quarta-feira, 23 de março de 2011

COMPANHEIRISMO E AMIZADE

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Tenho por certo que o ser humano tem gravado em seu DNA o viver em comunidade.  No contexto da ecologia, comunidade significa espécies diferentes com hábitos semelhantes que compartilham o mesmo espaço e alimento, de forma harmônica. Igualmente, um grupo de pessoas identifica ao morar em um bairro ter modus vivendi comum característico de uma comunidade.  Tal percepção resulta de uma articulação pela melhoria das condições de vida, especialmente quando se encontram em reunião da associação de moradores. Nem todos são amigos, mas identificam interesses e se somam por meio da divisão de tarefas. Nesse sentido, lembro do conceito positivista da “solidariedade orgânica” pela idéia de parcela de colaboração para se formar um todo. Ou seja, a força da comunidade está na soma da divisão comprometida das partes em busca de um objetivo comum.
A visibilibilidade de cada pessoa torna-se possível pelo horizonte das relações. Não se trata apenas de reunião, mas de momentos de apresentação de identidades: conhecer e se fazer conhecido. É a oportunidade para o diálogo individual ou em grupo no momento preliminar ou posterior à assembléia da comunidade. Não se trata apenas da revelação de nomes, endereços e sondagens, mas de um ponto de partida para se criar referências de diferenças, qualidades e potenciais de cada pessoa que conhecemos. Por isto, a curiosidade incita a aproximação de pessoas ou induz ao temor para o afastamento. Claro, o medo do desconhecido suscita preconceitos contra pessoas pela imagem distorcida ou devido a crença da supremacia de um sobre o outro.
A FORMA DA APROXIMAÇÃO
Os momentos de aproximação (eventos, reuniões, cerimônias) possibilitam conhecer várias pessoas. Por isto, passamos a admirar algumas pessoas mesmo que sem ter a oportunidade de dirigir-lhes uma palavra sequer, pois são personalidades que construíram o reconhecimento notório e devido a fama tornaram-se inacessíveis. Algumas dessas personalidades invocam um culto idólatra com os declarados súditos e, incoerentemente, determinam o afastamento dos seus adoradores. Contudo, quero admirar pessoas que tenham um legado de orientação para vida, que inspirem as pessoas. Cito o exemplo de Martin Luther King Jr. (1929 – 1968), Madre Tereza de Calcutá (1919 – 1997), Nelson Mandela e pessoas anônimas com histórico de vida rico em exemplo de caráter, superação e altruísmo. Por isto, quero estar próximo de pessoas que possam me enriquecer com a sua influência de idoneidade de caráter, sabedoria, exemplo e superação. Aliás, os bons exemplos inspiram as pessoas. Ou seja, inspirar significar capturar o ar puro do exterior e renovar as energias da vida.  Metaforicamente, quando uma pessoa inspira alguém significa dizer que seu exemplo de vida é capturado por outra pessoa, dando-lhe um ideal de vida.
Por causa dos ensejos da aproximação temos muitos conhecidos que revemos acidentalmente na rua e em outros locais (in)oportunos. Desses conhecidos, às vezes não lembramos sequer o nome; somente a fisionomia, a voz e os encontros de diálogos casuais. Nesse arremedo, deparamos com vizinhos das casas mais distantes, colegas de infância, de escola que se surpreendem quando não lembramos os seus nomes e dos casos significativos para as suas vidas. Julgavam ser tão próximos e merecedores de alguma deferência e não conseguem disfarçar a leve frustração. Também, há aqueles com alegria superficial que pressupõem a existência de uma amizade, apesar de anos de afastamento. Lembram dos momentos, dos incidentes, mas a nossa memória é incipiente para lembrar-se dessas situações. Por isto, tenho a crença de que há vários níveis de relacionamentos entre pessoas.
Acredito que todas as pessoas podem ser conhecidas por mim de forma genérica ou específica. Posso me aproximar de todas as pessoas e com elas conversar, tem relação de interesse profissional ou pessoal. O tratamento cordial é propício para todos os conhecidos próximos ou distantes. Para tanto, é necessário o respeito independente da condição social, ideologia e estilo de vida. Claro, posso conhecer pessoas com estilo de vida diferente do meu jeito de ser e respeitar as diferenças, sem imposições e preconceito.
É impressionante como nos sensibilizamos por pessoas conhecidas e estamos propensas a ajudá-las, mesmo que elas não façam parte do nosso círculo de amizade. Também, podemos ser ajudados por pessoas conhecidas nos momentos da adversidade, pois a compreensão de que é meu próximo sobrepõe a solidariedade a pessoas do nosso círculo íntimo. Isto porque a solidariedade altruísta é obrigação moral de todo ser humano, independente das crenças, ideologias e posição social. Pressupõe o argumento da reciprocidade, pois no momento oportunidade podemos ser ajudados por desconhecidos sensíveis a urgência da nossa necessidade.
QUANDO NASCE A AMIZADE
Devemos considerar que temos o direito de selecionar pessoas para serem os nossos amigos, apesar delas não serem perfeitas. Por exemplo, todos os meus amigos têm algum defeito perceptível, mas as suas qualidades cobrem uma multidão de pecados. Quero dizer, citando o Dr. Mike Murdock, que a amizade é uma forma pela qual premiamos a lealdade e a confiança em alguém. Ou seja, reconhecemos a lealdade em alguém e passamos a confiar nele, dar-lhe a oportunidade de confidenciar segredos, solicitar opinião ou conselhos.
Há quem diga que quem ama, confia e a confiança tem como capital a lealdade. A confiança é construída com o tempo por meio de sucessivas provas e não surge gratuitamente por imposição ou vontade de outra pessoa. A segurança da confiança conquistada leva a desarmar os ânimos e pactuar interesses e aproximação. Para a aproximação, há condições genéricas a serem observadas como estilos de vida semelhantes porque grandes diferenças não sustentam uma amizade duradoura.
A amizade pressupõe igualdade e não a supremacia de uma pessoa sobre a outra. Claro, na amizade não há opressão nem a ascendência de pensamentos de uma liderança no grupo de amigos, pois todos são livres. Por isto, a amizade está viva no sentimento de fraternidade de um grupo de amigos que se consideram irmãos. Logo, é verdadeiro o provérbio bíblico que reconhece a existência de amigos mais chegados que um irmão, talvez por causa dos exemplos de defesa ardorosa de amigos e pelo socorro deste em meio às adversidades. Isto nem compara a deturpada amizade interesseira, repleta de bajulação, calcada no comer, beber e folgar. Quanto a essa falsa amizade, tenho conhecimento de casos de abandono de amigos de pessoas bem sucedidas que fracassaram na vida e nos empreendimentos. Agora, os expropriados estão sozinhos em sua cela, vivendo de favores de desconhecidos.
O verdadeiro amigo não trai o outro, não sente inveja nem busca os seus próprios interesses acima de qualquer escrúpulo. Como exemplo, temos Jesus que tinha 12 amigos e foi traído por um deles. Isto mostra que, em algum momento, podemos nos frustrar com a atitude de pessoas que julgávamos serem nossos amigos e a amizade poderá ser rompida temporariamente ou para sempre. Nesse caso, entendo que até mesmo a amizade pode ser seletiva, pois, dos 12 amigos, Jesus tinham 03 que faziam parte do círculo intimo e com eles tinha cumplicidade e compartilhava companhia em momentos específicos.
Convém alertar quanto ao extremo de declarar não ter nenhum amigo, pois não confia em ninguém, que só confia em si mesmo. Apesar das frustrações passadas, das traições, sempre haverá pessoas sinceras, leais e de ilibado caráter. A amizade é uma necessidade lógica da vida em sociedade, pois ninguém é feliz sozinho e precisa se completar com alguém. A parceria, o companheirismo e a reciprocidade mostram como a existência assemelha a uma estrada: na nossa frente estão as pessoas que admiramos e desejamos imitar, atrás estão aquelas que nos admiram, na via oposta tem alguém com diferenças do nosso estilo de vida e ideologias, etc. Contudo, devemos respeitar a leis de trânsito da existência para atropelar ou se ferir em acidentes provocados pelos maus entendidos e pela não observância do direito do outro ao respeito.
O certo é que o homem pode congratular-se de ter muitos amigos, porém deve selecionar alguns deles para fazer parte do círculo íntimo. Claro, nem todos poderão visitar sua casa sem aviso prévio, telefonar a qualquer hora ou confiar-lhes segredos. Alguns amigos são tão temerários que se souberem de determinadas coisas podem causar uma tragédia familiar ou colocar você em dificuldades.
O amigo íntimo tem a liberdade de conhecer um pouco mais da sua vida e você pode lhe conceder a liberdade de dizer a verdade com frases abertas, sem ser enxerido. Ao contrário, há pessoas que são apenas “conhecidos”, porém se julgam no direito de entrar na sua vida pessoal sem ser convidado e te afrontam com palavras. O amigo íntimo sabe como entrar na sua vida e sair sem ser inconveniente, sem agredir a sua vaidade ou ferir a sua dignidade. Ele sabe o momento propício de conversar calmamente com sinceridade e orientar sobre os seus erros e conduzi-lo ao caminho certo. O verdadeiro amigo não encobre erros, fazendo vista grossa com se o bem-estar do outro lhe fosse alheio, mas não é repulsivo com repreensões descabidas. Por outro lado, o amigo íntimo sabe elogiar, incentivar e se orgulha dos seus progressos, sem ponta de inveja, ressentimentos ou sentimento de autocomiseração.
Considero que o entendimento da verdadeira amizade é ponto de partida para um relacionamento mais profundo: o relacionamento matrimonial. É no matrimônio que se desenvolve a intimidade no seu sentido físico, emocional e espiritual. Por isto, o casamento tem um significado tão teológico que no cristianismo é considerado um sacramento. A intimidade não se resume a fricção mecânica do sexo, mas na comunhão de sentimento, interesses e motivações que torna a duplicidade dos gêneros uma só carne.
O relacionamento íntimo verdadeiro cancela todas as desculpas da incompatibilidade de gêneros. Aliás, a humanidade é composta de um ser: o homem em dois modelos (gêneros): macho e fêmea. Nesse caso, o corpo é a única diferença entre um homem e a mulher, pois são ambos um mesmo com alma com as seguintes faculdades: sentimentos, vontade e inteligência. As demais convenções foram estabelecidas pelas definições social e culturais da visão de gênero. Assim, ambos estão propensos a amar, criar e sonhar. O relacionamento íntimo considera a unidade dessas faculdades da alma para o ser humano se eternizar na família, por meio dos seus descendentes.
CONCLUSÃO
Assim, resumo que todos podem ser meus conhecidos, muitos podem ser meus amigos, alguns podem ser amigos íntimos e com alguém do sexo oposto pode-se desenvolver um relacionamento intimo monogâmico, por meio do casamento, para se eternizar por meio dos descendentes.
REFERÊNCIAS:
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.
BOTTON, Alain. Desejo de Status. Tradução Rita Vynagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FELICIDADE E SATISFAÇÃO

Felicidade - Ai vou eu
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Recentemente fui abordado com a seguinte pergunta: “você feliz?” A partir da resposta afirmativa, surgiu a segunda pergunta: “o que é felicidade?” Nesse momento, afloraram minhas percepções de que havia um anseio por uma resposta objetiva, purificada de qualquer pretexto de subjetividade ou de relação particular. Aliás, a realidade do sentimento é muito particular, pois a alma é invisível e seu reflexo é visto por meio de palavras ou reações do ser humano. Por isto, a caixa preta da alma humana recebe vários nomes: inconsciente, id, subconsciente, coração, como uma ideia de estar caminhando em um terreno minado.
1. O CAMINHO DA FELICIDADE
Os enigmas da existência residem nas perguntas sobre a origem do ser humano, sua identicidade, possibilidade, propósito e destino. Claro, são perguntas difíceis de serem respondidas; por isto, os mistérios da ciência não se esgotam. Surge a procura de respostas até, se possível, em outros planetas. É consenso que o método da razão e da emperia não traduzem o senso de satisfação por um conceito de felicidade.
O caminho para se chegar à definição de felicidade passa pela solução do problema da resposta sobre a identidade do ser humano. Ou seja, a identificação de um propósito para a existência, a partir da transcendência divina, leva ao entendimento do homem como um ser criado. Isto só se encontra na transcendência, na faculdade da fé e da esperança e na crença na imortalidade da alma. Assim, surge um sistema de crenças no Deus pessoal, condescendente, que se relaciona intra e pessoalmente com seus adoradores. Por consequência se constitui em princípios para a satisfação da pessoa no seu conteúdo material e imaterial. Tal crença foi inaugurada no Judaísmo e perpetuada no Cristianismo.
Podemos inferir que a lei universal da felicidade encontra-se no Sermão da Montanha. Sua profundidade moral e espiritual inspirou o líder Mahatma Karamchand Gandhi (1869 – 1948) a se expressar dessa forma: Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse O SERMÃO DA MONTANHA, nada estaria perdido.” A definição da felicidade se encontra na virtude, valores morais e espirituais elevados, como: a humildade, a mansidão, a pureza de coração, o exemplo, o desprezo ao amor às riquezas e às primeiras posições, mostrando que o caráter é essencial enquanto que a reputação é transitória e superficial.
Vivemos em um mundo em que está em voga a cultura da emoção, sendo valorizado “o sentir-se bem”. Nessa sentido a felicidade tem uma definição imprecisa como: é uma gama de emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento ou satisfação até a alegria intensa ou júbilo. Por isto, a busca por emoções, adrenalina e fuga da realidade vão desde os esportes radicais ao consumo de drogas. Também, as diversões são pretextos não para o entretenimento, mas para conter uma aflição de espírito: um vazio existencial.
No enredo da cultura da emoção até o amor é banalizado, sendo capitalizado como objeto descartável, tendo o significado do flerte e do ficar. Assim, o sexo é um momento de gratificação pessoal, individualista, mesquinho, ausente de qualquer sentimento de amor ou de intimidade. Aliás, namorar é o começo do acasalamento, sendo o casamento um mero contrato social, que pode ser desfeito até a primeira prova da adversidade de gêneros.
O conceito de felicidade tem conotações capitalistas na representação social imposta pelos meios de comunicação. Por isto, é divulgada uma imagem de um homem feliz, milionário em uma mansão, com bebidas, carros importados e vida dissoluta. Outra imagem plantada é que a fama traz felicidade. Porém, como explicar os conflitos de gente rica e famosa com drogas, corrupção, separações e até mesmo suicídio?
A inversão de valores implica a confusão dos conceitos de felicidade e deturpa os sonhos. O rico tem o pesadelo de não querer ficar pobre e teme pela sua segurança, pois qualquer delinqüente pode minar o seu tesouro. Mesmo assim, um dos aspectos do capitalismo é a universalização do sonho de ter, principalmente dos mais pobres, porque a riqueza se concentra nas mãos de poucos. Talvez, nas aspirações de poder e na aquisição de capital esteja a gênese da violência e de outros crimes.
2. MINHA DEFINIÇÃO DE FELICIDADE
Minha definição de felicidade está presente na paz interna que o ser humano deve buscar. Isto conduz a sensação de quietude e bem estar pessoal. Logo não é uma explosão momentânea de alegria e ausência de momentos de tristeza. Aliás, a tristeza tem uma função compadecente com o sofrimento do próximo, visando a melhoria do seu estado de espírito e auxílio em suas tribulações. Por isto, doar-se pelo próximo produz satisfação como um orvalho que desce sobre a terra e ajudar as plantas a produzirem os seus frutos. Não me refiro a uma tristeza produzida pela ansiedade e que pode levar à depressão. Minha definição concorda com o apóstolo Paulo que fala de uma tristeza que conduz ao resgate da alma e enquanto que a outra produz morte.
O meu conceito de felicidade não exclui a possibilidade do sofrimento. Por isto, relato a experiência de conhecer uma pessoa que sofreu derrame, ficou na cadeira de rodas e sensibilizava as pessoas com sua autoestima, mensagens de fé, de otimismo e explosão de alegria. Sua imobilidade do corpo não paralisou as faculdades do espírito, transmitindo vida quando seu estado de saúde significava expectativa de morte. Nesse caso, a tribulação pode ser entendida como um ensino da perseverança que produz experiência e esperança. Claro, quando se tem esperança há vida e sonhos e não há rendição, pois quem se alimenta de esperança alcança vida eterna.
A felicidade está relacionada ao sistema de crenças que orienta o estilo de vida da pessoa. Ninguém vive a parte do seu sistema de crenças, pois, de outro modo, vaga orientado por qualquer vento de doutrina, sem direção. O sistema de crenças possibilita a visibilidade do propósito da existência humana, suas potencialidades e destino. Por isto, o cristianismo não existiria se não houvesse um propósito que toca de forma tão significativa nas expectativas humanas de vida eterna. Claro, o propósito é mais importante do que a existência, porque é anterior a esta. O entendimento do propósito leva a mudança da cultura do ter pela do ser. Ou seja, a essência humana é mais importante do que as motivações mais mesquinhas do ego.
Outra questão é que a felicidade é um bem tão valioso que deve ser compartilhado. A minha felicidade deve repartida com o meu próximo, quer ser por meio de valores morais, exemplos e lições de vida. A forma mais potente de satisfação do próximo é a solidariedade, principalmente em suas aflições. A solidariedade alivia a dor e possibilita sentimento de significância ao próximo irradiando alegria. Por consequência, a solidariedade produz reconhecimento e torna o doador recompensado com mais felicidade.
Infelizmente, há a ingratidão. São pessoas que não reconhecem o bem recebido e, na primeira intempérie, difamam aquele que lhe ajudou nos momentos difíceis. O Dr. Mike Murdock define Ingratidão como “investimento em pessoas erradas”. Contudo, tal situação serve de alerta para fazer o bem a todos, sabendo que até mesmo Jesus recebeu a ingratidão de nove leprosos que foram curados.
CONCLUSÃO
Em suma felicidade é o grande desejo da humanidade, mas é um bem espiritual não se encontra na exterioridade das riquezas e do acúmulo de bens. Compete ao ser humano descobri-la na transcendência de um Deus pessoal, na renovação do entendimento, transformando-se em pessoa revestida de propósito.

REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura do livro
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2001.
pt.wikipédia.org

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O JOGO DUPLO

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Há algum tempo venho fazendo reflexões sobre o fenômeno do poder e sobre as sensações das relações humanas. Todas as reflexões nascem a partir da percepção de fatos ao redor, captadas por meio dos órgãos do sentido. As histórias são contadas por meio de textos analíticos sem a atenção aos nomes de personalidades e eventos.
Tal estratégia parte da crença que a história é uma estrutura e que os eventos não são os únicos, pois se repetem com diferentes pessoas e em diferentes contextos. Aliás, em algum ponto, o comportamento humano se harmoniza em suas qualidades e defeitos, principalmente porque o ritual do poder não é inédito, reproduzindo a dinâmica das tragédias retratadas na história.
O DUELO DAS PALAVRAS
As palavras são construções dialéticas de um jogo da verdade. A verdade reclama pela legalidade e gera disputas no campo da argumentação. Do ponto de vista da razão, impõe ao derrotado a propriedade da mentira. Há quem queira relativar, ponderando que os diferentes pontos de vista são partes integrantes de uma mesma verdade que se apresenta incompleta diante de múltiplos olhares. Por isto, a patente da verdade é disputada ao sabor dos interesses, sendo que a informação pode ser manipulada em seus ângulos e formas, como uma massa de modelar.
Ainda, há quem invoque o argumento de autoridade para inibir a contestação. São os doutores e experts que se notabilizaram em formar opinião e inspirar pessoas.  Eles reclamam o silêncio das pessoas para apresentarem suas teses e emudecem a argumentação dos súditos com sua notável oratória. A tarefa de monopolizar a platéia é um convite ao elogio da loucura, visto que não há diálogo convincente sem o propósito da divergência.
Fabricar a ilusão da democracia é maior falácia dos líderes autoritários e nessa ideologia o discurso da igualdade e da fraternidade encontra o colo dos incautos. Aliás, as palavras podem ser zonas de conforto para conter qualquer tentativa de revolta, com o argumento que a realidade é harmônica e somente os homens que são os causadores dos infortúnios. Por isto, há discursos para qualquer tipo de platéia bem como estratégias para dirimir possibilidade de percepção do contraditório.
A desculpa do mal entendido já se tornou senso comum em todos os extratos sociais, para encobrir a procedência maligna das maquinações humanas. O fato de as palavras terem diferentes conotações, conforme o contexto, possibilita que as armadilhas do engano se propagam no terreno fértil da subjetividade.
Há algum tempo, o homem era capaz de honrar suas palavras por meio do compromisso firmado com um aperto de mãos. Hoje, as palavras não resolvem mesmo que sejam afirmadas por meio de testemunhas. Porém, a prova documental não atenua o conflito antes o agrava, pois o novo foco da discussão brota na disputa de quem detém a melhor linha de interpretação do texto. O conceito de verdade passa a ser interpretativo e quem conseguir superar os adversários no poder da argumentação, julga ser quem expressa a verdade.
O conceito de ideologia dado por filósofo Pedro Demo é o mais apropriado, pois cada um quer justificar suas posições políticas. A disputa pelo poder compreende as conivências e conveniências, dando novo desenho a famigerada coerência. Vale, então, o jogo de cena em que os elogios e as críticas são quadros apresentados em diferentes contextos de uma mesma peça. Assim, a integridade passa a ser julgada a partir do pressuposto da dúvida e o homem sincero passa a ser incrédulo das reais intenções do coração das pessoas ao seu redor.
Por conseqüência, surge nova tarefa: ouvir e decodificar as palavras, pois elas são instrumentos de poder como se fossem flechas nas mãos dos astutos e armadilhas para apanhar informações privilegiadas. Também, falar tornou-se uma atividade oportunista e perigosa enquadrando pessoas na encenação da disputa do poder. Qualquer palavra mal pronunciada conduz a um julgamento do qual a pessoa poderá ser absolvida ou culpada no tribunal da inquirição. Nesse caso, fabricar álibi é um meio mais usado para consolidar as explicações. Aliás, até o silêncio dos inocentes pode ser arbitrado como omissão, covardia e indecisão. Logo, a distância dos holofotes é um mecanismo de fuga dos possíveis infortúnios.
Nisto é notável que a sabedoria tornou-se incipiente no universo da valorização da esperteza. Para tanto, surge um neologismo para atenuar a deslealdade e valorizar o jogo de interesses; ou seja, as parcerias por conveniência. Já presenciei a desfaçatez de alguém dizer não ser amigo de ninguém, pois era o profissional suficiente para ater-se na individualidade das suas atribuições. Depois, para contemporizar defendia a parceria, dizendo que ninguém nasceu para ficar sozinho. Logo, suas alegações eram hedonistas, visando apenas as satisfações do seu ego.
É possível imaginar o nível de adrenalina liberada nas preliminares dos embates de grupos antagônicos. No quadro das intencionalidades surgem as definições de altruísmo e vilania, imputadas reciprocamente. As mágoas e os ressentimentos estão bem guardados no cofre seguro do inconsciente para serem liberadas na forma de recalque. Aliás, a sinceridade é a virtude mais invocada pelas lideranças sádicas de poder que disputam seguidores como se fossem suas propriedades intelectuais. Nesse caso, exercer a ascendência sobre alguém e capitalizar apoio no momento oportuno. Tal segurança é ilusória, pois como uma palha os indecisos são alçados a qualquer vento ideológico.
A ética é um mal fadado álíbi para disciplinar comportamentos humanos embriagados pela busca da supremacia das demandas corporativistas, com a alegação de interesse coletivo. Mas, até quando se confunde os interesses individuais com os coletivos?
Assim, viver na encruzilhada de egos exacerbados é colher espinhos de ouriços, tentando evitando qualquer distração para não se ferir. Talvez, a contemplação como platéia seja uma estratégia medrosa e uma tentativa de demonstrar a pretensa neutralidade. A melhor zona de conforto é desenvolver o aprendizado das relações de poder, tentar compreendê-lo e conduzir-se prudentemente: estar pronto para ouvir e tardio para falar; examinar tudo e reter o que é proveitoso.
CONCLUSÃO
A dinâmica da história está situada nos conflitos das relações humanas, na disputa de poder, nos embates sangrentos que mudaram a geografia do mundo. Os interesses megalomaníacos dos imperadores da antiguidade ainda inspiram pessoas sedentas por um lugar ao sol, mesmo que para isto seja necessário lamber as feridas de suas vítimas.
REFERÊNCIAS
Recomendo:

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CONTRATO SOCIAL

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUCÃO
A liberdade está sempre sendo abordada em meus escritos como algo inerente a natureza humana. Tal abordagem encontra consistência na crença de que nenhum indivíduo nasceu para ser oprimido, pois de outro modo o espírito humano reclamará. Nesse caso, a opressão e escravidão são incompatíveis com a essência e a existência do homem.
Com relação a liberdade prevalece a discussão sobre os seus limites: o homem é livre, logo pode fazer tudo? O homem é ser livre ou determinado? Nas discussões das premissas do existencialismo, surge o entendimento que o homem é livre, mas também é determinado, pois se insere em um contexto sobre o qual lhe é imposto condições, regras.. Ou seja, é um “ser no mundo” que está vinculado a uma macroconsciência que instituiu no decorrer da história os conceitos morais, religiosos, culturais e legais. A macroconsciência estabeleceu um senso comum sobre as contradições da sociedade e tem um caráter axiológico (i.e. de valores em todos os sentidos morais, espirituais, culturais, etc.). O exemplo mais evidente desse fator axiológico são as convenções sociais que se impõe sem exigência de um código expresso e as pessoas se submetem voluntariamente a determinadas condições como a forma de vestir, o modo de falar e até o entusiasmo.
Ainda, há comportamentos que se impõem por meio da imitação de personalidades. Aliás, isto é uma condição para criar um exército de imitadores, sendo alguns sem noção do que fazem. A palavra “inspiração” traduz o desejo de viver, mesmo que de modo simbólico, qualidades e status de pessoas influentes. Contudo, que inspira pessoa deveria ter o senso de responsabilidade social. Por isto, há de se lamentar as más influências de certas personalidades.
Vivemos em uma sociedade em crise em todas as estratificações, sendo que, alguns casos, se enquadram na definição de anomia dada por Émile Durkeime (1858 - 1917). A sociedade reclama por limites que devem começar na família que é a célula mater da sociedade. O problema é que existem regras em demasia e pouco cumprimento, pois a transgressão é celebrada como uma virtude ao olhar cego das pessoas idôneas. As pequenas infrações perderam ao olhar de ampla maioria a conotação de crime, popularizando-se o jeitinho, a esperteza e a omissão. Há quem julgue que esta geração já está perdida e é preciso investir na educação da geração seguinte para eliminar o mau costume vigente. 
1. O CONTRATO SOCIAL É UM PRINCÍPIO
O princípio é superior à norma e está relacionado às impressões mentais fincadas no indivíduo. Tudo começa com a assimilação das idéias apresentadas de modo devocional; isto é, como uma crença a ser seguida. As pessoas seguem aquilo que crêem, pois as idéias impressas na mente passam a constituir uma filosofia de vida, determinando um estilo de vida. Assim, a obediência é produto de uma crença em valores éticos e morais considerados altruístas. Uma pessoa justa não se abala por causa de sua crença, apesar da opinião lesiva de ampla maioria.
Nada acontece sem liderança. Por isto, qualquer coordenador de um grupo ou de uma instituição deve instigar a curiosidade de seus companheiros a pensar os problemas de sua comunidade, saindo do fascínio da murmuração solitária e estéril. A problematização da realidade deve ser a manifestação livre do pensamento e da identidade com o grupo, expondo todas as contradições e firmando vias de consenso por intensa negociação.
Na abordagem centrada no estudante é apresentado o contrato social como um pacto estabelecido entre o professor e os estudantes, mediante negociação de condições e o compromisso de co-responsabilidade para a ministração do ensino. O contrato social teve também suas definições dadas Jacques Rousseau que desenhou o ideal de uma sociedade sem vícios da exploração, que prima pelo bem comum.
Carls Roger (1902 – 1987) influenciou uma pedagogia humanista que visa à autonomia do sujeito. Isto significa o enfoque na liberdade e na renúncia a qualquer forma de autoritarismo. Aliás, há uma diferença entre autoridade e autoritarismo. A autoridade refere-se à competência ou à capacidade de alguém em orientar, em influenciar ou inspirar pessoas, incultando-lhes a crença ou um ideal que proporcione uma obediência voluntária, fincada em um propósito. A obediência, produto de um contrato social, é fincada em um propósito altruísta é originária de um consenso e implica em uma mudança profunda em todos os sentidos da vida da pessoa. Claro, a norma deixa de ter um caráter imperativo e passa a constituir uma filosofia de vida, uma abordagem, um jeito de ser. Nessa concepção, as pessoas devem enxergar-se como sujeito da própria história e não como reprodutoras de um sistema ou de uma cultura.
O autoritarismo aponta para a coerção e outros mecanismos de força, chantagem, ameaças, mesmo usando um instrumento impessoal que é o regulamento. O Dr. Myles Munroe expõe que o homem é um ser com características para dominar. Logo por natureza não aceita se submeter a algo que lhe é imposto por outra pessoa por mais importante que seja. Por isto, em sua palestra sobre liderança ressalta que os líderes inspiram e convencem as pessoas e não as manipula, pois o autoritarismo é produto da insegurança de que não possui a devida autoridade.
A educação é fundamental para o estabelecimento dessa nova conduta. Por isto, acho interessante a critica de que a comoção social por causa dos agravantes casos de corrupção é inútil e não contribui para erradicar essa mazela, apesar da exploração excessiva da mídia. Há quem diga que é preciso erradicar os maus políticos e substituí-los por outros de ilibada reputação. Contudo, a corrupção não é só um crime é uma cultura instituída historicamente que se notabiliza pela celebração à esperteza, à preguiça, ao jeitinho, ao levar vantagem sobre outra pessoa, ganhar dinheiro fácil, etc. Por hipocrisia, as pessoas não enxergam essa gênese da corrupção presente em todos os estratos sociais.
2. O CONTRATO SOCIAL É UMA ALTERNATIVA POSSÍVEL
Acostumei a ouvir que as regras negociadas são mais eficazes daquelas que são impostas, por que ninguém docilmente aceita ser subjugado por normas que no seu entendimento são arbitrárias. A obediência a contragosto se encobre na rebelião dos murmúrios do pensamento. Também, o homem não se envolve afetivamente com regras impostas, que lhe são alheias porque não contaram com a sua participação. Muitas escolas entenderam e elaboram suas normas a partir da discussão coletiva com a comunidade escolar e local, para que as regras sejam entendidas para ser obedecidas por todos e por cada um.
O contrato social se notabiliza pela aproximação das pessoas. A comunicação é fundamental sem o pressuposto do status de lideres e seguidores, pois todos são iguais e nivelados pela horizontalidade do diálogo despido das disputas pelo predomínio da verdade individual e das tentativas de vencer o outro pelo cansaço. Contanto é necessário que a discussão dos problemas seja conduzida de forma honesta e sem constrangimentos. A censura é um obstáculo para esse diálogo franco e até a raiva e a repulsa de determinadas situações devem ser um meio para o exercício da escuta dos sentimentos do outro, sem o revide e a retaliação das palavras ou ações. Aliás, é preciso entender os sentimentos do outro, pois a paixão permeia todos os atos da humanidade. Nesse caso, o olhar compreensivo refere-se a tentativa de colocar-se no lugar do outro, saindo da esfera do próprio corpo e da consciência individual. Por isto, a renúncia ao individualismo passa pela forma como consideramos as necessidades do próximo e como nos envolvemos pela busca da solução dos seus problemas.
Assim, o contrato social tem seus fundamentos no direito à pessoa ao respeito. Ou seja, a pessoa deve participar das decisões coletivas que interferem na sua vida. Isto vai além das concepções vigentes de democracia que são muitas limitadas no sentido prática, confundindo-se com o voto. O contrato social é firmado por um diálogo no qual não as informações são apresentadas de forma transparente. Elas não são sonegadas para privilegiar determinado grupo hegemônico que quer se perpetuar no poder, a exemplo dos reinos absolutistas e das capitanias hereditárias. O conhecimento é um meio de entendimento da igualdade entre as pessoas e fortalece o entendimento do contrato celebrado.
A idéia do contrato social deve começar em grupos e instituições menores. Por isto, tem relevante sucesso nas comunidades terapêuticas que investem em valores humanos, tendo como premissa o respeito e a fraternidade. Nesse entendimento não há pessoas com privilégios, pois todos compartilham o compromisso pelo bem estar do grupo. A idéia de grupo conduz a unidade de pessoas, inclusive em relação ao sofrimento e a alegria. Até, o entendimento de liderança passa a ter nova significação: um serviço a ser prestado em benefício da coletividade. O líder é um coordenador de debates e atividades, identificando qualidades e talentos de cada pessoa para que a diversidade dons seja utilizada em benefício da unidade do grupo. A liderança de uma pessoa não produz dependência ao grupo, mas ajuda a potencializar as qualidades de cada um e ensina a administrar a autonomia com respeito à ética e ao bom senso. Por isto, o contrato social é um processo de diálogo constante em direção ao equilíbrio das relações sociais, mediado pelo bom senso.
A concepção de justiça passa pelo que é entendido por todos. Aliás, grandes conflitos são resultados de mal entendido. Se uma regra não é construída coletivamente e socializada com todos, ela é arbitrária, pois foi outorgada. Também, uma instituição sem regras é uma bomba relógio pronto para explodir uma fatalidade a qualquer momento. Aliás, o ser humano tem impressões em sua consciência sobre o bem e o mal, mas as pretensões belicosas, egoístas de cada um cauterizam o respeito ao próximo, tornando-se necessário as regras. Nesse caso, o problema é a forma que as normas são instituídas, pois a obediência conquistada é mais eficaz do que a obediência imposta.  
CONCLUSÃO
As contradições da sociedade refletem as diferenças entre cada indivíduo. A liberdade impõe responsabilidades, pois segundo o pensamento paulino “todas as coisas me são lícitas, nas nem todas me convém; todas as coisas me são possíveis, mas me deixarei me dominar por elas” (I Coríntios 10: 23). Ou seja, a liberdade é uma faculdade humana de deliberar sobre as opções que lhe são oferecidas quer seja para o bem ou para o mal.
O problema é que o homem não é um ser só no mundo como se suas ações tivessem implicações individuais, sem conseqüências a outras pessoas. Por isto, a vida é celebrada da qualquer pessoa é celebrada por sua família, seus amigos e até gente alheia e, igualmente, o sofrimento causa a aflição de espírito aos seus semelhantes. Assim, sendo todas as ações devem ser disciplinadas para produz a solidariedade, igualdade e a fraternidade entre os homens.
REFERÊNCIAS
Recomendo a leitura dos textos relacionados a abordagem Centrada no Estudante. Também é importante a leitura dos DVD’s do Dr. Myles Munroe sobre a liderança servidora, Central Gospel, 2009.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O MUNDO DAS IDEIAS

O MUNDO DAS IDEIAS
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Para ingressar no universo das palavras, busco a inspiração na transcendência dos sentimentos cujos mistérios são como o murmuro da alma adormecida. Assim, invoco a onipotência de pensamentos e logo vêm os sonhos de olhos abertos que revelam os desenhos e as palavras diante de uma folha em branco. É a visão do projeto acabado antes de ser iniciado. Por consequência, o escritor suspira na ansiedade de materializar a visão e socializá-la ao maior número de pessoas. Deste modo, saem os pensamentos e. na beleza da graça, nascem as idéias.
Os pensamentos surgem da apreciação do mundo de forma apaixonante, extraindo a beleza das coisas e interpretando-as de forma lógica. A autocensura torna-se um elemento disciplinador que faz a pessoa reavaliar constantemente os seus pensamentos, buscando as possíveis incoerências. Sanadas às dúvidas, vêm a convicção e a pessoa passa a amar os seus pensamentos e a exprimi-los por meios de palavras. Por isto, o pensamento só se torna ideia quando é divulgado. Porém é necessária a identificação de um propósito, pois toda ideia se constitui para uma finalidade.
Apaixonado pela beleza, decidi entrar no mundo das idéias por meio da sensibilidade, pois os sentimentos afloram no momento da imaginação, do exercício do senso lógico como se fosse uma atividade extática. Por isto, os poetas e escritores buscam a solidão para poderem dialogar com os seus pensamentos e como se fossem malucos conversam consigo mesmos, fazendo perguntas e ao mesmo tempo respondendo a si mesmos. Quando não estão satisfeitos, fazem perguntas a outras pessoas e se divertem com as respostas, confundindo-as com sua ironia.
A partir dessa realidade, fiz algumas observações relacionadas ao mundo das ideias tão apregoado por Platão como algo transcendente, divino como dádiva dos deuses. Porém, quero fugir de concepções metafísicas e dirigir o foco para o universo dos sonhos e da imaginação que se assemelham por princípio ao mundo das ideias.
A IMPORTANCIA DA SENSIBILIDADE
Para o filósofo italiano Domenico di Masi, a paixão está presente em todas as atividades humanas e cita eventos ao longo da história de determinados atos passionais. Ou seja, todos os atos humanos estão providos de sentimentos de ansiedade, tristeza, alegria, raiva, etc. Portanto, escrever ou realizar qualquer arte é uma atividade passional, pois está repleta de diferentes sentimentos.
Os sentimentos levam a desejar uma realidade factível ao universo dos sonhos. Daí surge a imaginação como algo real aos olhos do poeta que se expressa por meio de metáforas. Para aquilo que se vê no universo da imaginação não há palavras suficientes para traduzir, por isto se recorre às metáforas. Aliás, as metáforas são tão divinas que foram utilizadas por Jesus Cristo, pelos filósofos e pelos poetas.
Contudo, escrever é um ato solitário e extático, pois adentrar no mundo das idéias é experiência individual, dependente da concentração para que a pessoa possa dialogar com si mesma. Nesse momento, o escritor se desliga do mundo e fica sozinho com os seus pensamentos. Por isto, alguns não ouvem nem percebem quando alguém chega a seu redor.
A associação intelecto e imaginação é parecida com o universo dos sonhos onde o ser humano se liberta da censura e extravasa os seus desejos. Claro, nem tudo que se pensa é colocado no papel, devido aos mecanismos de repressão das convenções sociais impressas na alma do ser humano - Rubem Alves chama essas impressões de tatuagens de palavras que grudam na mente e no corpo. Contudo, o escritor quando se orienta pela sua imaginação tende a se tornar um transgressor dos conceitos estabelecidos socialmente.

É NECESSÁRIO LIBERDADE PARA VER A BELEZA
A libertação dos mecanismos de repressão tem por objetivo produzir condições para o nascimento das idéias. Sempre recomendo que as pessoas procurem a posição mais relaxada para se libertar de quaisquer estresse. Se bem que alguns têm nos momentos de tristeza o seu momento mais criativo. Eles conseguem traduzir a beleza da tristeza com metáforas férteis que descrevem o enlutamento da alma, como fez o poeta Fernando Pessoa (1888 – 1935).
Sobre a beleza, o filósofo e educador Rubem Alves opinou que a beleza não se encontra somente nas coisas alegres, mas também nas tristezas. As cores das árvores, os sons das águas e o cheiro das flores são a beleza bonita, inspiradora do romantismo; mas a tristeza da solidão pode ser traduzida por meio de metáforas, conduzindo as pessoas à reflexão sobre a perenidade da vida.
Por isto, a beleza está presente em toda a natureza, não somente naquelas definidas pelas convenções. Aliás, o que é belo deve ser desfrutado particularmente como um manjar por meio dos olhos da alma e, nessa experiência individual, não espaço para os intrusos carrancudos com os seus problemas.
O mundo das idéias é o mundo da beleza do pronto, do acabado, apesar da crueza da realidade, com as injustiças e desamor. As idéias podem não mudar o mundo, mas podem mudar o homem. Claro, todos nós somos frutos de um sistema de crenças, oriundas de um encadeamento de ideias, que orientam uma filosofia de vida e definem um estilo de vida, comportamentos e atitudes.
Assim, concordo com Myles Munroe de que as idéias são mais poderosas que o homem, pois elas têm existência quase eterna e determinam o destino dos homens. Ou seja, idéias equivocadas conduzem as grandes tragédias como o nazismo, o terrorismo, etc. Porém, ninguém consegue matar uma idéia. É mais fácil matar um homem do que uma idéia. Por isto, quando se persegue uma idéia, ela se multiplica e torna-se incontrolável como o terrorismo. A solução é combater uma idéia apresentando uma outra melhor, pois as ideias se incorporam as estruturas mentais dos homens como suas células e neurônios.
Logo, no mundo das idéias se visualiza uma realidade de beleza e de perfeição. Claro, que essa perfeição é ilusória tal como a fantasia, mas é ponto de partida para desejar e atuar por um mundo melhor.
CONCLUSÃO
A frieza da racionalidade do mundo as vezes não permite as pessoas a perceberem os detalhes do mundo ao redor e os seus significados. Tal situação é provocada pela velocidade de se buscar os resultados de forma imediata. Por isto, pensar é uma forma de buscar a solução de problemas e não uma busca de resposta as questões existenciais.
Ingressar no mundo das idéias é pensar a razão de ser das coisas e sobre elas emitir julgamento moral, social, estético e cultural. É tentar ver-se não como reprodutor de condutas e de um sistema de pensamentos, buscar construir suas próprias conclusões.
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem, O céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas. São Paulo: Versus Editora, 2008.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OS ENSEJOS DO PRÓXIMO ANO

OS ENSEJOS DO PRÓXIMO ANO
Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Chegamos ao final do ano de 2010, quando se renovam os votos de um novo ano feliz e próspero. Os anseios do novo ano devem inspirar atitudes tal como a poesia acalenta o espírito, alegra a alma e transmite ao corpo sensação de bem-estar. Mas, não se deve procrastinar mais uma vez a realização da mudança de atitude, restringindo-se as promessas de fazer tudo diferente no próximo ano.
Certa vez, o filósofo, educador e teólogo Mario Sergio Cortella recomendou que, ao final do ano, cada pessoa pode escrever em um quadro os comportamentos que resultaram em erros ou desastres, em outro quadro as situações positivas e no último quadro as decisões a serem tomadas no novo ano e suas expectativas. Claro que isto é um exercício reflexivo em busca de uma tomada de consciência, evitando o precipitar de uma declaração “foi um ano ruim” ou “um ano muito bom”. Trata-se de uma forma de livrar-se do sentimento de culpa dos insucessos do ano e renovar os sonhos no próximo ano.
A beleza da alva que surge no primeiro dia do ano não deve ser contemplada com a ressaca explosiva, causada pelos excessos dos embalos das comemorações, pois, a programação de mais um ano deve começar nas primeiras horas do dia.
A partir dessas premissas, formulei algumas teses com base em experiência própria, adquirida pelo aprendizado da escuta e pelas tentativas: ensaio erro x acerto. As teses referem ao planejamento, organização, evitar desperdício e cultivar relacionamentos.
A IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO
Tenho sempre ressaltado que para não ser a próxima vítima do acaso deve haver planejamento. Quem planeja acredita que é perigoso esperar pelo acaso, pois suas decisões podem ser anuladas por força de situações alheias a sua vontade. Por isto, não acredita somente no empenho e na força de vontade; pensa que suas energias e pensamentos devem ser programados de acordo com os recursos, tempo disponíveis e oportunidade.
Trata-se da arte de visualizar o objetivo a ser alcançado; ver o resultado do produto acabado antes da sua elaboração; é definir o percurso para chegar a um determinado.
Por isto, uma das queixas de muitas pessoas é o endividamento, acusando o baixo salário. Porém, há várias razões para o endividamento: para alguns é causada por compras por impulso, Ou seja, uma válvula de escape para curar a ansiedade. Sim, há pessoas que buscam curar a irritabilidade, fazendo compras por impulso sem a devida necessidade. Depois, sentem-se culpadas com as contas a pagar; recorrendo a empréstimos para pagar contas e, mesmo assim, conseguem se livrar das dívidas. Considerando que isto é vício, essas pessoas vivem infelizes, inseguras e propensas ao eterno endividamento até se curarem dessa pulsão.
Outras pessoas buscam o alpinismo social e se sacrificam para se identificarem com determinados grupos. Assim, gastam além de suas economias para adquirirem certo status. Ou seja, buscam ostentar a falsa nobreza e a sensação de bem-estar.
Ao ler uma entrevista do humorista Chico Anysio, anotei algumas dicas de economia que ele recebeu da sua ex-mulher Zélia Cardoso de Mello. Segundo seu depoimento, ele aprendeu que a melhor forma de administrar os seus recursos é o pagar as contas em dinheiro, pois, desta forma, é fácil perceber a entrada e a saída do dinheiro. Assim, é possível exercer certo controle sobre o capital, evitando o desperdício.
Como conseqüência, passei a ter um planejamento mensal e anual das contas, privilegiando o pagamento a vista, evitando as armadilhas do cheque especial, do cheque pré-datado e do cartão de crédito. Assim, o planejamento passa ter como referência os recursos reais e não fictícios, observando-se que acumular cartões de diferentes bandeiras é uma estultícia própria daqueles que primam pela ostentação.
Cultivar o estilo simples sem estar preso aos ditames da moda e da novidade é uma sugestão inteligente.  Há pessoas que são vorazes em comprar o último lançamento de celular, roupa sem calcular suas possibilidades com tiverem uma fonte inesgotável de recursos.
O planejamento não envolve só dinheiro. É possível planejar o tempo e a realização dos sonhos. O estilo de vida desregrado é pretexto para se chegar atrasado aos compromissos e cumprir os prazos prometidos. O planejamento possibilita que as coisas obedeçam a uma seqüência lógica de tempo, possibilitando o atendimento a demanda e a previdência dos percalços.
Quando alguém é uma personalidade suas demandas aumentam, tornando-se prejudicado o tempo e sua privacidade é interrompida por incessantes toques de celular.  A disciplina é o remédio para que os contextos não se confundam: vida pessoal e profissional no seu devido lugar e momento. As necessidades têm pressa, mas as demandas podem ser programadas para ser encaminhadas no seu devido tempo, sem o stress do urgentíssimo. Aliás, o planejamento cancela todas as desculpas do urgente – urgentíssimo.

ORGANIZAR AS PRIORIDADES A PARTIR DO QUE É ESSENCIAL
Umas das passagens veneráveis do livro do profeta Isaías capítulo 55, versículo 2 recomenda a administração financeira por prioridade, citando a alimentação.  Aliás, muitas parábolas, citadas nos Evangelhos, tratam direta e indiretamente de administração financeira como, por exemplo: a parábola dos talentos, da minas, do fermento, da semente, etc. São temas que abordam matéria prima, investimento e lucro. Assim, vão contra a mentalidade pedante de se prender ao acaso, sem os recursos do esforço da inteligência e da engenharia administrativa e da oportunidade. 
A vida deve se organizar a partir de prioridades: aquilo que é essencial, depois o que é necessário, partindo para o que é importante e o interessante.
O essencial está relacionado à matéria-prima das necessidades. Está relacionado à aspiração da vida que se constrói no dia-a-dia: a alimentação, o vestuário e a habitação. Definir o que é essencial é identificar a dignidade da pessoa; é ver que sem o atendimento a essas necessidades o homem está condenado à indigência.
Depois, supridas as carências do essencial pode-se buscar o que é necessário: a educação, por exemplo. O bom emprego é proporcional ao valor do diploma, do mérito e da oportunidade. Pelo estudo sistemático chega-se a universidade e obtém-se o diploma, porém isto não é tudo. Deve-se provar o conhecimento adquirido e abraçar as oportunidades que surgirem. Deixar passar as oportunidades é esquecer de acordar para viver o sonho.  Por isto, o necessário valoriza o essencial e possibilita buscar o que é importante e interessante.
As necessidades humanas não se esgotam, porque o homem não quer apenas viver, quer viver bem e com conforto. Assim, o essencial ganha sofisticação e passa a significar “luxo”.
Organizar as prioridades a partir do essencial é reconhecer seus próprios limites. Viver cada momento a seu tempo sem arroubos de soberba e esnobismo. É aguardar a sua vez na história, sem pressa pois cada momento é propício para ser feliz.  
EVITAR O DESPERDÍCIO
É preciso reconhecer que a nossa vida é feita de valores que não podem ser desperdiçados. A dignidade construída no labor histórico de dificuldades não pode ser banalizada por um momento de prazer. Desta forma, muitos têm traspassado a sua alma e provado o sabor da morte.
Por isto, toda a energia de uma vida não deve ser apagada em um momento, quando as dores chegarem cobrando o salário do uso indevido das drogas: álcool, cigarro, barbitúricos e substâncias tóxicas diversas. A energia se esgota quando a natureza do corpo é maltratada por noites perdidas, má alimentação e toda forma de excessos. A vida é um bem raro que não deve ser desperdiçada. Sim, deve ser vivida com cuidado e poesia.
A mente deve ser povoada de bons pensamentos, sem as pragas daninhas trazidas pelo mau uso da internet, da televisão e de certas literaturas. A leitura de um bom livro traz conhecimento e ilumina a alma, libertando-a da ignorância. Por isto, concordo com Myles Munroe quando diz que comprar livros é mais importante do que comprar comida. Ou seja, a comida demora seis horas no organismo, mas o conhecimento dura toda vida.
Valorizar o produto do seu trabalho é evitar o desperdício das sobras de alimentos, compras de roupas que não se vai usar, produtos encalhados no canto da casa. Convém lembrar de um pensamento anônimo: “onde há sobra tem desperdício; onde há fartura tem falta, pois quando todos se alimentam e se fartam não há falta”. “Ou seja, enquanto comidas aqui são jogadas fora em outros lugares pobres há gente passando fome”. Reflita.
CULTIVAR RELACIONAMENTO
O homem é um ser de origem gregária. Ou seja, não consegue viver sozinho sem cultivar relacionamento. Contudo, vivemos em comunidade marcada pela diversidade em todos os sentidos e essas diferenças nos forçam ao diálogo pelo entendimento do outro, sua força de pensar, de ser e agir.
É possível que eu seja conhecido de muitos, mas, alguns deles, escolhi para serem meus amigos. Por quê. Pela aproximação descobri a afinidade, traços comuns e a inspiração. A definição para amizade dada por Mike Murdock é interessante: “a amizade é uma forma de premiar a lealdade e a confiança”. Bem sei que nem todas as pessoas conhecidas são minhas amigas apesar dos bons valores que cultivam e a idoneidade que possuem, pois é uma questão de escolha pessoal. Contudo, a universalidade do respeito à pessoa prevalece na relação entre conhecidos e amigos.
A relação cordial, afetuosa e sincera no trabalho, na igreja e em outras instituições é uma necessidade lógica. É salutar vivenciar relações duradouras, comunicando parcerias e exercendo a tolerância recíproca.
Assim, cultivar relacionamentos no novo ano é salutar para perceber que paz é comunhão e não isolamento, que a felicidade é para ser compartilhada sem constrangimentos e que a vida se frutifica quando nos aproximamos uns dos outros de forma fraterna.
CONCLUSÃO
Viver o próximo ano é um desafio a ser enfrentado com receitas antigas, mas com novas atitudes. Por isto, o planejamento deve estar associado a organização em todos os sentidos, evitando o desperdício e cultivando relacionamentos.

REFERÊNCIAS:
Sugiro a ver a serie de TV: Filosofia, um guia para a felicidade. Apresentada por Alain de Botton no canal da TV Escola.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

Professor Gelcimar da Silva Pereira Nunes
INTRODUÇÃO
Nos tempos de estudante universitário, fui introduzido à pedagogia humanista de Carls Ramson Rogers (1902 - 1987) por meio de um professor provocativo que desafiava os alunos a não aceitarem as informações prontas, a exercitar as percepções do mundo ao redor e extrair dele um novo conhecimento. Ele inaugurava uma aprendizagem centrada no aluno que revelava seus conteúdos vivos, porém precários, os quais eram sistematizados pela intervenção de insight do mediador desse conhecimento.
Assim, a aprendizagem era uma descoberta das motivações, dos sentimentos e do outro por meio de exercícios progressivos de escuta. Era renunciar a própria verdade e colocar-se no lugar do outro, procurando entendê-lo sem autoritarismos e imposições. O exercício da autonomia não era um conceito abstrato dos livros e dos projetos, mas um objetivo a ser perseguido: o aluno ser o orientador do seu próprio conhecimento, quando descobrir-se enquanto pessoa em desenvolvimento pleno. Aliás, definir “desenvolvimento pleno” ultrapassa a objetividade de um conceito; ou seja, é um processo contínuo de autodescoberta, é analítico, reflexivo e orienta um ciclo de vida. Por isto, não é um conceito é uma abordagem, um jeito de ser, uma filosofia de vida.
Como conseqüência, eu já estava incluso em grupo de alunos que se declaravam rogerianos não pelo estilo de vida, mas pela busca de resposta e leitura incessantes de obras inspiradas na pedagogia, filosofia e psicologia de Carls Rogers. Dentre essas obras, cito os escritos do professor e jurista João Baptista Herkenhof e do psicólogo Jhon Keith Wood (1983).
Dessas obras, extrai as quatro teses do direito da pessoa ao respeito. Aliás, tanto a filosofia como a pedagogia humanista estão calcadas na fenomenologia e o existencialismo, inaugurado pelo filósofo e pastor protestante Martin Heidegger (1889 – 1976) que influenciou as obras de Jean Paul Sarte (1905 - 1980) e, também, Karl Rogers.
O direito da pessoa ao respeito vem sendo citado por mim nas conversas e orientam muitas decisões que tenho tomado na vida.
O DIREITO DE SER
No mundo atual, ainda prevalece a idéia do homem padrão, suscitando imagens e imposições de conduta e de representações. A emulação vem sendo a tônica e as pessoas copiam tendências e estilos querendo identificar-se com determinados grupos em busca do status. Nesse caso, a pretensa necessidade de aceitação gera uma crise de identidade, sendo corrente a ausência de autenticidade quando se quer parecer com alguém. Assim, há pessoas que não se decidem sem uma segunda opinião.
Há pessoas que tentam se rebelar contra a hegemonia da ditadura da moda, da magreza e da imposição de etiquetas sociais, querendo assumir o protagonismo de suas decisões, sem a interferência de terceiros.
O Direito de Ser é uma via de mão dupla porque depende da redescoberta do EU, sem o vírus do egoísmo, do individualismo, do esnobismo ou da autocomiseração. É conseqüência de um “continuum”; isto é, um crescimento pessoal em direção a autonomia. Isso depende de um “feedback” (retorno da informação) da relação com outro. Aliás, é impossível crescer sem essa troca de informações a qual possibilita o reconhecimento dos seus defeitos e possibilidades.
Quando há o reconhecimento do direito de ser não há agressão, opressão nem imposições. É a redescoberta do exercício da liberdade em seu sentido pleno. Há quem diga que na liberdade não há limites porque o direito do outro caminha junto com o seu, bem como as conquistas e seja verdadeira a consciência de que qualquer agressão ao direito tem conseqüências recíprocas.
O direito de ser não anula valores nem discrimina o outro. As diferenças de opinião e o jeito de ser são respeitados, validando a variedade que existe entre os seres humanos.  É o respeito ao livre-arbítrio da pessoa ser o que ela é não o que os outros querem.    
O DIREITO DE SONHAR
Todo ser humano tem o direito de desejar o melhor para sua vida, independente das opiniões dos outros. As opiniões, quando solicitadas, são válidas e qualifica a avaliação das possibilidades do sonho. Aliás, sonhar faz parte da essência humana, pois quando alguém deixa de sonhar sua vida perde o significado. Por isto, sempre tem alguém fazendo planos de ter um carro, uma casa, um emprego melhor; ou seja, o sonho é algo transcendente como a fé e inaugura possibilidades.
Há quem diga que você pode não realizar o seu sonho, mas chegará bem perto dele. Por isto, é necessário sonhar para descobrir significados e motivações. Claro, o sonho é capitalista e sua realização exige um preço não calculado. Imagine quanto custa a perda de horas de sono, da ansiedade, da privação do prazer até a conclusão de um curso superior. Há sempre o deboche com quem exerce um cargo público, mas nunca é perguntado qual é o preço da realização do seu sonho.
Antigamente as mulheres eram privadas de sonhar porque o seu destino era determinado pelos pais. Eram condicionadas a desejar ter um bom marido e serem boas donas de casa. Lamentalmente, ainda existe resquício desse autoritarismo contra as mulheres que, quando casam, são proibidas de trabalhar fora.
O direito de sonhar inaugura as possibilidades do futuro e faz a pessoa ser protagonista da sua história, sem interferência ou imposições.
O DIREITO DE QUERER
Percebo nas manchetes dos jornais tragédias causadas por ex-namorados e ex-maridos que não aceitam a separação e querem impor às mulheres sua vontade e, não conseguindo, realizar o intento partem para a violência moral e física e até à morte.
O instinto de dominação faz que alguém queira a supremacia sobre o outro, inclusive no sentimento e na vontade. A tática da mentira tem favorecido à escravidão da mente dos incautos, presas fáceis do materialismo do capital e do desejo de ascensão social. Há homens e mulheres que se sujeitam a caprichos de outras pessoas, passando por cima da propalada dignidade e da coerência.  Contudo, a verdade liberta como a luz espanta as trevas da escuridão dando possibilidade de alguém andar sem tatear ou amparar-se em alguém.
O maior bem que alguém possa querer é a liberdade, a paz e a consciência tranqüila. O desejo do bem-estar e do conforto não deve ser pretexto para nulidade da individualidade. Claro, querer realizar um sonho depende de planejamento e análise da viabilidade dos recursos.  O direito de querer não pode ser ilógico. Doutro modo, vira obsessão e loucura.
Querer é o exercício da vontade com responsabilidade ao direito do outro ao respeito. A realização da vontade não deve ser mesquinha ou invejosa, querendo copiar a história de alguém. Assim, quando alguém se descobre pessoa em desenvolvimento pleno consegue equilibrar sentimento, vontade, intelecto e ação.
O DIREITO DE VIVER
Fazer da existência uma prática de liberdade não significa fazer o que quer. É como se visse desenrolar diante si a sua história como um filme, sendo colocadas as opções de sucesso e fracasso. É possível visualizar uma história de vida ao longo dos anos. Para isto serve os sonhos: para desenhar uma realidade desejável.
Viver a vida é caminhar a trilha da existência, banhada por um sol de decisões conscientes. Não é a ausência do erro ou até mesmo de fracasso, mas é a capacidade de extrair aprendizados para os próximos passos na trilha sonora da transcendência. Aliás, é teológico pensar como é espiritual sentir a beleza da alma fruir diante dos nossos olhos. A interioridade dos sentimentos e seus significados nos tornam humanos e nos leva a compreender uns aos outros.
O direito de viver não conduz ao isolamento, mas a solidariedade do respeito à vida, sem o escárnio das diferenças do outro. Aliás somos uma orquestra. Cada ser humano é um instrumento diferente com sonoridades distintas que o criador pretende reuni-los como uma orquestra para apresentar o espetáculo da urbanidade e da tolerância.
O direito de viver é descobrir a simplicidade das coisas, da natureza. A maior natureza de Deus é você e sua vida não deve ser maltratada, destruída e extinta. Que pena, se o homem destrói o outro ser humano que é a natureza, quanto mais os animais e a floresta.
CONCLUSÃO
Sou livre, a vida me contenta com os seus desafios. Estou pessoa em desenvolvimento em pleno: o que sou parte de um desígnio, de uma visão que me leva a um propósito. Estou aprendendo a ser natureza de Deus.
Convido a todos a refletir sobre o direito da pessoa ao respeito, Se policiar quanto aos sentimentos de raiva – expor a raiva sem as conotações de vingança e intolerância –, palavras ofensivas e atitudes impetuosas. O exercício do feedback, é deixar o outro falar até esgotar a fonte dos seus sentimentos e se manifestar por uma leitura do sentimento do outro, sem aquele mecanismo da retaliação, do ego ferido. A compreensão da raiva do outro é o ponto de partida para inaugurar as possibilidades de entendimento e concórdia. Aparentemente, o pensamento conservador julga ser uma atitude condescendente e covarde, mas Nelson Mandela mostrou que o diálogo entre inimigos parte do reconhecimento da integridade do outro, zerando as motivações da justiça e injustiça, apontando o caminho para o perdão.
A abordagem centrada na pessoa leva o reconhecimento do respeito. Mas em sociedade contaminada pelo individualismo, torna-se necessário que o respeito seja a tônica para a suplantação das desigualdades e intolerâncias

REFERÊNCIAS
Recomendo as leituras dos livros sobre a prática não diretiva como:
WOOD, Jhon Keith. A abordagem centrada na pessoa. Vitória: Edufes, 2008.
Acesso a outras obras sobre a pedagogia humanista.