, associação, relacionamento e outros. Quando uma ideia é multiplicada, repetida ao maior número de pessoas com forte argumentação, ela tende a se parecer com a verdade. Mas não é o número de adeptos ou seguidores a evidência que alguém está dizendo a verdade. A verdade nunca será instrumento de dominação, de manipulação, de lavagem cerebral. Quem é verdadeiro inspira as pessoas e não as manipula. O que caracteriza a mentira é a lógica da trapaça, a rede de subterfúgios, o pressuposto do levante, a consciência do mal e do engano. É uma cegueira imposta por uma venda a alguém para seguir caminhos tortuosos cujo fim é a morte.
Acerca do engano, lembro das palavras do divino Mestre: “fiquem espertos para que ninguém vos engane porque surgirão muitos enganadores, vestidos de pregadores da verdade”. Outra vez, ele avisou que os enganadores são soberbos, ingratos, violentos, gananciosos, avarentos, sem afeto natural e aproveitadores, mesmo investidos da aparência de piedade. Assim, o que te protegerá do engano é buscar o conhecimento da verdade, pois ele produz sabedoria, a capacidade de discernimento do que é verdadeiro e falso.
Devido à multiplicação do mal, devemos estar vigilantes para não sermos a próxima vítima. Por quê? Uma rede de mentiras provoca cegueira tal que foge até do senso racional. A pessoa fica convencida que o engano é verdadeiro, podendo tornar-se agressiva com quem quer convencê-la do contrário. Daí surge a alienação porque a pessoa passa ter um estilo de vida equivocado.
A doutrina da verdade relativa pressupõe a relativização da mentira. Ou seja, há várias verdades; logo a mentira depende do ponto de vista de cada um. Todos possuem a sua própria verdade e todos têm a sua razão. Trata-se da abolição da mentira, da deslealdade, do pecado e do crime para surgimento de neologismos como “erros”, “equívocos”, “irregularidades” e “posições de cada um”. Assim, aprisiona-se a verdade ao sabor das conveniências, esvaziando-a do arbítrio ético e moral.
Hoje temos convivência com várias ideologias. Não se trata apenas de um conjunto de ideias voando nos ares e nos livros. Segundo Pedro Demo, ideologia é a justificativa de nossas posições políticas. Nisto surgem várias bandeiras, rótulos e estigmas: direita, centro e esquerda, conservador e liberal, etc. e essa segmentação não se reflete em diversidade de pensamento, mas em conflitos e disputa de poder. Assim, cada um bandeia para sua ideologia e faz dela seu sistema de crenças, lutando para perpetuá-la como verdade. Por consequência, passa a constituir a sua verdade e todas as pessoas passam a serem julgadas pelo crivo de seu pensamento, tornando-se uma trave a ser rompida pela confrontação com a verdade suprema. A verdade suprema é a luz que torna visível todas as coisas; revela o escondido e dá entendimento aos símplices.
Entendo que as ideologias produzem o enfrentamento, sendo a razão de muitas guerras ao longo da história da humanidade. Aliás, as ideologias deveriam conduzir a dialética para, por meio do diálogo e da negociação, produzir a síntese e o consenso. Mas, historicamente tem sido fonte de acirramento das vaidades, pois cada um agarra a sua verdade como único fio de esperança ou tabula de salvação, impondo sua forma de pensar até as últimas conseqüências.
Há quem acredita que pensar diferente é uma forma de oposição e parte desse pressuposto para silenciar as divergências e, ao dar conotação pessoal, cria adversários e tenta eliminá-los. A solução não é ver a ideologia como algo inerentemente mal, mas como uma ferramenta para a leitura do mundo, entender a diversidade existente nesse imenso universo e o exercício da tolerância com liberdade de cada um expressar a sua opinião. Expressar as palavras como um palpite na roda de amigos, sugerido pelo educador Rubem Alves, é meio mais eficaz para aprender a exercer essa tolerância de conviver na arena do debate divergente.
Uma questão importante que aprendo nos escritos de Max Lucado é que a verdade suplanta o medo. Esse medo irracional do desconhecido, do amanhã, do contraditório, de nossas expectativas serem frustradas, que nossas provisões faltem e, sobretudo, que nosso ciclo de existência seja interrompido a qualquer momento. Por isto, entendo porque a palavra divina mais pronunciada é: “Não temas”. Claro, nós nos alimentamos dos nossos medos, nos escondemos nos seus casulos e fazemos deles nosso escudo, nossa arma. A nossa irracionalidade tem sua fonte no medo. Por medo, agimos com violência com o próximo com a estratégia de um ataque preventivo, para impor o respeito e não sermos incomodados na sala de estar do nosso ego e da auto-suficiência.

CONCLUSÃO
Ainda, sobre o medo, vejo que o temor deve ser o termômetro da nossa ansiedade e não instrumento da insanidade do pânico. Há pessoas que se enclausuram nas síndromes para justificar seus temores. Mas a verdade afasta o medo, investe a pessoa da autoridade da fé e da esperança, que nos liberta da ditadura dos órgãos do sentido. A esperança nos faz ver o futuro no presente, dando-nos segurança nos nossos ideais; a fé nos faz acreditar que tudo é possível e nos dá o combustível para batalhar para realização dos sonhos.
REFERÊNCIAS:
ALVES, Rubem. O céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas. São Paulo: Versus Editora, 2008.
DEMO, Pedro. Introdução à Metodologia da Ciência. 2ª Edição. São Paulo: Atlas, 1987.
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